Wells abre lojas de audiologia em Portugal: quando precisa mesmo de um especialista de saúde auditiva?

Audiologista a realizar teste auditivo a paciente numa clínica, com equipamento de audiograma

Photo : U.S. Air Force photo by Andrea Jenkins / Wikimedia

7 min de leitura 7 de outubro de 2026

A Wells, a cadeia de saúde, beleza e ótica do grupo Sonae MC, está a transformar o panorama da saúde auditiva em Portugal. Em 2026, a marca inaugurou seis novas lojas inteiramente dedicadas a ótica e audiologia, abriu uma megastore de 500 m² no Saldanha em Lisboa e recebeu o prémio Marca Recomendada 2026. A 29 de setembro, o Wells Wanderlust no Jardim da Torre de Belém bateu o Recorde Guinness da maior aula de meditação guiada do mundo — um sinal claro de que a marca quer posicionar-se como parceira da saúde preventiva dos portugueses. Mas a pergunta que cada vez mais pessoas fazem é: quando é que basta ir à loja de audiologia — e quando é que a situação exige mesmo a consulta de um especialista médico?

O crescimento da Wells e a democratização da saúde auditiva em Portugal

Em 2026, a Wells consolidou uma aposta estratégica em serviços de saúde especializados. Para além da megastore do Saldanha em Lisboa, com cerca de 500 m² distribuídos por dois pisos e uma oferta integrada de beleza, perfumaria, ótica e audiologia, a marca abriu seis novas lojas dedicadas exclusivamente a serviços de ótica e saúde auditiva — tornando os rastreios auditivos gratuitos mais acessíveis em todo o país.

O movimento acompanha uma tendência global preocupante. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 1,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem atualmente com algum grau de perda auditiva, das quais 430 milhões têm perda auditiva incapacitante. Em Portugal, com uma população de cerca de 10,3 milhões e uma percentagem crescente de cidadãos com mais de 65 anos, estima-se — com base nas proporções da OMS — que entre 600.000 e 2 milhões de portugueses possam ter algum grau de perda auditiva, muitos deles sem diagnóstico.

A expansão da Wells é, neste contexto, uma boa notícia para a saúde pública: mais rastreios, mais sensibilização, mais pontos de acesso. Mas há uma distinção fundamental que muitos portugueses desconhecem — e que pode ter consequências clínicas sérias.

O que distingue um rastreio auditivo de um diagnóstico médico?

Um rastreio auditivo numa loja de audiologia — seja a Wells, uma ótica independente ou outra cadeia — é um instrumento de triagem. Permite identificar se existe perda auditiva e em que grau, usando equipamento audiológico calibrado e técnicos especializados. É gratuito ou de baixo custo, conveniente e eficaz para um primeiro passo.

Um diagnóstico médico de perda auditiva é outra coisa. Um médico otorrinolaringologista (ORL) ou um audiologista clínico não se limita a medir o limiar auditivo — investiga a causa. E a causa importa porque determina o tratamento. A perda auditiva pode resultar de causas tão diversas como presbiaudia (envelhecimento normal), rolhão de cerúmen, otite média, barotrauma, ototoxicidade por medicamentos, doenças autoimunes, alterações vasculares ou — em casos menos frequentes mas graves — um neurinoma do acústico (tumor benigno do nervo auditivo).

Um técnico de audiologia numa loja pode identificar a perda e recomendar ou adaptar aparelhos auditivos. Um médico especialista pode encontrar e tratar a causa — e, nalguns casos, recuperar parcialmente a audição sem necessidade de prótese.

Ir à loja ou marcar consulta com um especialista?

A resposta depende dos sintomas e da história clínica. Aqui está uma orientação prática:

Pode começar por um rastreio na Wells ou numa ótica quando:

  • Não tem sintomas agudos, mas quer confirmar o seu estado auditivo por prevenção
  • Já tem diagnóstico estabelecido de perda auditiva e precisa de adaptar, ajustar ou reparar um aparelho auditivo
  • É familiar de uma pessoa com perda auditiva conhecida e quer fazer uma avaliação de base

Deve consultar um médico especialista (ORL ou audiologista clínico) quando:

  • A perda auditiva surgiu de forma súbita, nas últimas 72 horas — esta é uma emergência médica, com janela terapêutica limitada
  • Tem zumbidos (acufenos) persistentes num ou em ambos os ouvidos
  • A perda é claramente assimétrica — muito pior num ouvido do que no outro
  • Tem dores de ouvido, sensação de pressão, secreções ou vertigens associadas
  • A perda surgiu após traumatismo craniano, exposição intensa a ruído ou início de nova medicação
  • É criança ou jovem adulto (a perda auditiva precoce exige avaliação etiológica)
  • O rastreio na loja revelou valores que não correspondem à sua perceção subjetiva

A regra é simples: o rastreio numa loja pode identificar que existe um problema. Só um médico especialista pode determinar por que existe — e o que fazer a seguir.

