A Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou a 12 de maio de 2026 orientações específicas para a gestão de casos suspeitos de hantavírus em Portugal, na sequência de um surto detetado a bordo do navio de expedição MV Hondius, no Atlântico Sul. Sete casos foram confirmados e três pessoas morreram. A variante identificada é a Andes — uma estirpe particularmente preocupante por ser capaz de transmissão direta entre humanos, ao contrário da maioria das estirpes de hantavírus. A DGS esclarece que o risco para a população portuguesa "permanece muito baixo", mas que os profissionais de saúde e cidadãos com sintomas específicos devem estar atentos.
O que é o hantavírus e porque a variante Andes é diferente
O hantavírus é uma família de vírus transmitidos, na maioria dos casos, por contacto com roedores infetados — especialmente as suas fezes, urina ou saliva. O ser humano infeta-se geralmente ao inalar poeiras contaminadas em zonas frequentadas por ratazanas ou ratos. Em Portugal, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge realiza vigilância regular de roedores e nunca detetou animais infetados com as estirpes mais perigosas.
A variante Andes, identificada no surto do MV Hondius, é distinta porque permite transmissão direta de pessoa para pessoa — um mecanismo raro entre os hantavírus. Isto torna o surto deste cruzeiro no Atlântico Sul especialmente relevante do ponto de vista epidemiológico, embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifique o risco para a população geral como baixo.
De acordo com as orientações publicadas pela Direção-Geral da Saúde, os casos são classificados em três categorias:
- Caso suspeito: pessoa com febre e sintomas associados que partilhou transporte com um caso confirmado, ou com sintomas compatíveis e ligação epidemiológica plausível.
- Caso provável: pessoa sintomática com ligação epidemiológica a casos confirmados.
- Caso confirmado: deteção laboratorial de RNA do vírus ou confirmação serológica.
Que sintomas devem levar-me ao médico?
A maioria das infeções por hantavírus começa de forma semelhante a uma gripe comum, o que torna o diagnóstico precoce difícil sem contexto clínico e epidemiológico. Os sinais de alerta que justificam avaliação médica urgente são:
Sintomas iniciais (fase prodrômica):
- Febre superior a 38°C
- Dores musculares intensas (mialgias), especialmente nas costas, ancas e coxas
- Cansaço extremo
- Cefaleias (dores de cabeça)
- Náuseas, vómitos ou dores abdominais
Sintomas de agravamento (fase cardiopulmonar — urgência):
- Tosse seca e progressiva
- Dificuldade respiratória ou sensação de falta de ar
- Dores no peito
- Tensão arterial baixa (hipotensão)
Se apresentar os sintomas iniciais e tiver viajado recentemente para zonas de risco (como a Patagónia argentina, o Chile ou outras regiões endémicas para hantavírus Andes), ou tiver estado em contacto próximo com um caso confirmado, não espere. Contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se a uma urgência hospitalar, informando os profissionais de saúde sobre o seu historial de viagem.
Em Portugal, os serviços de urgência designados para avaliação de casos suspeitos de hantavírus são o ULS São José, em Lisboa, e o ULS São João, no Porto.
O risco real para os portugueses em 2026
O hantavírus prospera em climas temperados a frios, onde as espécies de roedores vetoras são mais abundantes. O clima mediterrânico e atlântico de Portugal não é favorável à circulação das estirpes mais perigosas. A vigilância epidemiológica em curso em Portugal e Espanha nunca identificou roedores infetados com Andes ou Hanta de Seoul — as variantes com maior potencial de transmissão inter-humana.
Dito isto, os viajantes que regressam de regiões endémicas — Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Paraguai e Brasil — devem estar atentos nos dias e semanas seguintes ao regresso. O período de incubação do hantavírus varia entre uma e oito semanas após a exposição, embora a maioria dos casos se manifeste entre duas a quatro semanas.
Como o vírus da dengue ilustra de forma paralela — com casos detetados em 28 concelhos de Portugal —, os vírus emergentes pedem vigilância crescente mesmo em zonas de baixo risco histórico.
Quando a consulta com um médico é indispensável
O hantavírus não tem tratamento específico aprovado. O manejo clínico é de suporte: controlo da febre, hidratação e, nos casos graves, suporte respiratório em unidade de cuidados intensivos. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, maiores são as hipóteses de sobrevivência.
Existem situações concretas em que deve procurar cuidados médicos com antecedência e não esperar por uma urgência:
- Regressou recentemente do cone sul da América do Sul e apresenta qualquer um dos sintomas prodrómicos, mesmo que ligeiros.
- Esteve num navio ou ambiente fechado com casos confirmados de hantavírus nos últimos dois meses.
- Trabalha ou frequenta áreas com presença de roedores (armazéns, celeiros, zonas rurais) e apresenta febre inexplicada.
- Tem sistema imunitário comprometido e apresentou contacto com roedores ou ambientes potencialmente contaminados.
Em todos estes cenários, um médico pode solicitar análises de sangue específicas e, se necessário, coordenar o encaminhamento para os serviços de referência da DGS. A ExpertZoom permite-lhe marcar uma consulta com médicos de clínica geral ou infectologistas que estão atualizados com as orientações da DGS de maio de 2026 e podem avaliar o seu caso com rapidez.
Não ignore os sinais. O hantavírus é raro em Portugal — mas quando ocorre, cada hora conta.
Aviso médico (YMYL): Este artigo é de carácter informativo e não substitui avaliação médica profissional. Se tiver sintomas que lhe preocupem, contacte o seu médico, o SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se à urgência hospitalar mais próxima.

Ricardo Rodrigues