A Neo Química Arena em São Paulo ficou em silêncio quando o árbitro apitou o fim. Na tarde de setembro de 2026, o Estudiantes de La Plata eliminou o Corinthians por 1-0 nos quartos-de-final da Copa Libertadores, garantindo o apuramento para as meias-finais depois de 17 anos de ausência nesta fase. Em Portugal, como em todo o mundo lusófono, milhares de adeptos viveram o jogo ao segundo, com o coração na boca — e a expressão não é apenas metafórica. Para uma parte desses adeptos, o coração estava literalmente em risco.
O confronto que manteve meio continente em suspenso
O duelo entre Corinthians e Estudiantes foi um festival de nervos desde o pontapé inicial da eliminatória. A primeira mão, disputada em La Plata, terminou empatada 1-1, deixando tudo em aberto para o regresso ao Brasil. O único golo do encontro decisivo chegou numa fase adiantada do jogo, em plena tensão máxima, com os dois clubes separados por uma fração de qualidade que decidiu quem seguia em frente na maior competição sul-americana de clubes.
Nos bares e salas de estar de Portugal — onde o futebol sul-americano tem uma base fiel de seguidores, em parte pela ligação histórica e afetiva ao Brasil —, os gritos de celebração e de desespero alternaram-se ao longo de noventa minutos. O que poucos sabem é que, nesse período, o organismo de cada adepto entrou numa resposta fisiológica que os cardiologistas conhecem bem. E que, para alguns, pode ser genuinamente perigosa.
O que a medicina diz sobre ver futebol em estado de tensão
A relação entre futebol e risco cardiovascular não é especulação: é ciência com publicação peer-reviewed. O estudo mais próximo de nós é português: o HeartAtaque Trial, publicado na Revista Portuguesa de Cardiologia, acompanhou de forma prospetiva 82 adeptos do sexo masculino com antecedentes de síndrome coronária aguda durante 23 partidas de futebol da época 2015/2016. Cada participante foi monitorizado com um Holter — um gravador contínuo do ritmo cardíaco — no dia do jogo e num dia de controlo sem partida. O resultado foi inequívoco: a frequência cardíaca média aumentava de forma significativa durante os jogos quando comparada com a de um dia normal, independentemente do resultado da equipa preferida.
Mas o dado que mais impressiona os cardiologistas vem de Munique: um estudo conduzido durante o Mundial de 2006, nos dias de jogo da equipa alemã, registou 2,66 vezes mais atendimentos de emergência por eventos cardíacos do que nos dias sem partidas. Uma investigação da Universidade de São Paulo (USP) acrescenta que a incidência de enfarte agudo do miocárdio pode aumentar entre 4% e 8% durante as partidas do Brasil.
O mecanismo é bem conhecido. Quando um adepto vive um momento de tensão extrema — um penálti, um golo anulado, uma eliminação a poucos segundos do apito final —, o cérebro ativa o sistema nervoso simpático como se existisse uma ameaça física real. O organismo liberta uma carga de adrenalina e noradrenalina que aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial, intensifica a força de contração do coração e exige mais oxigénio ao músculo cardíaco. Para quem tem artérias saudáveis, este episódio passa sem consequências visíveis. Para quem tem doença coronária não diagnosticada ou mal controlada, pode ser o gatilho de um evento cardíaco grave.
Os investigadores do HeartAtaque Trial descrevem este fenómeno com precisão: "As alterações emocionais agudas aumentam transitoriamente o risco de ruptura de placa e de trombose, e diminuem o limiar para fibrilhação ventricular." Por outras palavras: o coração de um adepto durante um clássico decisivo vive um esforço comparável ao de uma corrida de intensidade moderada — sem que a pessoa se levante do sofá.
Este fenómeno não se limita ao stress emocional doméstico. Como documentámos na nossa reportagem sobre os riscos de saúde em altitude para adeptos que viajam para a Libertadores, o futebol sul-americano cria desafios fisiológicos que vão muito além da simples emoção do jogo.
