Rosa Mota aos 67 anos: o que a longevidade da campeã olímpica ensina sobre saúde preventiva

Pavilhão Rosa Mota em Porto, arena desportiva com vista exterior moderna

Photo : Vimacopeca / Wikimedia

7 min de leitura 27 de setembro de 2026

Quando Rosa Mota disparou o tiro de partida da Maratona Internacional de Díli em agosto de 2026, ao lado do presidente timorense, não estava apenas a simbolizar um evento desportivo. Estava, aos 67 anos, a dar uma das mais eloquentes aulas de longevidade ativa que o atletismo português já produziu. A campeã olímpica de Seul 1988 — que em janeiro entrou para o Museu Mundial do Atletismo (MOWA) e que a Universidade do Porto pretende distinguir com o título de Doutora Honoris Causa — mantém uma ligação física e intelectual ao desporto que contraria qualquer ideia fatalista sobre envelhecimento. E essa presença continuada levanta uma pergunta que muitos portugueses com mais de 50 anos e hábitos desportivos deveriam fazer ao seu médico: o que é preciso monitorizar para envelhecer a correr?

Rosa Mota em 2026: um percurso que não parou

Em janeiro de 2026, a Federação Portuguesa de Atletismo confirmou que Rosa Mota passou a integrar a galeria permanente do MOWA — o Museu Mundial do Atletismo —, tornando-se a terceira portuguesa no panteão, a par de Carlos Lopes e Susana Feitor. As suas três vitórias na Maratona de Boston, a medalha de campeã do Mundo de 1987 e o ouro olímpico de Seul 1988 estão agora preservados para a história, com sapatilhas, dorsais e equipamentos originais.

Em fevereiro, a Universidade do Porto anunciou a atribuição do grau de Doutora Honoris Causa, proposta pela Faculdade de Desporto (FADEUP). A cerimónia foi adiada por respeito ao "doloroso contexto que o país atravessava na sequência das recentes tempestades", segundo comunicado oficial da universidade — mas o reconhecimento permanece agendado.

Em julho, a notícia que atingiu uma audiência mais global: Rosa Mota viajou a Timor-Leste para participar na Maratona Internacional de Díli e conduzir seminários de estratégia de corrida e recuperação física com a seleção nacional timorense. Aos 67 anos, em plena atividade internacional. Este é o detalhe que os especialistas de medicina desportiva não deixam passar em branco.

O que a ciência diz sobre atletas que envelhecem a correr

A longevidade desportiva de Rosa Mota não é apenas uma questão de talento inato ou disciplina excecional. Há fisiologia por detrás. Segundo dados publicados pelo European Journal of Applied Physiology, corredores de longa data que mantêm treino aeróbico moderado após os 60 anos preservam até 30% mais capacidade cardiorrespiratória — medida pelo VO₂ máximo — comparativamente a sedentários da mesma faixa etária. A densidade óssea e a massa muscular declinam, mas a um ritmo significativamente mais lento: em média, 0,5% a 1% por ano em atletas veteranos ativos, versus 1,5% a 2% em não praticantes.

Mas existe um paradoxo bem documentado que os médicos de medicina desportiva conhecem bem: atletas veteranos tendem a subestimar sinais de alerta precisamente porque o seu limiar de tolerância ao esforço e à dor é mais elevado do que o da população geral. Um corredor que passou décadas a ultrapassar limites físicos desenvolve uma desvalorização sistemática de sintomas que, em qualquer outra pessoa, provocariam uma consulta imediata.

"O atleta experiente conhece o seu corpo — mas pode não conhecer o corpo que tem agora, aos 60 ou 65 anos", alertam os especialistas. As alterações cardiovasculares, hormonais e articulares que acompanham o envelhecimento são silenciosas e progressivas. Nenhum historial olímpico as suspende. E é precisamente aqui que o acompanhamento médico preventivo deixa de ser opcional para se tornar estratégico.

O protocolo preventivo que os especialistas recomendam para atletas com mais de 55 anos

A Direção-Geral da Saúde (DGS) estabelece, para a população geral com mais de 60 anos, um conjunto de rastreios periódicos que vão do controlo cardiovascular à densitometria óssea. Para praticantes de desporto de resistência — corrida, ciclismo, natação, triatlo —, as recomendações das sociedades médicas de medicina desportiva são mais exigentes:

  • Ecocardiograma de controlo a cada 2 a 3 anos (anual se houver história familiar de doença cardíaca isquémica)
  • Densitometria óssea (DEXA) para monitorização de osteopenia — especialmente relevante em mulheres pós-menopausa que correm
  • Painel analítico completo incluindo ferro sérico, ferritina, vitamina D e vitamina B12, frequentemente deficitárias em atletas de endurance
  • Avaliação biomecânica da pisada e das cadeias musculares das extremidades inferiores
  • Teste de esforço cardiorrespiratório (prova de esforço com eletrocardiograma) a cada 5 anos, ou após episódio de dor torácica

O custo estimado deste protocolo completo, realizado no setor privado, situa-se entre 180€ e 450€ por avaliação anual, dependendo da clínica e dos exames incluídos. No SNS, a maioria destes rastreios é coberta para maiores de 65 anos com critérios clínicos — mas a lista de espera pode comprometer a sua utilidade preventiva.

