Iker Casillas compareceu a 8 de junho de 2026 no Tribunal de Lisboa para prestar depoimento num processo relacionado com o enfarte do miocárdio que sofreu em maio de 2019, enquanto ainda jogava pelo FC Porto. O antigo guarda-redes espanhol, que na altura tinha 37 anos, recordou perante o juiz o momento exato em que o seu coração falhou: "Não consegui continuar a treinar e tive de me deitar". O testemunho, transmitido pelos media portugueses, reacendeu o alarme sobre os enfartes precoces em atletas de elite e no público em geral — uma realidade que em Portugal afeta mais de 20 mil pessoas por ano.
O depoimento que chocou Portugal
Casillas foi internado de urgência a 1 de maio de 2019 após sentir fortes dores no peito durante um treino matinal no Olival. O diagnóstico foi imediato: enfarte agudo do miocárdio. O guarda-redes, que na época acumulava mais de 700 jogos pelo Real Madrid e 167 internacionalizações pela seleção espanhola, viu a sua carreira desportiva interrompida abruptamente. Apesar de ter tentado regressar às competições, acabou por anunciar a reforma em agosto de 2020, aos 39 anos.
No tribunal, mais de sete anos depois do episódio, Casillas descreveu com precisão os sintomas que o antecederam. A frase "Não consegui continuar a treinar e tive de me deitar" resume a gravidade de uma situação que, segundo os cardiologistas presentes no processo, poderia ter sido fatal se não tivesse ocorrido num centro de treino com equipa médica permanente. O depoimento insere-se num processo que questiona as condições de segurança e os protocolos médicos aplicados aos atletas profissionais em Portugal.
Por que um atleta de elite sofre um enfarte aos 37 anos
O caso de Casillas desmente o mito de que o desporto de alta competição protege totalmente contra doenças cardiovasculares. Embora o exercício regular reduza o risco global de enfarte em cerca de 30%, atletas de elite enfrentam fatores de risco específicos frequentemente ignorados. A hipertrofia ventricular esquerda induzida pelo treino intenso, a arritmia auricular do atleta e a predisposição genética para cardiomiopatias são condições que podem passar despercebidas nos rastreios desportivos de rotina.
Em Portugal, a mortalidade cardiovascular prematura — definida como óbitos antes dos 65 anos — representa cerca de 15% do total de mortes por doenças do aparelho circulatório. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia estima que um em cada cinco portugueses adultos apresente pelo menos dois fatores de risco modificáveis: hipertensão, dislipidemia, tabagismo, diabetes ou obesidade abdominal.
A Direção-Geral da Saúde refere que a prevenção primária do enfarte do miocárdio deve iniciar-se aos 40 anos nos homens e aos 50 anos nas mulheres, ou mais cedo na presença de antecedentes familiares. Os exames de base incluem a avaliação da pressão arterial, perfil lipídico, glicemia em jejum e eletrocardiograma de repouso.
Cinco fatores de risco que não deve subestimar
A hereditariedade é o primeiro e mais incontornável fator de risco. Quem tem um progenitor com história de enfarte antes dos 55 anos (homem) ou 65 anos (mulher) duplica o seu risco pessoal. Nestes casos, os cardiologistas recomendam um rastreio completo já aos 35 anos, incluindo ecocardiograma e, quando indicado, teste de esforço.
O colesterol LDL elevado é responsável por mais de um terço dos enfartes em Portugal. Valores superiores a 116 mg/dL — o limiar recomendado para adultos de baixo risco — justificam modificação alimentar e, frequentemente, medicação. A dieta mediterrânica, enriquecida em peixe azul, azeite e frutos secos, demonstrou reduzir o risco cardiovascular em 25% em estudos realizados em coortes portuguesas.
A hipertensão arterial, acometendo cerca de 24% da população adulta portuguesa, é frequentemente assintomática. Pressões superiores a 140/90 mmHg lesionam as artérias coronárias de forma silenciosa durante anos. O controlo rigoroso, com objetivo inferior a 130/80 mmHg nos doentes de alto risco, é uma das medidas mais eficazes na prevenção do enfarte.
O tabagismo continua a ser o fator de risco mais evitável. Cigarro fumado reduz em média 11 minutos de vida, mas os benefícios da cessação são imediatos: em 24 horas, diminui o risco de enfarte; em um ano, o risco cardiovascular aproxima-se do de um não-fumador.
Finalmente, o stress crónico e a síndrome de burnout — cada vez mais prevalentes em profissionais de alta competição como Casillas — libertam cortisol e adrenalina, hormonas que elevam a pressão arterial e promovem a inflamação vascular. A prática de mindfulness e a consulta de psicologia clínica são recomendadas como complementos à prevenção cardíaca.
O que fazer em caso de suspeita de enfarte
Os primeiros minutos após o início dos sintomas são críticos. A dor torácica opressiva, irradiada para o braço esquerdo ou mandíbula, acompanhada de suores frios e náuseas, exige a chamada imediata para o INEM (112). Em Portugal, o tempo médio de resposta das ambulâncias nas áreas urbanas é inferior a dez minutos, mas cada minuto de atraso na reperfusão coronária aumenta em 7% a mortalidade.
Casillas teve sorte: o enfarte ocorreu num local com assistência médica imediata. Para a maioria dos portugueses, a prevenção passa pelo conhecimento dos sinais de alerta e pela consulta regular de cardiologia. A medicina preventiva, tal como a praticada nos centros de saúde e hospitais do Serviço Nacional de Saúde, continua a ser a melhor defesa contra uma doença que, em 2026, ainda mata mais portugueses do que qualquer outra patologia.
Aviso médico: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui o aconselhamento médico profissional. Em caso de sintomas cardiovasculares, contacte imediatamente o INEM ou dirija-se ao serviço de urgência mais próximo.

Ricardo Rodrigues