Mourinho sai do Benfica por 15 milhões: o que o Código do Trabalho prevê para rescisões de alto custo

Marco Silva, treinador português, em março de 2026, durante sessão de treino do Fulham FC

Photo : Timmy96 / Wikimedia

João João SilvaJurídico
4 min de leitura 31 de maio de 2026

A despedida de José Mourinho do Sport Lisboa e Benfica entrou numa nova fase. O prazo para o técnico português rescindir o vínculo por sete milhões de euros terminou no dia 29 de maio de 2026, sem que nenhum dos intervenientes avançasse com esse valor. A partir dessa data, o custo da rescisão subiu automaticamente para 15 milhões de euros — um valor que, segundo o jornal O Jogo, deverá ser liquidado até ao dia 8 de junho de 2026.

Em paralelo, Marco Silva — no final do contrato com o Fulham FC — aguarda uma resolução. Segundo o jornal Record, qualquer negociação oficial entre o clube da Luz e o treinador de Paredes não pode ser formalizada enquanto a saída de Mourinho não for oficializada. Esta situação, tão peculiar para os adeptos como reveladora para os juristas, é um espelho claro do que o Código do Trabalho português prevê sobre rescisões onerosas.

O que é uma cláusula de rescisão no direito laboral português?

Em Portugal, o Código do Trabalho (Lei n.º 7/2009, de 12 de fevereiro) regula as relações laborais de todos os trabalhadores, incluindo os técnicos desportivos. O diploma permite que as partes negociem cláusulas específicas de rescisão — valores acordados que definem o custo de terminar o vínculo antes do prazo estipulado no contrato.

No futebol de topo, estas cláusulas têm uma lógica clara: proteger o clube contra saídas unilaterais intempestivas e garantir uma compensação adequada ao trabalhador pelo tempo de contrato em falta. No caso de Mourinho, a cláusula funcionou em duas fases distintas: sete milhões de euros durante os dez dias úteis após o fim da época, e 15 milhões a partir do momento em que esse prazo expirou sem qualquer acordo.

Este escalonamento é comum em contratos de técnicos de topo em Portugal e na Europa. Incentiva uma saída rápida e negociada logo após o fim da época. Quando a janela inicial fecha sem resolução, o custo sobe — e o clube retém poder negocial sobre o seu funcionário ainda sob contrato.

Como funciona a rescisão unilateral sem justa causa?

O artigo 394.º do Código do Trabalho prevê que qualquer trabalhador pode rescindir o contrato com aviso prévio adequado. Quando é o empregador a rescindir sem justa causa, este deve pagar ao trabalhador:

  • Uma compensação mínima de 20 dias de retribuição base por cada ano completo de antiguidade
  • O valor do aviso prévio em substituição, caso não seja dado o prazo legal
  • Quaisquer cláusulas penais ou compensatórias negociadas individualmente no contrato

No caso dos treinadores de futebol de topo, a compensação vai muito além do mínimo legal. Mourinho receberia os salários restantes do seu contrato com o Benfica, acrescidos das condições especiais negociadas na altura da contratação. A rescisão de 15 milhões de euros reflecte, em grande parte, o salário anual do técnico e a estrutura financeira do seu vínculo com as "águias".

Marco Silva e o princípio da lealdade contratual

A situação de Marco Silva levanta uma questão jurídica subtil: até que ponto pode um clube negociar com um treinador que ainda está formalmente vinculado a outro empregador?

O direito do trabalho português, em consonância com os princípios do direito europeu e os regulamentos da UEFA, proíbe o chamado "aliciamento direto" a trabalhadores sob contrato ativo. Embora o contrato de Marco Silva com o Fulham expire em junho de 2026, qualquer negociação oficial com o Benfica antes do término do vínculo poderia configurar interferência indevida nas relações laborais de terceiros — o que acarreta riscos legais para ambos os clubes.

Na prática, e como vários meios de comunicação revelaram, o agente Jorge Mendes tem servido de intermediário — uma estratégia que permite a comunicação entre as partes sem violar formalmente os regulamentos. A fronteira entre mediação legítima e aliciamento é, porém, juridicamente ténue. Casos semelhantes já geraram litígios na liga portuguesa, como se viu com a contratação de Arne Slot pelo Liverpool e a subsequente polémica laboral.

O fator Real Madrid: quando um contrato depende de outro país

A saída de Mourinho do Benfica depende de algo que está completamente fora do controlo do direito laboral português: as eleições para a presidência do Real Madrid, agendadas para 7 de junho de 2026. Florentino Pérez teria um acordo com Mourinho para o colocar ao comando do clube madrileno até 2029 — mas apenas no caso de vencer as eleições.

Esta interdependência entre contratos laborais em jurisdições diferentes é um exemplo claro de como os vínculos desportivos de alto nível transcendem fronteiras legais. Qualquer advogado laboralista que assessore atletas ou técnicos de alto rendimento sabe que uma cláusula pode ficar dependente de um evento jurídico noutro país ou jurisdição — uma realidade para a qual é essencial estar preparado.

O que aprender com o caso Mourinho-Benfica

A rescisão de 15 milhões de euros é um caso extremo, mas os princípios jurídicos envolvidos são exatamente os mesmos que regem qualquer contrato de trabalho em Portugal. Seja um diretor comercial, um quadro técnico especializado ou um médico, a estrutura é idêntica: contrato, cláusula de rescisão, aviso prévio e compensação.

Se está a ponderar sair do emprego, a negociar uma rescisão amigável ou a ser confrontado com um despedimento sem justa causa, conhecer os seus direitos ao abrigo do Código do Trabalho (Lei n.º 7/2009) é fundamental. Um advogado especializado em direito laboral pode ajudá-lo a calcular a compensação a que tem direito, identificar cláusulas abusivas e negociar em posição de força — tal como um agente experiente faz pelo seu cliente no futebol profissional.

Nota: Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Para situações concretas, consulte um advogado especializado em direito do trabalho.

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