Caso concreto: a corredora de 64 anos que esperou demasiado

Considere o caso composto de uma corredora recreativa de 64 anos, com 25 anos de prática regular. Depois de completar a sua quinta meia-maratona em maio de 2026, inspirada pela atividade contínua de Rosa Mota, decidiu aumentar o volume semanal de 35 km para 55 km, com o objetivo de correr uma maratona completa em 2027.

Três meses após o aumento, surgiu um desconforto persistente no joelho direito. A sua avaliação imediata: "é dor normal de treino". Raciocínio idêntico ao que usou ao longo de toda a vida desportiva — e que adiou a consulta durante oito semanas.

Quando finalmente recorreu a um especialista de medicina desportiva, o diagnóstico foi condromalácia patelar de grau II com início de desgaste meniscal medial. Com deteção nesse momento, o tratamento conservador — fisioterapia biomecânica, ajuste de plano de treino, suplementação de colagénio hidrolisado 10g/dia — tem eficácia superior a 85% em atletas veteranos sem cirurgia prévia. Se a consulta tivesse sido adiada mais 10 a 12 semanas, a probabilidade de necessitar de artroscopia diagnóstica teria ultrapassado os 60%.

A regra prática: se tem mais de 55 anos, pratica desporto de impacto com regularidade, e sente dor que persiste mais de 14 dias consecutivos, não é dor normal — é um sinal clínico que justifica avaliação especializada. Cada semana de adiamento reduz as opções de tratamento conservador disponíveis e aumenta o tempo total de recuperação.

Nutrição e recuperação: o que muda depois dos 60

Outro vetor em que Rosa Mota certamente trabalhou ao longo dos anos — e que os especialistas sublinham como determinante na longevidade desportiva — é a nutrição de recuperação. A partir dos 55 anos, a síntese proteica muscular fica menos eficiente: o mesmo estímulo de treino exige um aporte proteico maior para produzir adaptação equivalente. Os estudos recentes publicados no British Journal of Sports Medicine apontam para uma necessidade de 1,6g a 2,0g de proteína por kg de peso corporal por dia em atletas veteranos de resistência — um valor 30% a 40% acima das recomendações para a população sedentária da mesma faixa etária.

A hidratação também muda: o mecanismo de sede torna-se menos preciso com a idade, o que significa que atletas veteranos chegam mais facilmente a estados de desidratação leve sem perceberem. Desidratação leve persistente (perda de apenas 2% do peso corporal em treino) é suficiente para aumentar em 20% o risco de lesão tendinosa.

Um nutricionista desportivo especializado em atletas masters pode fazer a diferença entre um plano alimentar que apoia a longevidade desportiva e um que, sem o saber, a compromete.

O que pode aprender com Rosa Mota — e quando consultar um especialista

Rosa Mota não chegou aos 67 anos ainda a ensinar equipas nacionais de atletismo por acaso. Chegou lá porque, ao longo de décadas, tomou decisões informadas — sobre treino, sobre recuperação, e provavelmente sobre quando pedir ajuda especializada.

A lição não é correr uma maratona aos 67 anos. A lição é que a longevidade ativa não é acidente genético; é o resultado de um acompanhamento médico regular, de uma nutrição adaptada à fase de vida, e de uma disposição para consultar especialistas antes que os sinais de alerta se transformem em lesões irreversíveis.

Na Expert Zoom, pode consultar médicos de medicina desportiva, ortopedistas e especialistas em longevidade ativa diretamente online, sem deslocação nem lista de espera. Se tem mais de 50 anos e ainda corre, pedala ou nada com regularidade, uma consulta preventiva anual é o investimento mais eficiente que pode fazer na sua vida desportiva. Saiba mais sobre como outros atletas veteranos gerem a sua saúde desportiva em Thiago Silva aos 41 anos campeão em Portugal: o que a medicina desportiva explica. Rosa Mota já sabe isso há décadas. Agora sabe também.

Aviso: este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento médico individualizado. Para qualquer decisão relacionada com a sua saúde ou prática desportiva, consulte sempre um profissional de saúde habilitado.

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