Sandra Felgueiras e o Deepfake da Garlenix: como reconhecer fraudes com IA em Portugal em 2026

Mulher portuguesa alarmed com smartphone mostrando fake news de deepfake e plataforma de criptomoedas suspeita no laptop
João João SantosInformática
6 min de leitura 3 de setembro de 2026

Em julho de 2026, o nome de Sandra Felgueiras tornou-se o centro de uma campanha fraudulenta que circulou nas redes sociais portuguesas durante vários dias: a jornalista da TVI viu a sua imagem manipulada por inteligência artificial e usada, sem qualquer autorização, para promover uma plataforma de criptomoedas chamada Garlenix. Após a denúncia pública da jornalista — "Chega!", escreveu —, foi apresentada queixa formal à Polícia Judiciária. O caso volta a colocar uma questão urgente para cidadãos e empresas: como funciona este tipo de fraude e o que deve fazer se for vítima ou alvo?

O que aconteceu exatamente com Sandra Felgueiras?

A fraude seguiu um guião já documentado pelas autoridades portuguesas. Anúncios publicados na rede X (antigo Twitter) e em artigos fabricados afirmavam que a jornalista tinha sido "detida à saída da SIC" depois de supostamente promover uma plataforma de investimento que prometia "retornos milionários escondidos pelo setor bancário". A história era inteiramente falsa em todos os seus elementos.

Sandra Felgueiras trabalha na TVI, concorrente direta da SIC, tornando a narrativa geograficamente implausível à partida. Ainda assim, os anúncios — equipados com imagens e vídeos curtos gerados por inteligência artificial, os chamados deepfakes — foram amplamente partilhados, chegando a enganar utilizadores que desconheciam o contexto ou que viram apenas o título sem verificar a fonte.

A verificação de factos conduzida pela Lusa e pelo Polígrafo confirmou: a plataforma Garlenix não está registada junto de qualquer entidade reguladora financeira portuguesa ou europeia. O nome do domínio foi criado dias antes do início da campanha publicitária. Este é um dos padrões mais comuns e identificáveis nas fraudes com deepfakes financeiros — e um dos que mais facilmente pode ser verificado por qualquer cidadão antes de tomar uma decisão financeira.

Como funciona um deepfake de fraude financeira em 2026?

Os deepfakes de fraude financeira operam em três fases consecutivas, cada uma desenhada para ultrapassar uma camada de ceticismo do utilizador.

Na primeira fase, os burlões selecionam uma personalidade pública com elevada credibilidade percebida — um jornalista de investigação, um político, um economista — e criam conteúdo sintético que simula declarações ou situações nunca ocorridas. As ferramentas de IA generativa disponíveis em 2026 permitem criar vídeos curtos convincentes em menos de duas horas, com um custo operacional próximo de zero.

Na segunda fase, esse conteúdo é distribuído através de anúncios pagos em redes sociais, onde os mecanismos de moderação são frequentemente mais lentos do que a velocidade de disseminação. Um único anúncio com orçamento de 50 euros pode alcançar dezenas de milhares de utilizadores em Portugal num único dia.

Na terceira fase, surge a urgência artificial: "oferta por tempo limitado", "acesso restrito a 100 investidores", "plataforma prestes a ser encerrada pelas autoridades". Esta pressão temporal é o gatilho emocional que impede a verificação racional. Segundo o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS), as denúncias de fraude digital em Portugal cresceram 34% em 2026 face ao ano anterior, com esquemas de investimento falso a representar a categoria de maior crescimento entre as participações recebidas.

Caso concreto: o que acontece quando alguém transfere dinheiro para uma plataforma como a Garlenix?

Imagine o seguinte cenário, composto a partir de casos reais documentados pela Polícia Judiciária em 2026: uma utilizadora de 52 anos, residente no Porto, viu o anúncio com a imagem de Sandra Felgueiras no dia 12 de julho. Confiante na aparente credibilidade da jornalista, criou uma conta na Garlenix e transferiu 800 euros a título experimental.

Na primeira semana, o painel da plataforma mostrou um saldo de 2.100 euros — um crescimento de 162% em sete dias, apresentado com gráficos detalhados e notificações de "lucro realizado". Quando tentou levantar o valor, a plataforma exigiu o pagamento de uma "taxa de verificação fiscal" de 15% sobre o montante total apresentado — ou seja, 315 euros adicionais.

