As pesquisas pelo Santuário do Bom Jesus do Monte dispararam em Portugal em outubro de 2026, coincidindo com o pico da temporada de peregrinação outonal e com o Ano Santo Jubileu proclamado pelo Papa Francisco. Todos os anos, milhares de devotos sobem de joelhos a icónica escadaria barroca de 577 degraus — uma tradição com séculos de história que, segundo os especialistas de ortopedia, é mais exigente para o corpo do que parece à primeira vista.
Nota de saúde: este artigo tem fins informativos e não substitui a avaliação médica individualizada. Consulte um profissional de saúde antes de iniciar qualquer prática fisicamente exigente.
A questão que os peregrinos evitam fazer: subir de joelhos faz mesmo mal?
Fisicamente, sim — mas o grau de risco depende muito da pessoa. A escadaria barroca do Bom Jesus do Monte, em Braga, foi construída entre 1722 e 1811 sob direção da Arquidiocese de Braga. É composta por 577 degraus de granito, cada um com entre 8 e 12 centímetros de altura, decorados com fontes alegóricas representando os cinco sentidos e as virtudes cristãs. Percorrê-los de joelhos significa colocar o peso do corpo repetidamente sobre a rótula e os tecidos periarticulares — bolsas sinoviais, tendão rotuliano e cartilagem patelar.
Para um adulto de 70 kg, cada impacto de joelhos no granito gera uma força de compressão equivalente a cerca de 3 a 5 vezes o peso corporal sobre a articulação — entre 210 e 350 kg por joelho, por contacto. Ao longo de 577 degraus, a carga cumulativa é considerável. Isso não significa que a prática seja proibida ou lesiva para todos. Significa que a decisão de subir de joelhos merece preparação e, em alguns casos, avaliação prévia.
O Santuário do Bom Jesus do Monte é Património Mundial da UNESCO desde 2019. A prática da peregrinação penitencial — incluindo a subida de joelhos — é parte essencial do seu valor cultural e espiritual imaterial, reconhecida pela própria candidatura à UNESCO.
O que a medicina ortopédica diz sobre os 577 degraus de granito
A bursite pré-patelar — inflamação da bolsa sinovial entre a pele e a rótula — é a lesão mais frequente associada à peregrinação de joelhos em superfícies duras. Apresenta-se com inchaço visível na face anterior do joelho, calor local e dor à palpação. Na maioria dos casos, resolve em 5 a 10 dias com repouso, gelo e anti-inflamatórios, segundo as orientações da Direção-Geral da Saúde.
Mais preocupante é a condropatia patelar — desgaste da cartilagem da rótula —, que pode ser agravada por um episódio único de sobrecarga intensa em pessoas com cartilagem já enfraquecida. Ao contrário da bursite, esta lesão não tem recuperação completa, apenas gestão a longo prazo.
Os fatores de risco mais relevantes são:
- Excesso de peso (IMC superior a 27): cada quilograma extra amplifica a força de compressão no joelho em cerca de 3 a 5 kg adicionais por impacto
- Idade superior a 50 anos, especialmente em mulheres pós-menopausa, pelo aumento do risco de condropatia e osteopenia
- Histórico de tendinite rotuliana ou meniscectomia nos últimos 24 meses — o tecido ainda está em fase de remodelação
- Ausência de proteção: joelhos expostos sobre granito frio e abrasivo aumentam o risco de bursite traumática e abrasões que podem infecionar
A superfície do granito molhado — frequente em Braga no outono — aumenta ainda o risco de queda lateral, que pode provocar lesões ligamentares colaterais mesmo sem o esforço da subida de joelhos.
Caso concreto: Marta, 54 anos, a primeira vez de joelhos no Bom Jesus
Considere a situação de Marta, professora de 54 anos de Guimarães, sem histórico de lesões articulares mas com IMC de 28. Marta decide, pela primeira vez, subir de joelhos o Bom Jesus do Monte como promessa depois de uma doença familiar. Não usa proteção de joelhos e não consulta médico antes.
Ao final dos primeiros 150 degraus, Marta sente ardor nos joelhos — o que considera normal para a peregrinação. Ao terminar a subida (577 degraus, cerca de 35 a 45 minutos de subida de joelhos), tem abrasões superficiais em ambos os joelhos e inchaço ligeiro. Na manhã seguinte, o joelho direito apresenta calor local, inchaço oval de cerca de 4 cm de diâmetro e dor intensa à flexão acima de 90 graus.
O que se passa concretamente: o impacto repetido no granito causou microtraumatismo da bolsa sinovial pré-patelar. O líquido sinovial acumulou em resposta à inflamação — bursite pré-patelar aguda traumática.
