Vítor Murta, antigo presidente do Boavista entre 2018 e 2024, morreu esta sexta-feira, 16 de outubro de 2026, aos 50 anos, vítima de um ataque cardíaco, segundo o jornal O Jogo e outros órgãos de comunicação social. A notícia reabre uma pergunta que muitos portugueses na casa dos 40 e 50 anos fazem em silêncio: se um homem ativo, com uma vida profissional intensa, pode ser apanhado de surpresa, o que é que eu devia ter verificado?
O que se sabe e o que ainda não se sabe
De acordo com o Diário de Coimbra e com a Sport TV, Vítor Murta foi eleito presidente do Boavista em 28 de dezembro de 2018, com 334 dos 441 votos expressos, e esteve ligado à venda da SAD do clube ao empresário Gérard López na época 2020/21. Deixou as funções em 2024 e, em 2025, Rui Garrido Pereira assumiu a presidência.
As notícias disponíveis falam em ataque cardíaco, mas não detalham as circunstâncias clínicas. Este texto não especula sobre o caso concreto: a causa exata só pode ser esclarecida por quem tem acesso ao processo médico. O que se pode fazer, com responsabilidade, é usar a notícia como ponto de partida para explicar o que a medicina diz sobre o risco cardiovascular a meio da vida.
Uma pergunta que os leitores fazem: um ataque cardíaco aos 50 anos é raro?
Não é banal, mas também não é uma exceção que justifique indiferença. As doenças cardiovasculares continuam a ser uma das principais causas de morte em Portugal, segundo a Direção-Geral da Saúde, e os homens tendem a ter o primeiro evento mais cedo do que as mulheres.
Há uma distinção que ajuda a perceber o problema. O enfarte do miocárdio, a que muitos chamam ataque cardíaco, acontece quando uma artéria do coração fica bloqueada, em geral por um coágulo formado sobre uma placa de gordura acumulada ao longo de anos. A paragem cardíaca súbita é outra coisa: é uma falha elétrica do coração. Uma pode levar à outra, e é por isso que os cardiologistas insistem em olhar para os dois cenários em conjunto.
O que une ambos é o facto de, em muitos casos, existirem fatores de risco silenciosos durante uma década ou mais. Tensão arterial elevada, colesterol LDL alto, diabetes não diagnosticada, tabagismo, sedentarismo, apneia do sono e stress crónico raramente doem. Só se descobrem se alguém os procurar.
Os cinco fatores que um médico pede para rever depois dos 40
Um médico de família ou cardiologista que avalia um homem de 50 anos começa quase sempre pelos mesmos pontos:
- Tensão arterial: valores repetidos acima de 140/90 mmHg em consultório justificam investigação e, muitas vezes, tratamento.
- Colesterol LDL: quanto maior o risco global, mais baixo deve ser o alvo; em quem tem vários fatores, as metas podem ficar abaixo de 100 mg/dL.
- Glicemia: uma glicemia em jejum igual ou superior a 126 mg/dL em duas medições indica diabetes.
- Tabaco e álcool: o efeito do tabaco no risco de enfarte é dos mais bem documentados.
- História familiar: um pai ou irmão com evento cardíaco antes dos 55 anos muda a forma como se interpretam todos os outros números.
Na prática, isto pode ser feito numa única consulta e com análises ao sangue de rotina. O obstáculo raramente é o custo; é a falta de tempo e a convicção de que "se me sentisse mal, já tinha dado por isso".
Caso concreto: o que muda para um homem de 50 anos que nunca fez uma avaliação
Imagine um gestor de 50 anos, em Matosinhos, que trabalha dez horas por dia, fuma 15 cigarros diários e não faz análises desde os 38. Num dia qualquer de outubro de 2026, um colega da mesma idade morre de forma súbita e ele decide marcar uma consulta.
Na avaliação, o médico regista uma tensão de 148/94 mmHg, um LDL de 165 mg/dL, uma glicemia em jejum de 112 mg/dL e um perímetro abdominal de 102 cm. Nenhum destes valores, isolado, é dramático. Em conjunto, colocam-no num risco cardiovascular a dez anos claramente superior ao de um homem da mesma idade sem esses fatores.
Se ele parar de fumar, o risco começa a descer logo nos primeiros meses e, ao fim de cerca de um ano, o excesso de risco de doença coronária desce de forma substancial. Se, além disso, tratar a tensão para valores abaixo de 130/80 mmHg e baixar o LDL com a medicação indicada, o benefício acumulado ao longo de cinco anos é considerável. Se, pelo contrário, adiar a consulta mais um ano "para ver como corre", mantém os quatro fatores ativos durante todo esse período.
Nesse primeiro contacto, o médico pode ainda pedir um eletrocardiograma, uma prova de esforço ou uma ecografia cardíaca, consoante os sintomas e a história familiar. O objetivo não é assustar, mas converter números vagos num plano: o que medir, o que tratar e quando voltar.
Sinais de alerta que não devem esperar
Há sintomas que exigem ação imediata e não uma marcação para a semana seguinte. A Direção-Geral da Saúde e o Serviço Nacional de Saúde recomendam ligar para o 112 perante:
- dor ou pressão no peito que dura mais de alguns minutos, ou que vai e volta;
- dor que se irradia para o braço esquerdo, mandíbula, costas ou estômago;
- falta de ar súbita, suores frios, náuseas ou tonturas intensas;
- desmaio sem causa aparente, sobretudo durante o esforço.
Numa pessoa que está inconsciente e não respira normalmente, chamar o 112 e iniciar compressões torácicas até chegar ajuda pode fazer a diferença. O tempo é decisivo: cada minuto sem circulação reduz as probabilidades de recuperação.
Quando o stress profissional entra na conta
Cargos de direção, pressão pública e decisões financeiras de grande peso são frequentemente associados a stress crónico. A ligação entre stress e doença cardíaca é real, mas indireta: o stress prolongado tende a piorar o sono, a alimentação, o consumo de tabaco e álcool e a adesão a consultas. Um médico não receita "menos pressão", mas consegue ajudar a identificar quais destes hábitos estão a pesar mais e a reorganizar a rotina de forma realista.
Já escrevemos sobre este tema a propósito de Iker Casillas e o enfarte que sofreu em pleno treino e sobre a lição de saúde cardíaca de Christian Eriksen, dois casos públicos de desportistas em que a deteção e a rapidez da resposta foram determinantes.
O que fazer esta semana
Se tem mais de 40 anos e não sabe o seu valor de tensão arterial, colesterol e glicemia, esta é uma boa altura para os descobrir. Um plano simples:
- marque consulta com o seu médico de família ou com um cardiologista;
- leve a lista de medicação e o historial de doenças cardíacas na família;
- peça análises ao sangue em jejum e medição da tensão em mais de uma ocasião;
- se fuma, peça apoio estruturado para deixar de fumar, que aumenta muito as hipóteses de sucesso;
- defina uma data para voltar, em vez de deixar a marcação em aberto.
Pode consultar informação oficial sobre prevenção cardiovascular e programas de saúde no site da Direção-Geral da Saúde.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Não se refere ao historial clínico de Vítor Murta, que não é público. Perante sintomas de enfarte ou paragem cardíaca, ligue de imediato para o 112.
Na Expert Zoom pode falar com médicos e cardiologistas para esclarecer dúvidas sobre fatores de risco, análises e sinais de alerta, e perceber qual é o próximo passo adequado ao seu caso.

Ricardo Rodrigues