Às 19h15 de 17 de agosto de 2026, o Estádio Municipal de Rio Maior abre as suas portas para receber um dos confrontos mais aguardados do início da Liga Portugal: Casa Pia contra o Sport Lisboa e Benfica. O Casa Pia arranca a época em 16.º lugar, ainda sem pontos após derrota por 1-0 frente ao Marítimo. O Benfica, em nono lugar com apenas um ponto após o empate 2-2 com o Académico de Viseu, também não pode perder mais terreno. Para os milhões de adeptos que vão acompanhar este jogo — no estádio ou em frente à televisão —, o que acontece no relvado vai muito além do marcador: vai afetar o seu corpo, a sua mente e, potencialmente, a sua saúde a longo prazo.
O que acontece ao corpo de um adepto durante um jogo de futebol
A ciência é clara: o corpo de um adepto reage a um jogo de futebol de alta intensidade emocional como se estivesse diretamente envolvido na competição. Investigadores do British Journal of Sports Medicine documentaram aumentos de até 48% nos níveis de cortisol — a hormona do stress — em espectadores sentados em casa durante jogos decisivos, mesmo sem qualquer esforço físico.
Os sintomas físicos são variados e podem surpreender quem nunca os identificou como relacionados com o futebol: hiperventilação, dor no peito, tensão muscular, dores de cabeça, suores frios, taquicardia, perturbações gastrointestinais e, em casos extremos, síncope vagal. Durante o Mundial de 2014, um adepto chileno de 58 anos morreu de ataque cardíaco após um penálti falhado; horas depois, a sua companheira foi hospitalizada com cardiomiopatia de stress — a chamada "síndrome do coração partido" — desencadeada pela combinação da tensão do jogo e do choque da perda.
Em Portugal, segundo dados do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde, cerca de 21% da população apresenta algum tipo de perturbação de ansiedade e 17% sofre de depressão. Para adeptos com predisposição ansiosa — mesmo que nunca diagnosticados —, cada jogo da Liga Portugal pode funcionar como um gatilho repetido ao longo da época.
O coração, em particular, é o órgão mais vulnerável. Um estudo publicado na ZAP Notícias em parceria com cardiologistas portugueses é específico: a pressão arterial sistólica de adeptos masculinos acima dos 45 anos com hipertensão pode subir 20 a 30 mmHg durante golos sofridos ou penáltis, valores equivalentes aos de um exercício físico moderado. A diferença é que o adepto está sentado e não teve tempo de preparar o sistema cardiovascular.
Liga Portugal 2026: o stress que se acumula ao longo de 34 jornadas
O que distingue o stress de acompanhar uma liga doméstica do stress de um evento isolado — como o Euro ou o Mundial — é a sua natureza crónica e repetitiva. A Liga Portugal tem 34 jornadas. Para um adepto comprometido que segue também a Taça de Portugal e, no caso do Benfica, as competições europeias, estamos a falar de 50 a 60 ativações do sistema nervoso simpático por época.
Este stress cumulativo é fisiologicamente distinto do stress agudo. A exposição repetida a picos de cortisol sem recuperação adequada entre jornadas — especialmente quando o clube atravessa uma série negativa, como o Benfica parece iniciar em 2026 — pode contribuir para insónia crónica, irritabilidade persistente, diminuição da imunidade e, em pessoas com fatores de risco, aumento da probabilidade de episódios cardiovasculares.
Como Simone Biles alertou em 2026 a propósito da saúde mental no desporto de elite, a linha entre paixão saudável e risco clínico nem sempre é visível para quem está dentro — e o mesmo se aplica aos adeptos. A paixão pelo clube pode mascarar um quadro de ansiedade crónica que já merecia atenção profissional.
É também importante distinguir entre o adepto que sente adrenalina antes de um jogo e fica bem depois, e aquele que leva o resultado para a semana de trabalho, para a cama e para as relações pessoais. São dois perfis fisiologicamente diferentes, com necessidades de intervenção distintas.
Caso concreto: Rui, 38 anos, adepto do Benfica em Lisboa
Tome-se o caso de Rui, 38 anos, gestor de projetos em Lisboa, adepto do Benfica desde os oito anos. Após o empate 2-2 com o Académico de Viseu na primeira jornada — um resultado abaixo das expectativas da maioria dos adeptos —, Rui dormiu mal durante três noites consecutivas, teve dificuldade em concentrar-se em reuniões de trabalho e teve dois conflitos com a sua companheira por estar "irritado sem razão aparente".
