A 10 de setembro de 2026, o Flamengo entrou em campo em Quito, capital do Equador, e saiu com uma vantagem expressiva nos quartos de final da Copa Libertadores: dois golos sem resposta, assinados por Bruno Henrique e Léo Pereira. O resultado final foi Independiente del Valle 0 × 2 Flamengo. Mas por trás dos festejos rubro-negros esconde-se um pormenor médico que raramente chega às primeiras páginas: o Estádio Olímpico Atahualpa de Quito situa-se a aproximadamente 2.850 metros acima do nível do mar — uma altitude que, segundo especialistas em medicina desportiva, pode ser perigosa para atletas e viajantes não preparados.
O Que Aconteceu em Quito na Noite de 10 de Setembro
Os quartos de final da Copa Libertadores 2026 reuniram dois dos clubes mais fortes do continente sul-americano. O Independiente del Valle, líder da LigaPro equatoriana e que eliminou o Tolima colombiano na ronda anterior por 3-1, recebeu o Flamengo — campeão defensor da Libertadores — no Estádio Atahualpa, palco histórico do futebol equatoriano situado no coração dos Andes.
Durante décadas, jogar em altitude tem sido considerado uma vantagem natural para as equipas anfitriãs equatorianas, bolivianas e colombianas. Os visitantes chegam frequentemente com falta de ar, dores de cabeça e uma quebra de rendimento aeróbico que pode comprometer golos e resultados. Desta vez, porém, o Flamengo contrariou a lógica histórica: Bruno Henrique abriu o marcador e Léo Pereira confirmou a vantagem, deixando a equipa de Rio de Janeiro com o pé e meio na meia-final antes da segunda mão no Maracanã, marcada para 16 de setembro de 2026.
A questão que fica no ar — e que raramente se discute fora dos bastidores médicos — é: o que acontece ao corpo humano quando sobe abruptamente para quase três mil metros de altitude?
A Altitude Como Fator Médico: O Que Diz a Ciência
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o chamado "mal de altitude" pode surgir a partir dos 2.400 metros e manifesta-se com um espectro de sintomas que vai do ligeiro ao potencialmente fatal.
Nos casos mais comuns, designados de Doença Aguda de Montanha (DAM), os sintomas incluem dores de cabeça pulsáteis, náuseas, tonturas, fadiga acentuada e perturbações do sono. Estes sintomas aparecem tipicamente entre seis a doze horas após a chegada à altitude e podem persistir dois a três dias enquanto o organismo tenta adaptar-se. Para a maioria dos viajantes saudáveis, a situação resolve-se com repouso, boa hidratação e tempo.
O problema surge nos cerca de 1 a 3% de casos em que a DAM evolui para formas graves: o Edema Pulmonar de Altitude (EAPA), com acumulação de líquido nos pulmões, ou o Edema Cerebral de Altitude (ECAA), com inchaço no cérebro. Estas situações constituem emergências médicas que exigem descida imediata e, por vezes, administração de oxigênio suplementar.
Para os atletas profissionais, existe ainda um terceiro problema — menos dramático, mas mais relevante do ponto de vista competitivo: a redução do transporte de oxigénio no sangue diminui a capacidade aeróbica em cerca de 1% por cada 100 metros acima dos 1.500 metros. Aos 2.850 metros, isso pode representar uma quebra de desempenho de 13 a 15% para jogadores não aclimatizados — o equivalente a jogar com um pulmão e meio.
Caso Concreto: A Viagem de Lisboa a Quito Que Poderia Correr Mal
Imagine que António, 38 anos, residente no Porto, sem problemas cardíacos conhecidos, praticante regular de corrida nos 10 km, decide viajar para Quito com a família para assistir a um jogo da Libertadores. Chega ao Aeroporto Internacional Mariscal Sucre — já situado a 2.400 metros — e em seguida desloca-se para o centro da cidade, a 2.850 metros.
