A ginasta norte-americana Simone Biles, de 29 anos, voltou a colocar a saúde mental no centro do desporto de elite em fevereiro de 2026. Simone Biles enviou uma mensagem pública ao patinador artístico Ilia Malinin após a sua queda nos Jogos Olímpicos de Inverno. Relembrou aos atletas de todo o mundo que a performance não vale mais do que o bem-estar psicológico.
Malinin, de 21 anos, chegava aos Jogos de Inverno de 2026 invicto há duas temporadas. Acabou em oitavo lugar na patinagem livre masculina após duas quedas sob pressão extrema.
Biles, que em Tóquio 2020 abandonou provas individuais e por equipas devido às "twisties" — uma perda súbita da noção espacial no ar —, identificou-se imediatamente com a frustração do jovem. Num vídeo partilhado a 18 de fevereiro de 2026, disse-lhe: "Cuida de ti — mental e fisicamente. Sentes todas as emoções dos Jogos. Não precisas de pensar no próximo passo já."
A lição de Tóquio que Biles trouxe para 2026
A decisão de Simone Biles em Tóquio 2021 de prioritizar a saúde mental sobre as medalhas mudou a conversa no desporto mundial. Antes disso, poucos atletas de elite falavam abertamente sobre ansiedade, depressão ou burnout. A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada oito pessoas em todo o mundo vive com algum transtorno mental, sendo os jovens entre 15 e 29 anos o grupo mais vulnerável.
No desporto de alta competição, estes números podem ser ainda mais preocupantes. A pressão dos resultados, a exposição mediática constante e a curta duração das carreiras desportivas criam um caldo de cultura ideal para problemas de saúde mental. Biles demonstrou em 2021, e reforçou agora em 2026, que reconhecer os próprios limites é um sinal de força, não de fraqueza.
O estado da saúde mental no desporto português
Em Portugal, a conversa sobre saúde mental no desporto ainda atrasa em relação aos países anglo-saxónicos. A Direção-Geral da Saúde inclui o bem-estar psicológico nas suas diretrizes para a atividade física, mas a existência de psicólogos do desporto nos clubes profissionais continua a ser a exceção e não a regra. A maioria dos atletas jovens portugueses compete sem qualquer acompanhamento psicológico estruturado.
A Federação Portuguesa de Ginástica e outras federações olímpicas têm vindo a introduzir programas de apoio psicológico, mas a adoção é desigual. Nos clubes de formação, onde os jovens atletas enfrentam pela primeira vez a pressão da competição, o apoio é quase inexistente. Os pais, muitas vezes, confundem exigência desportiva com pressão psicológica intensa, sem perceberem os sinais de alerta.
Os sinais de alerta que pais e treinadores ignoram
Um atleta em sofrimento psicológico pode manifestar sintomas físicos antes de emocionais. Dores de cabeça frequentes, alterações do sono, perda de apetite ou queda súbita de rendimento são sinais comuns. O isolamento social, a irritabilidade e a perda de prazer na modalidade que antes era vivida com entusiasmo são indicadores ainda mais graves.
A diferença entre um treino exigente e um treino tóxico está na recuperação. Um atleta que treina intensamente mas descansa adequadamente e mantém equilíbrio entre vida desportiva e pessoal está em condições saudáveis. Quando o desporto passa a ser a única fonte de identidade e valor pessoal, o risco de burnout e depressão multiplica-se.
O papel do psicólogo do desporto
O psicólogo do desporto não serve apenas para ajudar atletas a "ganharem mais". A sua função principal é desenvolver competências psicológicas que permitam ao atleta gerir a pressão e manter o foco. O psicólogo ajuda também na recuperação de lesões e, acima de tudo, mantém a prática desportiva como uma fonte de bem-estar e não de sofrimento.
Técnicas como a visualização, a respiração diafragmática e a reestruturação cognitiva são ferramentas comprovadas cientificamente. Um psicólogo pode também trabalhar com treinadores para ajustarem a comunicação e a carga de treino à fase de desenvolvimento de cada atleta. Em Portugal, a Ordem dos Psicólogos reconhece a especialidade de psicologia do desporto, mas o número de profissionais ativos nesta área continua insuficiente para a procura.
O que Portugal pode aprender com Biles e Malinin
A mensagem de Simone Biles para Ilia Malinin em fevereiro de 2026 deveria ser lida em todos os clubes desportivos portugueses. "Sentes todas as emoções dos Jogos. Não precisas de pensar no próximo passo já." Esta frase traduz uma verdade simples mas revolucionária no contexto desportivo: o atleta é uma pessoa antes de ser uma máquina de resultados.
Os clubes portugueses precisam de incorporar o acompanhamento psicológico como parte integrante da formação desportiva, não como um luxo opcional. Os pais precisam de educação para reconhecerem quando a ambição desportiva do filho passou a ser um fardo. E os atletas precisam de saber que pedir ajuda é compatível com a excelência desportiva.
A história de Simone Biles prova-o. Depois de Tóquio, muitos duvidaram que voltasse a competir ao mais alto nível. Voltou, conquistou novamente, e utilizou a sua plataforma para mudar mentalidades. O seu conselho a Malinin não é apenas uma mensagem de apoio — é um manifesto para o futuro do desporto.
Se é atleta, treinador ou progenitor de um jovem atleta em Portugal, considere consultar um psicólogo do desporto. A saúde mental não é um extra. É a base sobre a qual se constrói toda a carreira desportiva.

Ricardo Rodrigues