Em setembro de 2026, Sara Sampaio decidiu usar a sua enorme plataforma para dizer algo que raramente se ouve de uma ex-anjo da Victoria's Secret: o seu corpo também tem curvas e vincos quando está relaxado. O vídeo, publicado no Instagram da modelo portuguesa de 35 anos, mostrava o contraste entre poses estudadas para a câmara e momentos completamente naturais — e a diferença era reveladora. A legenda era direta: "Sejam gentis com as pessoas e consigo mesmos, e por favor parem de comentar os corpos que vão mudando." Em poucas horas, o vídeo tornou-se viral, reunindo milhares de comentários de apoio de seguidores que descreveram o momento como "realidade pura". Mas para os profissionais de saúde mental em Portugal, o que este momento revela vai muito além de um vídeo nas redes sociais — e levanta uma pergunta urgente: quando é que a insatisfação com o próprio corpo deixa de ser algo passageiro e se torna um sinal de alarme que justifica procurar ajuda especializada?
O vídeo que abalou as redes sociais em setembro de 2026
Sara Sampaio tem mais de 7,5 milhões de seguidores no Instagram. Quando uma figura com essa visibilidade expõe a diferença entre a imagem cuidadosamente construída das redes sociais e a realidade do próprio corpo, o impacto é amplificado de forma extraordinária. O vídeo usou um áudio popular no TikTok para ilustrar como o mesmo corpo pode parecer completamente diferente consoante o ângulo, a iluminação e a postura — algo que os fotógrafos profissionais sabem há décadas, mas que raramente é mostrado ao público.
O contexto torna a mensagem ainda mais poderosa. Sara Sampaio construiu a sua carreira numa das indústrias mais exigentes em termos de imagem corporal — os desfiles e campanhas da Victoria's Secret durante mais de uma década. Ao aparecer agora com esta mensagem, mostrando que ela própria come pizza, pede entrega ao domicílio, come doces e admite que isso às vezes afeta a sua pele, a modelo contraria décadas de uma indústria que promoveu um ideal de corpo que não refletia a realidade de ninguém — nem das próprias modelos que o encarnavam.
A reação do público foi positiva, mas também revelou algo: a quantidade de pessoas que expressaram alívio ao ver um corpo "como o meu" representado publicamente sugere que a insatisfação corporal está longe de ser um problema de nicho.
O que os especialistas de saúde mental veem neste debate
Para os psicólogos clínicos e nutricionistas, o momento criado por Sara Sampaio é clinicamente relevante precisamente porque expõe um fenómeno com consequências reais para a saúde. A exposição prolongada a imagens de corpos idealizados nas redes sociais está associada a padrões de pensamento disfuncionais sobre o corpo próprio, à comparação social negativa e, em casos mais sérios, ao desenvolvimento de perturbações do comportamento alimentar.
Segundo a Direção-Geral de Saúde, as perturbações do comportamento alimentar afetam entre 1% e 4% da população portuguesa, com maior prevalência em jovens entre os 12 e os 25 anos. Contudo, a insatisfação corporal — que não constitui por si só uma perturbação clínica diagnosticável — é consideravelmente mais comum: os estudos de prevalência nacionais estimam que afete entre 25% e 35% das jovens adolescentes e adultas jovens em Portugal.
Esta distinção é fundamental: insatisfação corporal pontual, ligada a momentos de maior stress ou mudança física, é uma experiência humana comum. O problema surge quando essa insatisfação se torna persistente, intrusiva e passa a interferir com a qualidade de vida quotidiana. É precisamente nesta fronteira que os especialistas — psicólogos clínicos, nutricionistas com formação em comportamento alimentar, e médicos de medicina geral e familiar — podem intervir de forma preventiva e eficaz.
A consulta especializada não é um recurso de último recurso reservado para situações de doença grave. É uma ferramenta preventiva que permite identificar padrões precocemente, antes de se instalarem de forma mais profunda. E a intervenção precoce faz uma diferença clínica significativa: os dados europeus sobre perturbações do comportamento alimentar mostram que quem procura ajuda nos primeiros 6 meses após o início dos sintomas tem uma taxa de recuperação completa significativamente mais elevada do que quem espera mais de 2 anos.
Caso concreto: quando a Ana começou a evitar o espelho
Imagine uma jovem de 21 anos, a quem chamaremos Ana, que em setembro de 2026 passa em média 2 horas e 45 minutos por dia nas redes sociais — um pouco abaixo da média nacional para a sua faixa etária. Ao longo dos últimos 5 meses, começou a recusar almoços em restaurantes com amigos porque "não está bem", passou a verificar o seu peso na balança todos os dias (por vezes duas vezes ao dia), e nos últimos 3 meses deixou de usar roupas justas, mesmo em situações em que isso lhe causou desconforto social.
Cada um destes comportamentos, isolado, pode ser explicado por outras razões. Mas se a Ana apresentar dois ou mais destes padrões de forma consistente durante pelo menos 4 a 6 semanas, os especialistas reconhecem um quadro que justifica uma avaliação:
- Verificação do peso mais de uma vez por dia durante mais de 3 semanas seguidas
- Recusa de pelo menos 3 situações sociais ligadas à comida ou ao corpo no espaço de um mês
- Pensamentos sobre o corpo ou a comida que ocupam mais de 1 hora por dia e causam angústia
- Mudanças comportamentais que terceiros próximos identificaram e comentaram com preocupação
No caso da Ana, uma consulta de avaliação com um psicólogo clínico — 50 minutos, sem compromisso de tratamento imediato — permitiria perceber se o que está a acontecer é uma fase de maior vulnerabilidade que passará com suporte pontual, ou o início de um padrão que beneficia de intervenção estruturada. A diferença entre estes dois cenários tem implicações práticas: o primeiro pode ser resolvido com 4 a 6 sessões ao longo de 2 meses; o segundo, se não for abordado, pode prolongar-se por anos e ter um impacto crescente na qualidade de vida.
Os sinais que justificam uma consulta — e o que fazer agora
Nem toda a insatisfação corporal precisa de acompanhamento especializado. O que distingue a insatisfação passageira de um padrão que merece atenção clínica são três dimensões: frequência, intensidade e impacto funcional.
Frequência: pensamentos negativos sobre o corpo ocorrem diariamente e são difíceis de interromper.
Intensidade: a insatisfação gera sentimentos de vergonha, ansiedade ou tristeza que persistem além do momento em que surgem.
Impacto funcional: o corpo passa a ditar decisões quotidianas — o que vestir, onde ir, com quem estar, o que comer — de uma forma que limita a qualidade de vida.
A mensagem de Sara Sampaio em setembro de 2026 lembra-nos que mesmo as pessoas com uma carreira construída sobre a imagem trabalham para desconstruir narrativas tóxicas sobre o corpo. Para quem está a enfrentar este desafio sem a visibilidade de uma modelo internacional — e sem acesso a nutricionistas, preparadores físicos e psicólogos como parte do pacote profissional —, procurar ajuda especializada é um passo razoável, preventivo e, em muitos casos, profundamente transformador.
Se reconhece em si ou numa pessoa próxima dois ou mais dos sinais descritos acima, uma primeira consulta com um psicólogo clínico ou nutricionista especializado em comportamento alimentar pode ser o passo mais simples e mais eficaz. Na Expert Zoom, pode encontrar especialistas disponíveis para consulta online esta semana, sem lista de espera.
Nota: Este artigo tem carácter informativo e não substitui diagnóstico, aconselhamento médico ou acompanhamento psicológico. Se tiver preocupações com a sua saúde, consulte um profissional qualificado.

Ricardo Rodrigues