Com o IPMA a prever uma segunda quinzena de setembro de 2026 marcada por trovoadas e aguaceiros — sobretudo no Alentejo, no Algarve e nas regiões interiores —, os tutores de animais de estimação em Portugal enfrentam um período de risco real. Segundo investigações veterinárias, mais de 70% dos cães apresenta ansiedade em pelo menos uma situação de vida, e as tempestades são um dos principais gatilhos. A boa notícia: existe uma janela de preparação preventiva que a maioria dos tutores não aproveita.
O que o IPMA prevê para setembro de 2026
Segundo a previsão sazonal do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), setembro de 2026 deverá começar quente e relativamente seco no território continental, antes de uma segunda metade potencialmente mais instável. As anomalias de temperatura situam-se entre 0,5 e 1,5°C acima do normal para o período, com os valores mais elevados a registarem-se na região Norte em setembro.
É sobretudo depois de meados de setembro que a evolução meteorológica se torna mais relevante do ponto de vista da precipitação. O Alentejo e o Algarve estão entre as regiões identificadas pelo IPMA como mais suscetíveis de registar períodos de chuva intensa e trovoadas. Outubro poderá apresentar precipitação acima do normal de forma mais generalizada — o que significa que a janela de instabilidade se estende bem para além de setembro.
Para quem tem animais de estimação em casa, este calendário meteorológico não é uma questão menor. Trovoadas, relâmpagos e as variações bruscas de pressão atmosférica que as antecedem são responsáveis por algumas das crises comportamentais mais severas registadas em clínicas veterinárias portuguesas ao longo do outono.
Como os animais "leem" o tempo antes de nós
Os cães não precisam de ver um relâmpago para entrar em pânico. A sua capacidade auditiva cobre frequências muito além do espetro humano, e os seus sensores de pressão barométrica funcionam como um barómetro biológico: muitos animais entram em estado de alerta com horas de antecedência em relação a qualquer evento atmosférico.
Relâmpagos, trovões, vento forte e mudanças bruscas de pressão atmosférica combinam-se para criar um estímulo de medo com múltiplas camadas que o sistema nervoso do animal não consegue ignorar. O estrondo de um trovão, que para um humano adulto pode ser apenas perturbador, é exponencialmente mais intenso para um cão — os animais percebem infrassons e ultrassons que os humanos simplesmente não detetam.
Segundo dados publicados pelo portal especializado Veterinária Atual, mais de 70% dos cães apresenta ansiedade em pelo menos uma situação de vida. Estima-se ainda que 82% dos cães tem medo de algum estímulo ambiental, sendo as trovoadas e os foguetes os desencadeadores mais frequentes. As reações mais comuns incluem tremores incontroláveis, comportamentos de fuga, vocalização excessiva, destruição de objetos e, em casos extremos, autolesão ao tentar escapar de janelas ou portas fechadas.
O problema mais insidioso é a antecipação: alguns cães começam a reagir até seis horas antes de uma trovoada, o que torna qualquer abordagem reativa — esperar até os primeiros trovões para agir — fundamentalmente ineficaz.
O que recomenda o veterinário: agir antes da trovoada
A intervenção veterinária em situações de ansiedade meteorológica é vastamente mais eficaz quando planeada com antecedência. Existem três abordagens principais, que um veterinário pode combinar de acordo com o perfil e o histórico do animal:
Suplementos naturais: fórmulas à base de camomila, valeriana e L-triptofano ajudam a moderar a resposta ao stresse. No entanto, estes suplementos funcionam melhor quando administrados de forma contínua nos sete dias anteriores ao evento previsto — não como medicação de emergência na noite da trovoada.
Feromonas sintéticas: coleiras e difusores com análogos sintéticos das feromonas de apaziguamento materno (como o DAP — Dog Appeasing Pheromone) replicam as substâncias calmantes que as mães produzem durante a amamentação. Têm eficácia documentada na redução da ansiedade situacional em cães sem efeitos sedativos significativos.
Medicação ansiolítica: para casos de ansiedade grave, com historial de autolesão ou destruição intensa, um veterinário pode prescrever ansiolíticos específicos. Estes requerem avaliação prévia e não devem ser administrados sem orientação profissional.
A combinação de previsão meteorológica com consulta veterinária preventiva é o protocolo mais eficaz. Com a janela de instabilidade que o IPMA aponta para a segunda quinzena de setembro, existe tempo real para agir — se o tutor não esperar pela noite da tempestade.