Eis o cenário concreto que os dados sugerem: se o Benfica perder esta noite para o Casa Pia e cair para uma posição abaixo do décimo lugar, e se esse padrão se mantiver nas primeiras cinco jornadas, Rui acumula cinco episódios de stress agudo em menos de seis semanas. Segundo um estudo de 2023 publicado no Journal of Sports Sciences, adeptos com ansiedade de base moderada que assistem a quatro ou mais derrotas consecutivas do seu clube experienciam, em média, um aumento de 35% nos sintomas clínicos de ansiedade — valores equiparáveis aos de um evento de vida stressante como uma mudança de emprego ou o fim de uma relação.
A diferença prática, em euros: se Rui reconhecer o padrão após a quinta jornada (final de setembro de 2026) e consultar um psicólogo, um ciclo de seis a oito sessões de Terapia Cognitivo-Comportamental orientada para gestão de ansiedade situacional custa entre €360 e €720 em Lisboa. Se, pelo contrário, não intervir e o quadro evoluir para síndrome de burnout com componente ansiosa — o que pode acontecer se a época do Benfica continuar instável —, o custo médio estimado de um episódio clínico (consultas de clínica geral, psiquiatria, medicação e, eventualmente, baixa médica parcial) situa-se entre €900 e €2.400, sem contar com o impacto produtivo no trabalho.
A regra prática que os especialistas recomendam: se os sintomas persistirem mais de 14 dias após um resultado negativo, incluindo insónia, irritabilidade ou dificuldade de concentração, é tempo de consultar.
Os sinais que não deve ignorar
Para a maioria dos adeptos, o nervosismo antes de um Casa Pia-Benfica é normal e passageiro. O limite clínico é atravessado quando a ansiedade ligada ao futebol começa a interferir com funções diárias. Os sinais de alerta incluem:
- Insónia ou hipersónia nas noites antes ou depois dos jogos, com duração superior a três a quatro dias consecutivos
- Irritabilidade desproporcional dirigida a familiares ou colegas de trabalho sem relação direta com o jogo
- Evitamento: deixar de ver jogos ou de consultar os resultados por antecipação da ansiedade, em vez de por escolha
- Sintomas físicos sem causa orgânica identificada: taquicardia, pressão no peito, dores abdominais recorrentes nos dias de jogo
- Ruminação pós-jogo prolongada: pensar obsessivamente no desempenho da equipa durante mais de três horas após o apito final
Estes sinais ganham importância acrescida em adeptos com hipertensão, diabetes, histórico de ansiedade ou depressão, ou com mais de 45 anos. O stress cardiovascular associado ao futebol já foi documentado em adeptos portugueses com os perfis acima, e a nova época da Liga Portugal é o momento certo para avaliar o próprio padrão de reação antes que os sintomas se instalem.
Quando — e como — pedir ajuda
A boa notícia é que a ansiedade relacionada com o desporto é altamente tratável e os profissionais de saúde mental estão familiarizados com o fenómeno. Psicólogos clínicos e psicoterapeutas trabalham com adeptos, atletas e familiares de desportistas, utilizando abordagens como a TCC, o mindfulness aplicado a situações de stress agudo e técnicas de regulação emocional para contextos de alta intensidade emocional.
Em Portugal, a consulta de psicologia pode ser acedida através do médico de família no SNS, que pode fazer o encaminhamento para os Cuidados de Saúde Primários com psicólogo integrado, ou diretamente no setor privado. Com 32 jornadas ainda por jogar na Liga Portugal 2026-27, e com adeptos do Benfica já a monitorizar a classificação com alguma preocupação, o melhor momento para avaliar o próprio bem-estar é antes que o stress cumulativo se instale como norma invisível.
Um especialista em saúde mental não vai pedir-lhe que deixe de ser adepto. Vai ajudá-lo a sê-lo sem pagar um preço que o seu coração — e as pessoas à sua volta — não deveriam ter de suportar.
Aviso: este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico ou psicológico profissional. Se experienciar sintomas físicos como dor no peito, taquicardia persistente ou dificuldade em respirar, procure assistência médica de imediato.

Ricardo Rodrigues