VAR no Mundial 2026: a expulsão de Balogun e o que revela sobre os riscos dos sistemas digitais

Folarin Balogun em ação durante jogo EUA vs Austrália no Copa do Mundo 2026

Photo : Bryan Berlin / Wikimedia

João João SantosInformática
5 min de leitura 2 de julho de 2026

Na noite de 1 de julho de 2026, o Levi's Stadium, em Santa Clara, foi palco de uma das cenas mais polémicas desta edição da Copa do Mundo: Folarin Balogun, avançado norte-americano, marcou o primeiro golo dos EUA contra a Bósnia-Herzegovina e foi expulso de campo minutos depois, resultado de uma revisão pelo sistema VAR. Apesar de ficarem reduzidos a dez jogadores, os EUA resistiram e venceram 2-0, com Malik Tillman a selar o resultado com um livre direto de grande beleza. A passagem aos oitavos de final ficou garantida — mas a expulsão abriu um debate urgente sobre a tecnologia que arbitra os árbitros.

Como funciona o VAR no Mundial 2026

O VAR — Video Assistant Referee — é o sistema de arbitragem assistida por vídeo oficial nas grandes competições da FIFA desde 2018. Na Copa do Mundo 2026, cada estádio está equipado com 42 câmaras de transmissão, das quais oito são de super-câmara lenta e quatro de ultra-câmara lenta. Todas enviam imagens em tempo real para uma Video Operation Room (VOR), onde uma equipa de árbitros de vídeo monitoriza o jogo a partir de ângulos que o árbitro de campo nunca poderia ter.

De acordo com o protocolo oficial da FIFA, publicado em inside.fifa.com, o VAR só pode intervir em quatro situações específicas: golos, decisões de grande penalidade, cartões vermelhos diretos e erros de identidade de jogadores. Para tudo o resto, o sistema não pode atuar — regra que existe para evitar interrupções constantes e preservar o ritmo do jogo.

Há ainda uma distinção técnica fundamental nos protocolos da FIFA: as repetições em câmara lenta são reservadas para situações factuais — identificar o ponto exato de contacto numa falta. As repetições a velocidade normal servem para avaliações subjetivas — determinar a intensidade de um lance. Esta distinção existe precisamente porque a câmara ultra-lenta pode distorcer a perceção de um movimento, tornando perigoso o que o olho humano veria como uma disputa normal de bola.

A expulsão de Balogun: tecnologia correta, protocolo errado?

O árbitro Raphael Claus classificou a infração como "jogo perigoso grave". Balogun, ao disputar uma bola com o defesa bósnio Tarik Muharemovic, calcou o calcanhar do adversário com os bicos das chuteiras. A equipa VAR recomendou a revisão do lance e Claus manteve o cartão vermelho direto — expulsando o jogador de 24 anos que tinha marcado apenas minutos antes.

No entanto, uma análise publicada pela ESPN horas após o jogo aponta para uma falha no protocolo: a equipa de vídeo terá apresentado repetições em câmara ultra-lenta para fundamentar uma decisão subjetiva — o que, segundo as próprias regras da FIFA, não deveria acontecer. A intensidade de um contacto físico deve ser avaliada à velocidade real do jogo, não ao ritmo amplificado de uma câmara a 1000 quadros por segundo.

A conclusão é perturbadora: o sistema funcionou tecnicamente como previsto. As câmaras captaram o lance. A equipa VAR comunicou com o árbitro. Mas a informação foi apresentada fora dos parâmetros para os quais o protocolo foi concebido — e o resultado foi uma decisão que analistas de arbitragem consideram injusta.

Sistemas automatizados e o paradoxo da decisão

Este paradoxo não é exclusivo do futebol. Qualquer empresa que utilize ferramentas de automação digital — desde sistemas de aprovação de crédito com inteligência artificial, a plataformas de deteção de fraudes ou softwares de triagem de candidatos — conhece o risco: um sistema bem desenhado pode produzir decisões erradas quando os seus protocolos internos não são respeitados ou estão mal configurados.

Como explorámos no nosso artigo sobre como acompanhar o EUA-Bósnia via streaming e eletrónica de consumo, a tecnologia digital tornou-se inseparável da experiência do futebol moderno — tanto no relvado, com o VAR, como fora dele. Mas em ambos os casos, a tecnologia serve as regras — e não o contrário. Quando essa hierarquia se inverte, surgem problemas.

Em contexto empresarial, o equivalente seria um sistema de deteção de anomalias que bloqueia transações legítimas porque foi parametrizado com limiares demasiado sensíveis para o perfil real dos clientes. Ou uma ferramenta de recrutamento automático que elimina candidatos competentes com base em palavras-chave desatualizadas. Ou um software de monitorização que dispara alertas falsos porque os logs são analisados fora do contexto temporal correto. O problema não é a tecnologia — é a configuração, o protocolo e a supervisão humana.

Quatro perguntas que todo gestor deve fazer

O caso Balogun oferece um modelo de análise aplicável a qualquer sistema digital empresarial:

  1. Os meus sistemas automatizados estão a seguir os protocolos para os quais foram programados? Uma auditoria periódica é tão necessária quanto a revisão de protocolos que a FIFA terá de fazer após este Mundial.
  2. Os dados que alimentam as decisões automáticas estão no formato correto? Câmara lenta ou velocidade normal muda tudo — tal como o tipo de dados de entrada pode alterar completamente o output de um sistema de IA.
  3. Existe supervisão humana para decisões de alto impacto? O árbitro de campo manteve o poder final de aceitar ou rejeitar a recomendação do VAR. Nas empresas, essa supervisão é igualmente indispensável para decisões com consequências sérias.
  4. Os colaboradores sabem quando e como usar cada ferramenta digital? A falha do VAR foi operacional, não tecnológica. O mesmo acontece em muitas organizações — a ferramenta é boa, mas a utilização é incorreta.

O papel de um especialista em Informática

Um consultor de TI, técnico de sistemas ou gestor de tecnologia é a figura que garante que os sistemas digitais da sua empresa funcionam de acordo com os protocolos para os quais foram concebidos. Tal como a FIFA tem árbitros de vídeo certificados para operar o VAR — e deveria garantir que seguem o protocolo correto —, a sua empresa precisa de profissionais que entendam as regras do sistema e saibam quando e como intervir.

Seja para implementar sistemas de automação, configurar ferramentas de monitorização, auditar processos de decisão digital ou garantir que as suas soluções de IA operam dentro dos parâmetros corretos, um especialista em Informática pode fazer a diferença entre um sistema que funciona como previsto e um que produz resultados inesperados — e custosos.

A expulsão de Balogun ficará certamente como um dos momentos mais polémicos do Mundial 2026. Mas ficará também como um lembrete duradouro: a tecnologia só é tão boa quanto os protocolos que a governam — e os profissionais que a configuram e supervisionam.

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