Liverpool vs. Nottingham Forest: o que a avaliação de $7 mil milhões revela para investidores portugueses em 2026

Vista panorâmica do estádio de Anfield, casa do Liverpool FC, na Premier League

Photo : Yurificacion / Wikimedia

Beatriz Beatriz MartinsGestão de Património
7 min de leitura 29 de agosto de 2026

O Liverpool recebeu o Nottingham Forest em Anfield a 29 de agosto de 2026, na segunda jornada da Premier League 2026-27. Para além do espetáculo desportivo, o jogo coloca em evidência uma realidade financeira de proporções históricas: dias antes, tinha sido anunciado que um consórcio liderado por Jeff Bezos — incluindo o fundo K5 Sports, Amit Bhatia e Eduardo Saverin, cofundador do Facebook — adquiriu cerca de um terço do Liverpool Football Club à FSG (Fenway Sports Group) por uma avaliação de $7,1 mil milhões, segundo noticiou a CNBC a 14 de agosto de 2026. Para o investidor português que seguiu o jogo em casa, a questão emerge naturalmente: é possível beneficiar do crescimento extraordinário dos grandes clubes europeus? E o que diria um especialista em gestão de patrimônio antes de responder?

Da rivalidade em campo ao negócio de 14 vezes

A história financeira por trás deste dérbi começa em 2010, quando a Fenway Sports Group comprou o Liverpool por £300 milhões — um clube então assoberbado por dívidas e ainda à procura de identidade pós-Benítez. Dezasseis anos depois, segundo dados da Sportico, o clube está avaliado acima dos $7,1 mil milhões, o que implica um retorno superior a 14 vezes o investimento original. Para contextualizar: um depósito a prazo no mesmo período teria gerado, na melhor das hipóteses, um retorno acumulado de 30 a 40%.

Do outro lado do relvado, o Nottingham Forest percorreu um caminho diferente mas igualmente revelador. Evangelos Marinakis adquiriu o clube em 2017 por £50 milhões, quando o Forest ainda vivia na segunda divisão inglesa. Desde então, o empresário grego injetou mais de £250 milhões no projeto, levou o clube de volta à Premier League e viu a sua fortuna estimada em $5,1 mil milhões pela Forbes. Em 2025, colocou as suas participações numa blind trust para cumprir as regras da UEFA sobre propriedade multi-clube — uma exigência regulatória que qualquer investidor sério neste setor acaba por enfrentar.

Estes dois casos — FSG e Marinakis — tornaram-se referências incontornáveis para quem estuda o futebol como classe de ativo. Mas o que se passa entre o entusiasmo dos números e a realidade de um investidor individual em Portugal?

O que os números revelam — e o que escondem

Para um gestor de patrimônio, os retornos do Liverpool e do Forest são reais, mas raramente replicáveis por investidores de retalho. O deal Bezos-FSG envolveu bilionários com capacidade para imobilizar centenas de milhões de dólares durante uma década ou mais, com acesso a informação e a condições que não existem em nenhum produto de prateleira.

No entanto, existem alternativas que permitem ao investidor português obter exposição indireta ao crescimento do futebol europeu:

Ações de clubes cotados em bolsa: O Manchester United (MANU), a Juventus (JUVE.MI) e o SL Benfica (BEN.LS) são acessíveis através de qualquer corretora com conta de valores. A liquidez é diária e o ticket mínimo é reduzido — mas a volatilidade é elevada. O Manchester United perdeu mais de 40% do valor em bolsa entre 2022 e 2023, antes de recuperar com a entrada da INEOS. Quem não estiver preparado para esse tipo de oscilação não deve considerar esta via.

Fundos de capital privado desportivos: Algumas estruturas licenciadas agregam participações em vários clubes europeus e estão disponíveis para investidores qualificados. Habitualmente, exigem um mínimo de €50.000 a €100.000 e períodos de lockup de sete a dez anos sem possibilidade de resgate antecipado sem penalização. São veículos adequados a investidores com patrimônios sólidos e horizontes temporais longos.

ETFs do setor do entretenimento e desporto: A opção mais líquida e diversificada. Inclui exposição a empresas como a Live Nation, Sportradar, operadores de transmissão desportiva e equipamentos. O retorno histórico da última década situa-se entre os 9 e os 11% anualizados, mas sem acesso direto às valorizações extraordinárias de um clube específico.

De acordo com a CMVM — Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, qualquer produto financeiro comercializado em Portugal deve estar devidamente registado e o seu gestor autorizado. Antes de subscrever qualquer fundo alternativo com exposição ao futebol, o investidor deve verificar essa condição na base de dados pública da CMVM — uma verificação simples que evita a exposição a produtos não regulamentados.

Para uma perspetiva mais ampla sobre como o capital privado tem transformado a propriedade dos clubes ingleses, leia também a nossa análise sobre o Newcastle United e a venda de participações ao PIF.

