O internacional dinamarquês Christian Eriksen marcou um golo de penálti pelo VfL Wolfsburg a 15 de janeiro de 2026. O médio dinamarquês, agora com 34 anos, sobreviveu a uma paragem cardíaca durante o Europeu de 2020. A sua trajetória continuada ao mais alto nível do futebol mundial reacende o debate em Portugal sobre a segurança cardiovascular dos atletas e a obrigatoriedade de despistes preventivos nas competições nacionais.
Eriksen leva agora um desfibrilhador implantável (ICD) desde o incidente ocorrido a 12 de junho de 2021, em Copenhaga. O aparelho salvou-lhe a vida e permitiu que regressasse à competição, primeiro no Brentford, depois no Manchester United e, desde setembro de 2025, na Bundesliga alemã. Em maio de 2026, prepara-se ainda para integrar a seleção dinamarquesa no Campeonato do Mundo, numa recuperação que a Organização Mundial da Saúde classifica como um exemplo de gestão de emergência cardíaca em contexto desportivo.
O que aconteceu a Christian Eriksen em 2021
A 12 de junho de 2021, durante o encontro Dinamarca-Finlândia no Parken Stadium, Eriksen desmaiou de repente no relvado. Os reanimações cardiopulmonares iniciadas em menos de um minuto e a desfibrilhação precoce foram decisivas para a sua sobrevivência. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, as doenças cardiovasculares representam a principal causa de morte em todo o mundo, sendo responsáveis por cerca de 17,9 milhões de óbitos anuais.
Após a colocação do ICD, Eriksen viu o seu contrato com a Inter de Milão rescindido por impedimento regulamentar da Serie A. Mudou-se então para Inglaterra, onde as normas permitem a participação de atletas com dispositivos cardíacos implantados. Em maio de 2025, o Manchester United confirmou que não renovaria o seu vínculo, tendo o médio assinado pelos lobos de Wolfsburg em setembro do mesmo ano.
A lição para o desporto português
O caso Eriksen não é um episódio isolado. Em Portugal, vários clubes de futebol profissional e federacións desportivas têm vindo a debater a obrigatoriedade de eletrocardiogramas de esforço e ecocardiogramas nas avaliações médicas pré-competitivas. A Direção-Geral da Saúde portuguesa recomenda que todas as entidades desportivas disponibilizem desfibrilhadores automáticos externos (DAE) em recintos de competição e que os técnicos de desporto tenham formação em suporte básico de vida.
Ainda assim, nem todas as instalações desportivas do país cumprem estes requisitos. Um estudo recente da Comissão Europeia alerta para a falta de uniformidade na legislação desportiva entre Estados-membros no que concerne à proteção cardiovascular dos atletas. Portugal encontra-se entre os países onde a lei prevê a existência de DAE em grandes eventos, mas não exige a mesma cobertura em competições de formação ou modalidades amadoras.
Quando deve um atleta consultar um cardiologista
A paragem cardíaca súbita em atletas jovens é, na maioria dos casos, consequência de anomalias estruturais ou arritmias pré-existentes. Os sintomas de alerta incluem tonturas durante o esforço, desmaios, palpitações intensas ou dor torácica atípica. Muitos atletas ignoram estes sinais, atribuindo-os ao cansaço ou à desidratação.
Um cardiologista do desporto pode realizar avaliações específicas que vão além do check-up médico habitual. O ecocardiograma, o teste de esforço e, em casos selecionados, a monitorização por Holter são ferramentas essenciais para detetar riscos antes que se manifestem em campo. A consulta especializada é particularmente recomendada para atletas com histórico familiar de morte súbita cardíaca antes dos 50 anos.
O papel do desfibrilhador no futebol português
A regra é simples: cada minuto de atraso na desfibrilhação reduz em 10% as probabilidades de sobrevivência. No caso de Eriksen, a resposta em menos de sessenta segundos foi o fator determinante. Em Portugal, a Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto prevê a instalação de DAE em recintos desportivos, mas a fiscalização varia entre distritos.
O exemplo dinamarquês mostra que a prevenção funciona. A Federação Dinamarquesa de Futebol alterou os seus protocolos médicos após 2021, impondo reavaliações cardíacas semestrais a todos os atletas das seleções. Em Portugal, alguns clubes da Primeira Liga já adotaram protocolos semelhantes, mas a prática não é generalizada ao conjunto do futebol federado.
O que fazer perante uma emergência cardíaca
Reconhecer os sinais de paragem cardíaca é a primeira etapa. Se um atleta desmaiar e não respirar normalmente, deve-se iniciar imediatamente as manobras de reanimação e solicitar o DAE mais próximo. Enquanto se aguarda o equipamento, as compressões torácicas mantêm o fluxo sanguíneo vital para o cérebro e os órgãos.
A formação em primeiros socorros não deve estar limitada aos profissionais de saúde. Treinadores, árbitros e mesmo colegas de equipa podem salvar uma vida se souberem agir. A Direção-Geral da Saúde disponibiliza cursos de Suporte Básico de Vida reconhecidos em todo o território nacional, muitos deles com financiamento para clubes desportivos.
Aviso médico: Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta médica. Se sentir sintomas cardiovasculares, contacte o seu médico de família ou procure o serviço de urgência mais próximo.
A história de Christian Eriksen é, acima de tudo, um aviso. A medicina desportiva evoluiu, os dispositivos cardíacos são cada vez mais sofisticados, mas nada substitui a prevenção. Para atletas, clubes e federações em Portugal, a pergunta não é se devem investir em despistes cardíacos, mas quando o farão.
Quando precisar de orientação especializada sobre saúde cardiovascular ou avaliação desportiva, consulte um cardiologista através da nossa plataforma. A sua segurança em campo começa fora dele.

Ricardo Rodrigues