Luka Modric retirou-se da seleção croata aos 41 anos, depois de a Croácia ser eliminada por Portugal nos oitavos de final do Mundial 2026. O homem que guiou o seu país à final de 2018 e foi eleito o melhor jogador do mundo nesse ano encerra um ciclo com a camisola xadrez — e o mundo do desporto volta a debater uma questão que os especialistas em gestão de património repetem há décadas: o que deve um atleta de elite fazer com o seu dinheiro quando a carreira termina?
A despedida que reabriu um debate financeiro
A derrota da Croácia frente à seleção nacional nos oitavos de final do Mundial 2026, disputado nos Estados Unidos, foi mais do que uma eliminação desportiva. Para Modric — médio que redefiniu a posição e se tornou um dos maiores jogadores da história — representou o fim de um ciclo de vinte anos ao serviço da seleção nacional. Com 41 anos, o croata prolonga ainda a carreira no AC Milan por mais uma temporada. Segundo reportagens do jornal espanhol AS e da revista Marca, o Real Madrid mantém em aberto uma oferta de cargo diretivo para Modric após a conclusão da sua carreira de jogador — uma transição que os especialistas consideram exemplar.
Mas o que torna o caso de Modric relevante para além das manchetes desportivas é precisamente a questão que ele levanta: como é que um atleta profissional — seja no topo ou na segunda divisão — deve gerir o seu património ao longo de uma carreira curta e intensamente remunerada?
Os números que ninguém quer ver
Os dados são mais sombrios do que a maioria imagina. De acordo com o FIFPro, o sindicato internacional de jogadores de futebol, cerca de 45% dos futebolistas profissionais enfrentam dificuldades financeiras nos cinco anos após o fim da carreira. Um inquérito da UEFA publicado em 2023 revelou que, nos escalões inferiores das principais ligas europeias, essa percentagem pode ultrapassar os 60%.
Os motivos são estruturais e repetem-se independentemente do país ou do nível de rendimento. Os salários elevados concentram-se numa janela temporal estreita — tipicamente entre os 18 e os 35 anos. Durante esse período, as despesas sobem para acompanhar o estilo de vida esperado por pares, agentes e patrocinadores. Quando os salários cessam, muitos atletas descobrem que não têm poupanças suficientes, investimentos diversificados ou planos para uma segunda carreira.
Em Portugal, a dimensão temporal torna o problema ainda mais premente. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a esperança de vida de um homem de 35 anos é de mais 46 anos. Um atleta que se retire nessa idade ainda tem quase cinco décadas pela frente a financiar — com rendimentos que, na maioria dos casos, nunca voltarão ao nível dos anos de pico.
O que distingue Modric da maioria — e por que isso importa para os outros
Modric é um caso atípico, e não apenas pelo talento. Estimativas da imprensa especializada avaliam os rendimentos totais do croata ao longo da carreira entre €150 e €200 milhões, entre salários no Real Madrid, prémios de título e contratos de imagem globais. A essa escala, os erros financeiros são possíveis, mas também recuperáveis.
Para a maioria dos atletas profissionais europeus — incluindo jogadores das ligas portuguesa e espanhola fora dos grandes clubes — a margem de erro é incomparavelmente mais estreita. Um futebolista que jogue dez anos na Segunda Liga portuguesa pode acumular entre €400.000 e €2 milhões brutos ao longo da carreira. Depois de impostos, contribuições para a segurança social e despesas correntes, a poupança líquida pode ser significativamente inferior.
É aqui que a diferença entre um atleta com e sem estratégia patrimonial se torna decisiva. Os especialistas nesta área recomendam três pilares fundamentais: diversificação de ativos — imobiliário, fundos de investimento, participações em empresas —, otimização fiscal através de regimes como o dos Residentes Não Habituais (que pode fixar a tributação de certos rendimentos em 20% em Portugal), e uma estratégia definida para a segunda carreira, seja em funções diretivas, seja em negócios ligados ao desporto.
Para mais contexto sobre como outros atletas de topo da Europa têm gerido a transição patrimonial, veja a análise realizada a propósito de Harry Kane e o planeamento financeiro de atletas no Mundial 2026, e o caso de Griezmann e as lições de investimento dos craques do futebol europeu.
Caso concreto: o atleta português com €1,8 milhões poupados aos 36 anos
Imagine o caso de João, médio defensivo que disputou doze anos entre a Primeira Liga portuguesa e dois clubes espanhóis da Segunda División. Ao retirar-se aos 36 anos, em 2026, João tem €1,8 milhões em poupanças acumuladas, um apartamento em Lisboa avaliado em €400.000 e a certeza de que os salários pararam.
Sem estratégia patrimonial, o cenário típico evolui assim: os €1,8 milhões investidos num depósito a prazo com taxa de 3% geram €54.000 anuais brutos. Com uma tributação de IRS de cerca de 28% sobre rendimentos de capitais a este nível, o rendimento líquido cai para aproximadamente €38.880. Com despesas mensais moderadas de €3.500 (€42.000 anuais), João começa imediatamente a consumir o capital — um défice de €3.120 por ano que acelera à medida que a inflação corrói o poder de compra. Em quinze anos, João pode ver-se com menos de metade do capital inicial.
Com uma estratégia estruturada, o mesmo João consulta um especialista antes da reforma e distribui os €1,8 milhões por uma carteira diversificada: 40% em fundos de ações internacionais com retorno histórico médio de 7-8% ao ano, 30% em obrigações e fundos de rentabilidade fixa, 20% em imobiliário para arrendamento — gerando cerca de €9.600 anuais líquidos do apartamento — e 10% em liquidez para necessidades imediatas. Aproveitando o regime dos Residentes Não Habituais enquanto elegível, a carga fiscal sobre os rendimentos de investimento reduz-se substancialmente.
O resultado: João passa a gerar entre €72.000 e €90.000 anuais, com exposição fiscal otimizada, sem tocar no capital principal durante a maioria dos anos. A diferença entre os dois cenários, ao fim de dez anos, pode ultrapassar €600.000 — apenas em termos de rendimento acumulado e poupança fiscal.
A regra que os consultores de atletas repetem é a dos "3×5": três fontes de rendimento passivo independentes, cinco anos de despesas correntes disponíveis como almofada de liquidez, e um plano de segunda carreira ativo antes de os 40 anos serem atingidos.
Quando agir — e como encontrar o especialista certo
O caso de Modric é um lembrete de que o planeamento patrimonial de um atleta não começa com a reforma. Começa no pico da carreira, quando os rendimentos são mais elevados, as opções mais abertas e o tempo ainda joga a favor da acumulação de capital.
Os sinais de alerta que os especialistas identificam são claros: rendimentos anuais acima de €80.000 sem um plano de investimento estruturado; poupanças concentradas num único ativo ou conta bancária; desconhecimento dos regimes fiscais disponíveis para o perfil de atleta; e ausência de um plano concreto para os anos pós-carreira.
A transição de Modric para um eventual cargo de diretor no Real Madrid mostra que a longevidade financeira e profissional é o resultado de escolhas informadas, feitas antecipadamente. Não é acidente — é estratégia.
A Expert Zoom permite encontrar consultores de gestão de património especializados em atletas e indivíduos de elevado rendimento, capazes de construir uma estratégia personalizada desde a fase de acumulação até à preservação e rentabilização do capital conquistado em anos de carreira.
Este artigo tem fins informativos e jornalísticos. Não constitui aconselhamento financeiro individualizado. Para decisões de investimento ou planeamento patrimonial, consulte um especialista qualificado.

Beatriz Martins