Nuno Mendes no Mundial 2026: os 5 direitos jurídicos de um futebolista profissional

Nuno Mendes em ação pelo Paris Saint-Germain numa partida da Ligue 1 em janeiro de 2025

Photo : Like tears in rain / Wikimedia

João João SilvaJurídico
5 min de leitura 6 de julho de 2026

No dia 6 de julho de 2026, no AT&T Stadium em Arlington, Texas, Nuno Mendes foi o protagonista do duelo mais aguardado dos oitavos de final do Mundial 2026: o confronto com Lamine Yamal, a jovem estrela espanhola. O lateral-esquerdo do Paris Saint-Germain, 23 anos e considerado por muitos o melhor da sua posição no mundo, representou Portugal numa partida ibérica de alta intensidade, chegando a rematar para a trave numa jogada individual de enorme qualidade. Mas por detrás do espetáculo desportivo existe um conjunto de direitos jurídicos que protegem jogadores como Nuno Mendes — e que qualquer futebolista profissional deveria conhecer.

O direito à cedência obrigatória para a seleção nacional

O primeiro e mais imediato direito de Nuno Mendes neste contexto é o da cedência obrigatória para a seleção nacional. De acordo com os Regulamentos sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores da FIFA (RETJ), disponíveis em inside.fifa.com, os clubes de futebol são obrigados a libertar os seus jogadores para as competições internacionais reconhecidas pela FIFA, incluindo a Copa do Mundo. O PSG, como clube filiado na Liga Francesa, está vinculado a este regulamento e não pode recusar a convocação de Nuno Mendes pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

Durante o período de cedência, o clube mantém o pagamento do salário do jogador. Em contrapartida, a FIFA estabelece um mecanismo de seguro obrigatório para os clubes, cobrindo lesões ocorridas durante as partidas disputadas ao serviço da seleção nacional. Este aspeto é especialmente relevante dado o historial clínico de Nuno Mendes, que recuperou de uma lesão muscular séria em 2024 antes de brilhar no torneio disputado no Canadá, México e Estados Unidos.

Proteção contratual em caso de lesão: o que diz a lei portuguesa

Em Portugal, o regime jurídico do contrato de trabalho do praticante desportivo profissional é regulado pela Lei n.º 54/2017, de 14 de julho. Esta lei estabelece que a incapacidade temporária resultante de lesão — seja desportiva ou não — não pode servir de fundamento à rescisão unilateral do contrato pelo clube empregador. Assim, um jogador tem garantido, mesmo durante um período prolongado de inatividade, o direito à manutenção do vínculo contratual e ao recebimento do salário acordado.

Este enquadramento é especialmente relevante para os jogadores formados em Portugal que atuam no estrangeiro. Embora Nuno Mendes esteja sujeito à lei francesa enquanto trabalhador do PSG, os princípios gerais do direito desportivo internacional estabelecem proteções equivalentes. Qualquer divergência entre clube e jogador pode ser levada ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), em Lausanne, que recentemente julgou vários casos relacionados com o próprio Mundial 2026.

Direitos de imagem: um ativo cada vez mais valioso

O desempenho de Nuno Mendes no duelo com Lamine Yamal no Mundial 2026 reforça o seu perfil comercial, tornando-o um dos jogadores portugueses mais procurados pelas marcas. Em termos jurídicos, os direitos de imagem de um desportista profissional são tratados de forma separada do contrato de trabalho desportivo. A federação e a liga profissional gerem os direitos coletivos — como os patches da competição nos equipamentos —, mas os direitos individuais, incluindo publicidade, patrocínios e redes sociais, são negociados diretamente entre o jogador e os parceiros comerciais.

Um erro frequente é o jogador profissional não ter um contrato de imagem formalizado e distinto do contrato de emprego. Esta situação pode gerar conflitos, especialmente quando o clube pretende usar a imagem do atleta para fins comerciais não previstos no contrato de trabalho. Um advogado especializado em direito desportivo e contratos de jogadores pode negociar estas cláusulas de forma a proteger os interesses de ambas as partes.

A cláusula de rescisão e o mecanismo de solidariedade na formação

Nuno Mendes renovou o seu contrato com o PSG em fevereiro de 2025, estendendo o vínculo até 2030 e tornando-se um dos jogadores mais bem pagos do clube. A cláusula de rescisão — o valor que um clube interessado deve pagar para libertar o jogador — é um elemento jurídico central nestes contratos. Ela define os termos em que uma transferência pode ocorrer e protege o clube de propostas indesejadas num período de alta exposição mediática, como o de um Mundial.

Em paralelo, existe o mecanismo da solidarity payment: quando um jogador formado em clubes portugueses é transferido internacionalmente, uma percentagem do valor da transferência deve ser distribuída pelos clubes que participaram na sua formação. No caso de Nuno Mendes, formado no Sporting CP, o clube lisboeta beneficiou deste mecanismo quando o PSG o contratou definitivamente. Este direito, previsto nos regulamentos FIFA, aplica-se também em transferências de jogadores como Lenglet para o Benfica e garante uma distribuição mais justa dos recursos no futebol português.

O agente desportivo: direitos e limites legais

Por fim, um aspeto frequentemente negligenciado: os direitos e obrigações relativos ao agente desportivo. Os agentes de jogadores de alto perfil estão sujeitos tanto ao regulamento da FIFA como às legislações nacionais. Em Portugal, um agente desportivo deve estar licenciado e o contrato de representação tem regras específicas quanto à duração máxima, à comissão permitida e à gestão de conflitos de interesse.

A FIFA implementou em 2023 os FIFA Football Agents Regulations, que limitam as comissões a 3% do salário anual do jogador (ou 5% em situações especiais) e impõem obrigações de transparência sobre os pagamentos efetuados. Para um jogador jovem e de elevado valor de mercado — Nuno Mendes tem o mercado avaliado em mais de 90 milhões de euros pelo Transfermarkt —, ter um agente registado e um contrato de representação bem estruturado é uma proteção essencial.

Quando consultar um especialista em direito desportivo?

O enquadramento jurídico do futebol profissional é complexo e envolve direito do trabalho, direito comercial e regulamentos internacionais em constante atualização. Sempre que um jogador, familiar ou clube se encontre numa situação de dúvida — na negociação de um contrato, numa transferência, numa lesão ou na gestão dos direitos de imagem —, é fundamental recorrer a um advogado especializado em direito desportivo.

Aviso legal: Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento jurídico profissional. Para situações concretas relacionadas com contratos desportivos, consulte um advogado habilitado.

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