O que acontece na prática: dois cenários para o mesmo cão
Tome como exemplo um Labrador de 5 anos a viver num apartamento T2 em Faro — uma raça sociável, sem historial aparente de comportamento destrutivo. A trovoada de 18 de setembro de 2026 muda tudo.
Cenário A — sem preparação prévia: às 15h30, com a primeira trovoada a aproximar-se, o cão começa a tremer e a vocalizar de forma persistente. Em 40 minutos, destruiu dois almofadas e rasgou a borracha de vedação da porta da varanda ao tentar sair. O tutor liga para a clínica às 17h e é encaminhado para urgência, onde o animal é sedado, observado durante duas horas e enviado para casa com ansiolíticos de emergência. Custo médio de uma urgência veterinária em Portugal em 2026: entre 150€ e 400€, dependendo dos cuidados prestados e dos exames realizados.
Cenário B — com consulta preventiva feita 8 dias antes: no dia 10 de setembro, o tutor consulta um veterinário online após consultar a previsão sazonal do IPMA para a segunda quinzena do mês. O veterinário avalia o historial do animal — que revelou um episódio de tremores durante os festejos de São João em junho — e recomenda um suplemento de valeriana associado a um difusor de DAP instalado no quarto. Na tarde de 18 de setembro, o cão mostra-se desconfortável mas mantém-se num espaço seguro, afastado das janelas, sem comportamentos destrutivos nem lesões. Custo médio de uma consulta veterinária online em Portugal: entre 30€ e 60€.
A diferença entre os dois cenários não está na gravidade da trovoada — é exatamente a mesma. Está na janela de preparação: se a previsão aponta para instabilidade na segunda quinzena de setembro, uma consulta veterinária na primeira semana do mês pode poupar entre 90€ e 340€ e, mais importante, poupar sofrimento desnecessário ao animal.
Gatos e outros animais: o sofrimento silencioso
Os gatos tendem a esconder a ansiedade de forma muito mais discreta do que os cães. Sinais como esconder-se em locais incomuns, recusar comida, grooming compulsivo ou vocalização noturna fora do padrão habitual podem ser indicadores de ansiedade meteorológica — e são frequentemente ignorados pelos tutores, que os atribuem a "feitio" ou a "mau humor".
Para gatos, os difusores de feromonas com análogos sintéticos do FAP (Feline Appeasing Pheromone) são a primeira linha de abordagem não medicamentosa. Devem ser instalados com pelo menos uma semana de antecedência em relação a um período de instabilidade prevista. Para animais com ansiedade mais severa, um veterinário pode avaliar a adequação de medicação específica.
Aves, coelhos e outros animais de pequeno porte também são sensíveis a variações barométricas e a ruídos intensos. A abordagem é semelhante: espaço seguro, afastado de estímulos externos, e consulta preventiva com um especialista antes de a tempestade chegar.
O que fazer esta semana antes da instabilidade chegar
A segunda quinzena de setembro de 2026 está a aproximar-se. Se o seu animal reagiu negativamente a tempestades no passado — ou se nunca o viu durante uma trovoada intensa —, estes são os passos a seguir agora:
Consulte um veterinário esta semana — avaliação comportamental com plano preventivo personalizado, idealmente 7 a 10 dias antes do período de instabilidade. Uma consulta veterinária online na Expert Zoom permite acesso a especialistas sem necessidade de deslocação nem lista de espera.
Prepare um espaço seguro em casa — uma divisão interior, afastada de janelas e fontes de ruído externo, com objetos familiares: cama, brinquedos, peças de roupa com o cheiro do tutor.
Nunca puna o animal durante uma crise de ansiedade — o castigo agrava a associação negativa com a tempestade e aumenta a intensidade da resposta de medo nas ocorrências seguintes.
Registe os sinais e o momento em que surgem — notas sobre quando o animal começa a reagir, que comportamentos apresenta e durante quanto tempo ajudam o veterinário a definir a abordagem mais adequada e a dosagem correta de qualquer suplemento ou medicação.
Confirme que a identificação eletrónica está atualizada — animais em pânico podem fugir. Um microchip com dados de contacto atualizados é uma precaução simples mas determinante para recuperar o animal em caso de fuga.
Nota: Este artigo tem fins informativos e não substitui o aconselhamento de um médico veterinário licenciado. Qualquer decisão sobre medicação ou suplementação para o seu animal deve ser tomada sob orientação profissional.
A previsão sazonal do IPMA para setembro a novembro de 2026 aponta para uma transição outonal mais instável do que a média. Para os seus animais de estimação, essa instabilidade começa muito antes do primeiro trovão. Não espere pela urgência — aja com a antecedência que a previsão lhe dá.

Maria Silva