Caso concreto: Margarida, 54 anos, professora em Setúbal

Margarida é professora do ensino secundário em Setúbal. No início de 2026, começou a notar dificuldades crescentes em sala de aula: pedia aos alunos que repetissem as respostas, perdia o fio das conversas em reuniões de professores e aumentava sistematicamente o volume do telemóvel. Com a abertura de uma nova loja de audiologia da Wells perto de casa, decidiu fazer o rastreio gratuito.

O resultado do rastreio identificou uma perda auditiva moderada no ouvido direito, com o esquerdo praticamente dentro dos parâmetros normais. A técnica sugeriu aparelhos auditivos intra-auriculares com processamento digital, no valor de €1.400 a €2.200.

O que Margarida não sabia: uma perda auditiva assimétrica desta magnitude — com uma diferença superior a 20 dB entre os dois ouvidos — é um sinal de alerta clínico que requer investigação médica. Pode tratar-se simplesmente de presbiaudia assimétrica, mais comum do que se pensa. Mas pode também indicar um neurinoma do acústico, uma patologia autoimune do ouvido interno, ou uma alteração vascular — todas condições tratáveis se detetadas a tempo.

Cenário A — compra aparelhos sem consulta médica: Margarida gasta €1.400–€2.200 em aparelhos auditivos. Os sintomas melhoram parcialmente. A causa subjacente não é investigada. Se for um neurinoma, o crescimento do tumor atrasa-se no diagnóstico por 18 a 36 meses, tornando a eventual cirurgia mais complexa e o risco de paralisia facial temporária significativamente maior.

Cenário B — consulta de ORL seguida de exames: Margarida paga €80–€150 numa consulta de ORL privada (ou aguarda no SNS). O médico solicita um audiograma formal e, face ao padrão assimétrico, uma ressonância magnética com contraste ao ângulo-ponto-cerebeloso (€250–€450 no privado). Se for neurinoma: diagnóstico precoce, opções terapêuticas alargadas. Se for presbiaudia assimétrica benigna: avança para aparelhos auditivos com orientação médica clara e sem margem de erro.

A diferença de custo inicial entre os dois cenários é de €330 a €600. A diferença em termos de saúde pode ser determinante.

Os números que tornam o problema urgente

Segundo a OMS, mais de 60% dos casos de perda auditiva em adultos são evitáveis ou atenuáveis com diagnóstico e intervenção precoces. O grande obstáculo não é o acesso — é o atraso. Estudos internacionais referenciados pela própria OMS indicam que os adultos esperam, em média, entre 7 a 10 anos entre os primeiros sinais de dificuldades auditivas e a primeira consulta médica ou adaptação de aparelho auditivo.

Esse atraso tem custos concretos. A perda auditiva não tratada está associada a declínio cognitivo acelerado (estudos do Lancet Commission on Dementia apontam para um risco aumentado de 8%), isolamento social progressivo e maior prevalência de depressão em adultos acima dos 60 anos.

Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde cobre consultas de ORL, mas os tempos de espera podem ser longos. A alternativa privada tem custos acessíveis — uma primeira consulta de ORL está, em 2026, entre €60 e €150 na maioria das cidades portuguesas. A questão não é financeira: é de sensibilização para quando vale a pena dar esse passo.

O que fazer se notar dificuldades auditivas

A expansão da Wells em Portugal em 2026 é uma oportunidade genuína: o primeiro passo ficou mais fácil. Se notar que está a pedir às pessoas que repitam o que disseram, a aumentar volumes que antes eram suficientes, ou a perder conversas em contextos ruidosos, aproveite a conveniência de um rastreio gratuito numa loja de audiologia perto de si.

Mas não pare aí se os resultados mostrarem assimetria entre os dois ouvidos, se tiver sintomas acompanhantes como zumbidos, vertigens ou dores, ou se a perda surgiu subitamente. Nesses casos, o passo seguinte não é a compra de um aparelho auditivo — é a consulta com um especialista de saúde que possa investigar a causa e propor o tratamento adequado.

A Direção-Geral da Saúde disponibiliza informação clínica atualizada sobre saúde auditiva e cuidados preventivos em dgs.pt. Para encontrar um médico otorrinolaringologista ou um audiologista clínico na sua área, a plataforma ExpertZoom permite comparar especialistas com base em avaliações reais de pacientes.

Rastrear é o início. Diagnosticar é o que muda o desfecho.

Vantagens

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