O fator que a maioria dos artigos ignora: a fiscalidade portuguesa

Há uma variável raramente mencionada nas análises entusiastas sobre o futebol como investimento: o impacto fiscal para o investidor residente em Portugal.

As mais-valias obtidas através de fundos de capital privado domiciliados fora da União Europeia podem ser tributadas de forma diferente das provenientes de veículos comunitários. Em Portugal continental, os rendimentos de capital e as mais-valias enquadram-se habitualmente na Categoria E ou na Categoria G do IRS, com taxas que variam entre 10% e 28% conforme a natureza do ativo, a localização do veículo e o regime fiscal do investidor.

Para investimentos superiores a €100.000 em ativos financeiros no exterior, podem ainda existir obrigações declarativas ao Banco de Portugal. Uma diferença de dez pontos percentuais na taxa efetiva de tributação representa €10.000 em impostos por cada €100.000 de ganho — um impacto que pode eliminar por completo o prémio de diversificação que se esperava obter. Esta análise deve ser feita antes de qualquer decisão, não depois.

O caso concreto: Ana, 47 anos, Lisboa, €60.000 e três caminhos possíveis

Imagine Ana, advogada em Lisboa, com 47 anos e €60.000 disponíveis para investimento. Depois de acompanhar o jogo e as notícias sobre a avaliação do Liverpool, questiona-se como pode beneficiar do crescimento do futebol europeu sem ser bilionária. Um especialista em gestão de patrimônio apresentar-lhe-ia três cenários com números concretos:

Cenário A — Ações cotadas (€20.000 em Manchester United a $11,50/ação): Ana adquire uma posição em bolsa com liquidez imediata. Se o clube atravessar um período de resultados desportivos negativos — como aconteceu em 2022-23, com uma queda de 40% —, a posição cai de €20.000 para €12.000. Para recuperar ao valor de entrada, seria necessária uma valorização de 67%, o que historicamente demorou entre três e cinco anos neste tipo de ativo. Se Ana precisar do capital antes disso, o risco de concretizar perdas é imediato e real.

Cenário B — Fundo de capital privado desportivo (€50.000, lockup de 8 anos): Ana investe €50.000 num fundo registado na CMVM que detém participações em quatro clubes da Premier League e projeta retornos anualizados de 9%. Se a projeção se confirmar integralmente, Ana recupera €99.564 ao fim de oito anos — um ganho bruto de €49.564, sujeito a IRS. Mas se surgir uma emergência familiar ao quarto ano e precisar de resgatar o capital, o fundo pode aplicar penalizações de 20 a 25% sobre o valor acumulado, eliminando praticamente todo o retorno gerado até esse momento.

Cenário C — ETF desporto e entretenimento (€10.000, liquidez diária): Com os restantes €10.000, Ana investe num ETF setorial com resgate disponível em qualquer sessão de bolsa. O histórico da última década aponta para retornos médios de 9 a 11% ao ano — sem a concentração de risco num único clube, sem lockup e sem penalizações de saída, mas também sem a possibilidade de capturar uma valorização de 14x como a do Liverpool.

A regra do if/then: Se Ana não puder garantir que os €50.000 ficam imobilizados por, no mínimo, oito anos — sem pressão de liquidez por qualquer motivo —, o Cenário B está excluído, independentemente das projeções de retorno. Se tiver esse horizonte temporal e confirmar o registo do fundo junto da CMVM, pode ser uma opção relevante após consulta fiscal detalhada. Se precisar de flexibilidade em qualquer momento, o Cenário C é o único caminho adequado, ainda que menos ambicioso nos retornos potenciais.

O que fazer se quiser exposição ao futebol europeu

O Liverpool vs. Nottingham Forest de 29 de agosto de 2026 pode servir de ponto de partida para uma conversa séria sobre diversificação de carteira. Para qualquer investidor português que ponha esta questão a um especialista, os passos práticos são claros:

  1. Definir o horizonte temporal real e a necessidade de liquidez — sem garantia de poder imobilizar capital por sete a dez anos, os fundos de capital privado desportivos estão fora de questão, independentemente das projeções.
  2. Verificar o registo do produto junto da CMVM antes de qualquer subscrição — um passo simples que filtra os produtos não regulamentados.
  3. Quantificar o impacto fiscal com um especialista antes de decidir — a diferença entre 10% e 28% de taxa efetiva pode ser mais determinante do que a escolha do ativo.
  4. Consultar um gestor de patrimônio certificado para perceber se esta alocação faz sentido no contexto do portfólio global e dos objetivos financeiros a longo prazo.

O futebol pode ser a paixão. A gestão de patrimônio exige frieza, conhecimento da regulamentação portuguesa e um profissional que entenda tanto a dinâmica dos mercados alternativos europeus como as especificidades do enquadramento fiscal em Portugal. Os números do Liverpool impressionam — mas o trabalho do especialista começa exatamente onde a empolgação termina.

Aviso: Este artigo tem caráter informativo e jornalístico. Não constitui aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento. Consulte um profissional qualificado antes de tomar qualquer decisão de investimento.

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