Perante a recusa em pagar, a conta foi bloqueada. Perante o pagamento, novos obstáculos surgiram: "taxa de transferência internacional", "confirmação de identidade premium". O ciclo é deliberado. Neste tipo de esquema, o dinheiro real transferido pelos utilizadores — ao contrário dos saldos fictícios exibidos no painel — é imediatamente disperso por contas em jurisdições com fraca cooperação judicial.

Se transferiu dinheiro para uma plataforma não registada no Banco de Portugal ou na CMVM, a probabilidade estatística de recuperar os valores sem intervenção judicial especializada é inferior a 8%, de acordo com dados do Banco de Portugal referentes ao primeiro semestre de 2026. O prazo crítico para agir é de 48 a 72 horas após a última transação: a partir desse momento, os fundos tendem a ser fracionados em múltiplas contas internacionais, tornando o rastreio tecnicamente possível mas progressivamente mais moroso e custoso.

Se a plataforma prometeu retornos superiores a 20% ao mês, exigiu criptomoedas como forma exclusiva de pagamento, ou não disponibilizou um número de telefone e morada física verificáveis em Portugal — qualquer um destes três sinais, isoladamente, é suficiente para classificar a situação como fraude.

O que fazer se a sua imagem — ou a de alguém próximo — for usada desta forma?

A resposta de Sandra Felgueiras é um modelo de procedimento que qualquer cidadão pode replicar.

Passo 1 — Documentar imediatamente. Capturas de ecrã dos anúncios, URLs completos, datas e horas de publicação. As plataformas sociais removem conteúdo denunciado dentro de horas, o que pode eliminar provas essenciais para uma investigação criminal. Ferramentas como o archive.org permitem guardar uma versão permanente de qualquer página web em segundos.

Passo 2 — Reportar às plataformas. X, Meta e Google têm formulários específicos para denúncia de utilização não autorizada de imagem e publicidade enganosa. O tempo de resposta médio ronda as 48 horas para conteúdo que viole explicitamente as políticas de identidade sintética.

Passo 3 — Apresentar queixa formal. A Polícia Judiciária, através da sua Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T), investiga especificamente fraudes com deepfakes. A queixa pode ser apresentada presencialmente ou online em pj.pt. O CNCS (cncs.gov.pt) aceita também participações que contribuem para o mapeamento nacional destas ameaças.

Passo 4 — Consultar um especialista. Este passo é frequentemente adiado por vítimas que consideram o prejuízo "demasiado pequeno" para justificar honorários profissionais. É um erro: muitas firmas especializadas em direito digital cobram honorários proporcionais à recuperação e, em casos com múltiplas vítimas, os processos são frequentemente agregados em ações coletivas que reduzem o custo individual.

Quando deve consultar um especialista em cibersegurança ou direito digital?

A resposta mais honesta: antes de tomar qualquer decisão financeira baseada em informação descoberta através de uma rede social.

O critério de verificação mínima exige dois passos que qualquer pessoa pode executar em menos de cinco minutos. Primeiro, confirmar se a plataforma aparece na lista de entidades supervisionadas do Banco de Portugal, disponível gratuitamente online. Segundo, pesquisar o domínio da plataforma em ferramentas WHOIS gratuitas: se o domínio foi registado há menos de 90 dias, estamos perante um sinal de alerta de risco muito elevado.

Um especialista em informática certificado pode ir mais longe: verificar os certificados SSL, analisar a reputação do IP, identificar padrões de código malicioso e rastrear a infraestrutura técnica da fraude — informações que podem ser cruciais numa investigação criminal. Para quem já transferiu fundos, o advogado especializado em cibercrime acrescenta o conhecimento dos mecanismos de recuperação junto das instituições bancárias e dos canais de cooperação europeia (Europol, Eurojust e o mecanismo de congelamento rápido de contas disponível entre os Estados-membros da UE).

O caso de Sandra Felgueiras é simultaneamente um aviso e um guia de boas práticas: verificar antes de agir, documentar quando algo parece errado, e não hesitar em recorrer a quem tem o conhecimento técnico e jurídico para responder com eficácia. Num ecossistema digital onde uma campanha fraudulenta pode ser lançada em horas e alcançar milhares de pessoas, a consulta preventiva com um especialista tornou-se parte da literacia financeira básica de 2026.


Nota: Este artigo tem carácter informativo geral. Em caso de suspeita de fraude ou de ter sido vítima de burla online, consulte um advogado especializado em direito digital ou um perito em cibersegurança. As situações descritas são hipotéticas e baseadas em padrões documentados pelas autoridades portuguesas.

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