Ministra da Saúde e a crise do SNS: o que cada português deve saber sobre os seus direitos
A ministra Ana Paula Martins recusou demitir-se em janeiro de 2026 depois da morte de uma grávida durante atrasos do INEM. Em março, reconheceu o aumento da mortalidade infantil. O que está em jogo no SNS — e quais são os seus direitos enquanto doente?
Uma ministra sob pressão constante
Ana Paula Martins ocupa o cargo de ministra da Saúde no governo de Luís Montenegro desde 2024. Doutora em Farmácia Clínica e ex-presidente da Ordem dos Farmacêuticos entre 2016 e 2022, é uma das figuras mais pressionadas do executivo.
Em 9 de janeiro de 2026, recusou publicamente a demissão após a morte de uma mulher grávida durante a espera por uma ambulância do INEM. "Não pedi nem pedirei para sair do Governo", afirmou ao PÚBLICO. A declaração marcou o tom de um mandato marcado por crises consecutivas: urgências sobrelotadas, partos em ambulâncias, greves de enfermeiros e escassez de médicos de família.
Em 13 de março de 2026, a ministra reconheceu o aumento da mortalidade infantil em Portugal, apontando em particular a vulnerabilidade das mães estrangeiras no acesso aos cuidados de saúde. Em 17 de março, negou que o aumento dos partos em ambulâncias esteja relacionado com a criação dos serviços regionais de urgência obstétrica. Em 18 de março, recuou na posição sobre o financiamento das autarquias na saúde, admitindo que os valores transferidos "não estão adequados à realidade".
O que está a correr mal no sistema
Os dados disponíveis para 2026 revelam várias fragilidades estruturais:
Urgências sobrecarregadas. Portugal tem um dos rácios mais baixos de camas hospitalares por 1.000 habitantes da União Europeia — 3,4, face a uma média europeia de 5,5 em 2024. Com a procura a crescer, os serviços de urgência funcionam muitas vezes no limite.
Falta de médicos de família. Cerca de 1,5 milhões de portugueses não têm médico de família atribuído, segundo dados do SNS de início de 2026. Para estas pessoas, qualquer problema de saúde começa obrigatoriamente na urgência hospitalar.
Partos em ambulâncias. O número de partos realizados fora de unidades hospitalares aumentou entre 2024 e 2026, associado ao encerramento noturno de algumas unidades de urgência obstétrica.
Crise nos enfermeiros. Em março de 2026, a ministra admitiu não ter soluções para todas as reivindicações dos enfermeiros, que incluem aumentos salariais e melhores condições de trabalho.
Os seus direitos enquanto doente em Portugal
O quadro legal português garante direitos claros a quem usa o SNS — muitos dos quais são desconhecidos:
Direito à segunda opinião. Todo o utente do SNS tem direito a solicitar uma segunda opinião médica antes de aceitar um tratamento proposto. Este direito está previsto na Lei de Bases da Saúde (Lei n.º 95/2019).
Direito a consulta no prazo máximo. O SNS define tempos máximos de resposta para consultas e cirurgias. Para consultas de especialidade, o prazo máximo é de 150 dias. Se este prazo não for cumprido, o utente tem direito a recorrer ao setor privado com comparticipação do Estado (Voucher SNS).
Direito à informação clínica. Qualquer pessoa tem o direito de aceder ao seu processo clínico completo, incluindo exames, prescrições e notas médicas. Um pedido recusado pode ser contestado junto da Entidade Reguladora da Saúde (ERS).
Direito a reclamar. O Livro de Reclamações existe em todos os serviços de saúde públicos. Uma reclamação formal é o primeiro passo para acionar mecanismos de supervisão e eventual indemnização.
Responsabilidade civil do Estado. Se um dano à saúde resultar de uma falha dos serviços públicos — como atrasos na emergência pré-hospitalar — o Estado pode ser responsabilizado civilmente. O prazo de prescrição é de três anos a partir do momento em que o lesado toma conhecimento do dano.
Mortalidade infantil e mães estrangeiras. Para cidadãos estrangeiros residentes em Portugal, o acesso ao SNS é garantido em condições equivalentes aos cidadãos nacionais. Dificuldades de acesso decorrentes de barreiras linguísticas ou documentais podem ser denunciadas ao Alto Comissariado para as Migrações (ACM).
Quando pedir ajuda a um médico — e quando pedir ajuda a um advogado
Em contexto de crise nos serviços de saúde, dois tipos de profissionais se tornam essenciais:
Um médico online pode ajudar a decidir se uma situação exige urgência hospitalar ou se pode ser tratada de forma ambulatória — evitando deslocações desnecessárias a serviços sobrelotados. Consultas à distância estão disponíveis para acompanhamento de doenças crónicas, pedidos de segunda opinião e orientação em situações não urgentes.
Um advogado especializado em saúde é indispensável quando existe suspeita de negligência médica, recusa de cuidados, ou quando uma reclamação administrativa não obtém resposta adequada. O prazo para agir é curto — por isso, não espere.
A crise no SNS não é uma fatalidade: é um problema com causas identificáveis e mecanismos de resolução. Conhecer os seus direitos é o primeiro passo para os exercer.
Aviso: Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento jurídico ou médico. Para situações específicas, consulte um profissional qualificado.
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