O percurso correto para Marta:
- Dias 1 a 3: repouso completo do joelho, gelo 20 minutos 3 vezes por dia, anti-inflamatório tópico (gel de ibuprofeno) 3 vezes por dia
- Dia 3: se o inchaço não reduzir ou a dor à palpação aumentar, consulta médica obrigatória
- Semana 2: se o inchaço persistir com diâmetro superior a 3 cm, o médico pode recomendar aspiração do líquido sinovial — procedimento ambulatório simples, com anestesia local, com taxa de resolução superior a 85%
- Meses seguintes: se Marta repetir a prática mantendo o mesmo IMC, o risco de nova bursite é significativamente mais elevado
O detalhe biomecânico que muda a equação: com um IMC de 25 (menos cerca de 8 kg para Marta), a força de compressão por impacto desceria de aproximadamente 350 kg para cerca de 250 kg por joelho — uma redução de 28% que, cumulativamente ao longo de 577 degraus, representa uma diferença clinicamente relevante. Uma consulta com um especialista de saúde poderia ter ajudado Marta a preparar a peregrinação de forma mais segura — com proteções adequadas, ritmo controlado, e avaliação articular prévia.
Quando consultar um médico antes de subir de joelhos
Existem condições em que a peregrinação de joelhos não deve ser feita sem avaliação médica prévia:
- Cirurgia ao joelho nos últimos 18 meses (meniscectomia, reconstrução de ligamentos, artroscopia): o tecido ainda está em remodelação e a sobrecarga pode comprometer a recuperação
- Gonartrose diagnosticada grau II ou superior: a cartilagem já tem desgaste estrutural confirmado e o impacto repetido pode acelerar a progressão da artrose
- Diabetes tipo 2 descompensada: a cicatrização de abrasões no joelho é mais lenta e o risco de infeção cutânea é superior ao da população geral
- Uso de anticoagulantes orais (varfarina, rivaroxabano, apixabano): uma queda ou impacto forte pode causar hematoma articular de difícil controlo
Para estas situações, um médico de medicina geral e familiar ou um ortopedista pode orientar alternativas — como a subida pedonal, ou a subida de joelhos apenas nos últimos 100 degraus, com superfície menos abrasiva. Uma consulta prévia em clínica privada custa entre 40 € e 120 €; pelo SNS, pode ser agendada com tempo médio de espera de 8 a 12 dias para consulta não urgente.
Depois da descida: o que monitorizar nas 72 horas seguintes
Para a maioria dos peregrinos saudáveis, os sintomas após a subida de joelhos são ligeiros e autolimitados. Os cuidados imediatos recomendados incluem:
- Limpeza das abrasões com soro fisiológico e cobertura com penso não-aderente
- Elevação dos membros inferiores por pelo menos 30 minutos após o término
- Hidratação adequada — mínimo de 500 ml de água durante a subida, especialmente quando a temperatura ultrapassa os 18 °C
- Monitorização nas 72 horas: temperatura local no joelho, extensão do inchaço, capacidade de flexão completa
Os sinais que justificam ida urgente às urgências (não apenas ao médico de família):
- Febre superior a 38,2 °C associada a dor e calor no joelho → risco de artrite séptica
- Inchaço que se estende para além da rótula com endurecimento muscular → risco de trombose venosa profunda
- Incapacidade total de apoio no dia seguinte → risco de fratura de stress ou lesão ligamentar aguda
Como acontece noutros percursos de fé em Portugal — incluindo as peregrinações a Fátima —, a preparação física prévia e a consciência dos limites do próprio corpo são a melhor proteção contra lesões que podem prolongar-se por semanas.
A fé e o corpo não são opostos: o que um especialista pode fazer por si
O Santuário do Bom Jesus do Monte, com a sua escadaria barroca de 577 degraus e a sua história desde o século XIV, é um dos locais de peregrinação mais emblemáticos da Península Ibérica. A tradição da subida de joelhos é um ato de fé profundo — e pode ser vivido com muito mais segurança com uma preparação adequada.
Um especialista de saúde — médico de medicina geral, ortopedista ou fisioterapeuta — pode ajudá-lo a avaliar se a sua condição articular suporta a prática, recomendar proteções adequadas, e indicar um protocolo de recuperação caso os sintomas apareçam. Consultar antes não é abrir mão da espiritualidade da peregrinação — é garantir que o corpo esteja preparado para a cumprir e para continuar depois.
Na plataforma Expert Zoom, pode consultar especialistas de saúde online, incluindo ortopedistas e fisioterapeutas, sem sair de casa e com marcação em menos de 48 horas.

Ricardo Rodrigues