O cenário que nenhum adepto quer viver — mas que acontece
Imagine um homem de 57 anos, residente no Porto, adepto do Corinthians desde os tempos em que o seu pai emigrou do Brasil para Portugal nos anos 1980. Tem hipertensão arterial controlada com medicação há seis anos, colesterol ligeiramente acima dos valores normais e nunca consultou um cardiologista — embora o médico de família tenha recomendado uma prova de esforço há dois anos. Nos últimos meses, notou algumas palpitações ao subir escadas, que atribuiu ao cansaço acumulado do trabalho.
Durante o jogo Corinthians x Estudiantes, com a eliminação a concretizar-se nos últimos dez minutos, a sua pressão arterial subiu para 185/105 mmHg. Segundo as orientações da Sociedade Europeia de Cardiologia, tensão arterial sistólica acima de 180 mmHg em contexto de stress agudo classifica-se como crise hipertensiva — um estado que exige avaliação médica urgente e que, combinado com a descarga de adrenalina do momento, aumenta exponencialmente o risco de enfarte ou de acidente vascular cerebral (AVC).
Se tivesse feito a prova de esforço recomendada pelo médico de família, haveria uma probabilidade real de ter sido detetada uma isquemia silenciosa — uma redução do fluxo sanguíneo ao coração que não produz sintomas em repouso, mas que se torna perigosa sob esforço físico ou emocional. Se tivesse consultado um cardiologista antes da fase decisiva da Libertadores, saberia exatamente o limiar de segurança do seu coração, a medicação adequada para os dias de maior tensão e os sinais de alarme que exigem ação imediata. Em vez disso, ficou em casa a esperar. Para muitos adeptos em situação idêntica, a próxima meia-final pode ser a consulta que ficou por fazer.
Quem deve ter cuidado especial em dias de jogo
Os cardiologistas identificam grupos específicos com risco acrescido durante eventos de alta carga emocional como os quartos-de-final e as meias-finais da Libertadores:
Hipertensão arterial não controlada ou insuficientemente tratada: A adrenalina pode causar picos de pressão que, em artérias já fragilizadas por anos de hipertensão, aumentam o risco de AVC hemorrágico e de enfarte.
Doença coronária diagnosticada ou suspeita: Quem já teve um episódio isquémico — ou apresenta múltiplos fatores de risco como diabetes, tabagismo crónico e colesterol elevado sem tratamento — tem placas ateroscleróticas mais vulneráveis à ruptura durante picos de stress.
Insuficiência cardíaca estabilizada: O aumento da frequência cardíaca e do volume de trabalho cardíaco durante um jogo tenso pode descompensar situações que estavam clinicamente controladas há meses.
Arritmias não diagnosticadas ou não tratadas: A descarga adrenérgica pode desencadear fibrilhação ventricular em corações já electricamente instáveis — o tipo de evento que ocorre sem aviso prévio.
Homens entre os 45 e os 65 anos com sedentarismo e fatores de risco múltiplos: Este perfil concentra a maior parte dos participantes do estudo HeartAtaque Trial e é o que a literatura internacional associa mais frequentemente a eventos cardíacos durante jogos de futebol.
Em todos estes casos, a resposta não é afastar-se do futebol. É conhecer o estado real do coração antes do próximo jogo decisivo.
O que fazer antes da meia-final
A semi-final da Copa Libertadores 2026 está a aproximar-se. Se reconhece algum dos fatores de risco descritos acima — ou simplesmente nunca realizou uma avaliação cardiovascular adequada e tem mais de 45 anos —, este é o momento certo para agir.
Um cardiologista pode, numa consulta de 30 a 60 minutos, avaliar o seu perfil de risco completo, interpretar um eletrocardiograma em repouso, e recomendar, se necessário, uma prova de esforço ou um holter de 24 horas. O custo de uma consulta preventiva é incomparavelmente menor do que o custo de uma emergência hospitalar — e imensamente menor do que perder o jogo mais importante do ano numa ambulância.
Não espere pelos sintomas. No coração, como no futebol, a defesa é sempre a melhor forma de não perder.
Aviso de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e não substitui a consulta médica especializada. Se sentir dor ou pressão no peito, dificuldade em respirar, palpitações intensas, tonturas ou formigueiro nos membros durante ou após um jogo de futebol, ligue imediatamente para o número de emergência 112.

Ricardo Rodrigues