Após o 'futebol doente' de Rui Costa, psicólogos desportivos alertam para os sinais que os atletas ignoram
A época 2025-26 da Primeira Liga entrou para a história como uma das mais disputadas de sempre — e também por ter gerado polémicas com arbitragem que extravasaram os limites do campo. No dia 2 de maio de 2026, o jogo entre o Famalicão e o Benfica tornou-se o epicentro de uma crise que foi muito além de um pênalti não assinalado. O árbitro Gustavo Correia não marcou a grande penalidade a favor do Benfica após toque claro de mão dentro da área por Rodrigo Pinheiro, num cruzamento de Schjelderup. O vice-campeão ficou com a conquista do título ainda mais comprometida.
A reação do presidente do Benfica, Rui Costa, foi imediata: chamou o árbitro de "alguém que tentou decidir parte do campeonato" e apelidou o futebol português de "doente". A Federação Portuguesa de Futebol multou-o em 4.120 euros e suspendeu-o por 25 dias. O Conselho de Arbitragem concluiu, nas semanas seguintes, que o árbitro e o VAR tiveram desempenhos "insatisfatórios". Porto sagrou-se campeão com 88 pontos, Sporting ficou em segundo com 82, Benfica em terceiro com 80 — três pontos a separar segundo do terceiro.
Mas o que esta temporada revelou vai muito além da controvérsia arbitral: a pressão psicológica do pênalti — marcado, falhado ou negado — afeta profundamente a saúde mental dos atletas, e os sinais de alerta são frequentemente ignorados.
O pênalti como teste de resistência mental
Em termos neurológicos, a situação de bater ou receber um pênalti decisivo é uma das experiências de stress mais intensas no desporto. A zona pré-frontal do cérebro — responsável pelo controlo emocional, pela tomada de decisão e pela coordenação motora fina — fica sobrecarregada no momento de maior pressão. O resultado pode ser o que os especialistas chamam de "choking under pressure": o atleta bloqueia precisamente quando mais precisa de render.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses reconhece formalmente a especialidade de psicologia do desporto como área de intervenção prioritária no bem-estar de atletas de alta competição. Segundo os profissionais desta área, são identificáveis três momentos críticos em que o pênalti pode desencadear uma crise psicológica:
Antes de bater: A pressão da expectativa instala-se. O jogador sabe que todo o estádio, o clube e o país estão a observar cada movimento. O corpo tensiona, a respiração fica curta. A performance motora deteriora-se sem lesão física aparente.
Depois de falhar: Instala-se um ciclo de autocrítica que os psicólogos designam de "ruminação". O atleta revive o momento repetidamente, sem conseguir focar-se no presente. Sem acompanhamento especializado, este ciclo pode comprometer vários jogos seguintes.
Quando a injustiça é percebida: Quando um pênalti evidente não é assinalado — como aconteceu no Famalicão-Benfica de maio de 2026 — a sensação de impotência é, segundo a investigação científica da área, tão prejudicial para o rendimento como a própria derrota. O atleta perde a sensação de controlo sobre o resultado, o que tem impacto direto na motivação e na confiança nas semanas seguintes.
Uma época que demonstrou os limites do corpo e da mente
A análise da Primeira Liga 2025-26, publicada pelo Público em maio de 2026, revelou que o Benfica recebeu o maior número de pênaltis marcados a seu favor em toda a época: 14. O mesmo estudo concluiu que, apesar da perceção generalizada de favoritismo arbitral, as três grandes equipas partilharam de forma relativamente equitativa os erros de arbitragem ao longo da temporada.
Este tipo de dado estatístico é, curiosamente, uma das ferramentas que os psicólogos desportivos utilizam em contexto clínico: ajudar o atleta a contextualizar o que sentiu como injustiça num quadro mais objetivo. A narrativa de "fomos prejudicados" pode ser válida pontualmente, mas quando se torna estrutural no discurso do clube ou do jogador, transforma-se numa barreira ao crescimento psicológico.
"A perceção de injustiça é uma das fontes de stress mais difíceis de gerir no desporto de alta competição", diz a literatura especializada. "Ao contrário de uma derrota 'justa', que o atleta pode racionalizar, uma derrota por erro de arbitragem deixa um resíduo emocional mais duradouro, porque o atleta sente que não controlou o resultado."
Quando procurar ajuda especializada: os sinais que não devem ser ignorados
Nem todo o stress pós-jogo é problemático. O sistema nervoso humano está desenhado para lidar com pressão intensa e, posteriormente, recuperar. O problema surge quando os sinais de alerta se acumulam sem acompanhamento. Os profissionais de saúde mental desportiva identificam os seguintes indicadores:
- Dificuldades de sono persistentes — insónia ou sono excessivo — durante mais de duas semanas após um incidente difícil no campo;
- Perda de motivação para treinar ou competir, sem lesão física associada;
- Irritabilidade fora do campo, afetando relações pessoais e familiares;
- Revisão compulsiva de erros ou injustiças, sem capacidade de focar no presente;
- Ansiedade antecipatória antes dos jogos, que excede claramente a excitação normal pré-competição.
A presença persistente de dois ou mais destes sinais é razão suficiente para consultar um psicólogo especializado em saúde mental desportiva. Como explicam os especialistas da Ordem dos Psicólogos Portugueses, pedir ajuda não é sinal de fraqueza — é uma vantagem competitiva. Os clubes de elite europeus já integram psicólogos nas suas equipas técnicas há mais de uma década. A intervenção precoce pode ser a diferença entre uma época de recuperação e uma carreira interrompida prematuramente.
A propósito, o caso do internacional português Morita, excluído da seleção para o Mundial 2026 por questões de saúde mental, é um exemplo recente de como o silêncio em torno destas dificuldades pode ter consequências desportivas concretas.
O que os adeptos podem aprender com a pressão do pênalti
A pressão do pênalti não afeta apenas os atletas. Investigações em psicologia do desporto mostram que os adeptos apaixonados vivem o jogo de forma visceral — os batimentos cardíacos sobem, a pressão arterial aumenta, e as emoções ligadas à injustiça percebida deixam um rasto cognitivo semelhante ao dos próprios jogadores.
Se é adepto e sente que as polémicas arbitrais afetam de forma desproporcional o seu bem-estar emocional durante dias ou semanas, pode ser o momento certo para falar com um profissional.
No ExpertZoom, pode encontrar psicólogos especializados em saúde mental disponíveis para consulta online ou presencial em todo Portugal. Seja para apoiar um atleta em fase de maior pressão competitiva, seja para gerir o impacto emocional do desporto na vida quotidiana, um especialista faz a diferença.
Nota: Este artigo tem carácter informativo. Perante sintomas persistentes de ansiedade ou depressão, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.
A Primeira Liga 2025-26 ficará na memória pela corrida ao título que foi até à última jornada e pelas polémicas que alimentaram meses de debate. Mas deixa também um lembrete importante: por trás de cada pênalti — marcado, falhado ou não assinalado — existe um ser humano sujeito a uma pressão que poucos conseguem imaginar. Saber reconhecer os sinais de alerta e procurar apoio especializado é, hoje, tão importante como qualquer tática de campo.

Ricardo Rodrigues