Nas primeiras 12 horas, António sente uma dor de cabeça persistente e enjoo. Na manhã seguinte, ao subir as escadas do hotel a passo rápido, fica com falta de ar. Não há nenhuma patologia prévia: é apenas a altitude a fazer o seu efeito.
Se António tivesse consultado um médico de medicina geral ou de medicina de viagem entre quatro e duas semanas antes da partida, o cenário poderia ser diferente. Um profissional de saúde poderia:
- Prescrever acetazolamida (Diamox), um medicamento que, tomado dois dias antes da subida e nas primeiras 48 horas em altitude, reduz o risco de DAM em 40 a 70%, segundo estudos publicados em medicina de altitude;
- Recomendar uma subida gradual, pernoctando em Bogotá (2.640m) antes de ir para Quito, para dar ao organismo tempo de produzir mais hemoglobina;
- Excluir contraindicações para o uso de acetazolamida (como alergia a sulfamidas ou insuficiência renal), bem como avaliar se existe qualquer condição cardíaca ou pulmonar que torne a viagem de maior risco.
A regra geral é simples: se subir mais de 500 metros por dia acima de 2.500 metros de altitude, ou se tiver qualquer condição crónica cardíaca, pulmonar ou hematológica, deve consultar um médico antes da viagem. Para a grande maioria das viagens turísticas a capitais andinas — Quito, Bogotá, Cusco, La Paz (a 3.640 metros, a mais alta do mundo) — a consulta prévia é recomendada.
O custo de uma consulta de medicina de viagem ronda os 60 a 120 euros em Portugal. O custo de uma evacuação de emergência de altitude pode ultrapassar os 30.000 euros.
O Que Os Clubes Profissionais Fazem Para Mitigar o Risco
Para as equipas profissionais como o Flamengo, os protocolos são mais elaborados do que possam parecer. Antes da deslocação a Quito, o departamento médico rubro-negro terá avaliado individualmente cada jogador, considerando o historial de exposição a altitude, eventuais défices de hemoglobina (análises de sangue pré-época) e a capacidade cardiovascular medida em testes de esforço.
Além disso, os clubes de elite optam frequentemente por chegar à cidade anfitriã o mais tarde possível — idealmente menos de 12 horas antes do jogo — precisamente porque o pior período do mal de altitude coincide com as primeiras 12 a 36 horas. Paradoxalmente, jogar imediatamente após a chegada, antes que os sintomas se instalem, é muitas vezes preferível a chegar dois dias antes.
A segunda estratégia é a aclimatação prolongada: passar duas a três semanas em altitude antes do jogo para que o corpo aumente a produção de glóbulos vermelhos. Para clubes com calendários sobrecarregados como o Flamengo — também líderes do Brasileirão em setembro de 2026 — esta opção raramente é viável.
Antes de Reservar a Próxima Viagem de Aventura, Consulte um Especialista
A vitória do Flamengo em Quito foi um feito desportivo notável. Mas o episódio serve de lembrete para qualquer pessoa que planeie viajar para destinos de grande altitude — sejam viagens de turismo, trilhos no Himalaia, visitas à Machu Picchu (2.430m) ou safáris em zonas montanhosas de África.
O mal de altitude não distingue idade nem forma física: atletas de elite já sofreram episódios graves em altitude. A boa notícia é que, com preparação adequada e uma consulta médica antecipada, a grande maioria dos riscos é prevenível. Existe um perfil de risco mais elevado que merece atenção especial: pessoas com anemia, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), hipertensão arterial não controlada, ou histórico de problemas cardíacos.
Em Portugal, a rede de clínicas de medicina de viagem está disponível nos principais centros urbanos, com consultas que combinam vacinação, prescrição preventiva e orientação personalizada para destinos de altitude. Saber quando procurar esta consulta — e fazê-lo com antecedência suficiente — pode ser a diferença entre uma viagem memorável e uma emergência médica a três mil metros do nível do mar.
Aviso: Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento médico profissional. Consulte um médico antes de tomar qualquer decisão relativa à sua saúde ou viagens a grande altitude.
format_used: News brief

Ricardo Rodrigues