Liverpool vs Mônaco: o amigável que esconde um mercado de €5,6 mil milhões para investidores

Estádio Anfield em Liverpool, palco do amigável com o AS Mônaco em agosto de 2026

Photo : Arne Müseler / Wikimedia

Beatriz Beatriz MartinsGestão de Património
7 min de leitura 9 de agosto de 2026

Esta tarde, Anfield recebe a primeira partida em casa de Andoni Iraola como treinador do Liverpool FC: o AS Mônaco é o adversário neste amigável de pré-temporada marcado para 9 de agosto de 2026. Virgil van Dijk, Alisson Becker e Cody Gakpo regressam ao terreno de jogo depois de prolongadas licenças pós-Mundial. Para os adeptos, é o início da temporada. Para os investidores, é um lembrete de um dado mais surpreendente: o Liverpool vale hoje $6,2 mil milhões de dólares — comprado pela Fenway Sports Group por apenas $493 milhões em 2010. Esta partida de preparação é, assim, uma janela para compreender o que são os clubes de futebol de elite como ativos de investimento — e o que isso significa para o investidor português.

O Liverpool: de $493 milhões a $6,2 mil milhões em 16 anos

Em 2010, a Fenway Sports Group (FSG) — grupo proprietário dos Boston Red Sox e dos Pittsburgh Penguins — adquiriu o Liverpool FC por $493 milhões de dólares, num momento em que o clube acumulava dívidas e terminara a época sem títulos.

Dezasseis anos depois, a Forbes avaliou o Liverpool em $6,2 mil milhões em maio de 2026, colocando-o no quarto lugar entre os clubes mais valiosos do mundo — atrás apenas do Real Madrid ($9,5 mil milhões), do Barcelona ($7,5 mil milhões) e do Manchester United ($7,2 mil milhões). O retorno acumulado é de 1.157%, equivalente a multiplicar 12,5 vezes o capital inicial ao longo de uma década e meia.

Para contextualizar: se um investidor português tivesse aplicado €100 mil no S&P 500 no mesmo período, o capital teria crescido para cerca de €450 mil — um retorno respeitável de 350%. O Liverpool, em comparação, superou em mais de três vezes o principal índice bolsista dos Estados Unidos.

Segundo o This Is Anfield, a FSG está em negociações avançadas com um consórcio liderado por Amit Bhatia e apoiado pela família Mittal para vender uma participação de até 49% do clube, a uma avaliação superior a $6 mil milhões. O fundador da Amazon, Jeff Bezos, foi também abordado para integrar o consórcio. Uma eventual transação representaria uma das maiores operações de capital privado no desporto europeu em 2026.

O Mônaco: uma entrada de €1 e quinze anos de valorização

Do outro lado do campo hoje está o AS Mônaco — clube que, em dezembro de 2011, Dmitry Rybolovlev adquiriu por €1 simbólico, com o compromisso de injetar pelo menos €100 milhões ao longo dos quatro anos seguintes. À época, o Mônaco disputava a segunda divisão francesa.

O retorno do investimento foi notável: o clube subiu à Ligue 1, conquistou o campeonato em 2016-17 e chegou às meias-finais da Liga dos Campeões. Quinze anos depois, Rybolovlev contratou o Raine Group — o banco de investimento que intermediou a venda do Chelsea — para explorar propostas de novos investidores, incluindo consórcios norte-americanos que encontraram no Principado uma oportunidade semelhante à que a FSG encontrou no Liverpool.

O padrão repete-se com consistência: compra em momento de fragilidade a preço reduzido → investimento estruturado em infraestrutura e plantel → valorização expressiva → entrada de novos acionistas ou venda parcial. Liverpool e Mônaco são dois dos exemplos mais citados deste modelo no futebol europeu moderno.

Futebol como classe de ativos alternativos

O mercado global de sports private equity ultrapassou os $50 mil milhões em 2025, com crescimento anual projetado de 15% até 2030, de acordo com dados da Deloitte. O que era antes reservado a milionários e fundos soberanos está a atrair family offices, fundos de pensões e veículos coletivos que permitem exposição a múltiplos clubes.

Em Portugal, o acesso direto à propriedade de clubes de futebol de topo é praticamente impossível para o investidor individual. Mas há alternativas com diferentes perfis de risco e liquidez:

  • Ações de clubes cotados: Sporting SAD (SCPF) e Benfica SAD (SLBF) estão listados na Euronext Lisboa — o investimento mínimo é o valor de uma ação, com liquidez de mercado.
  • Fundos de private equity desportivo: grupos como o Arctos Sports Partners ou o RedBird Capital Partners oferecem exposição a múltiplos clubes, mas exigem tickets tipicamente acima de €250 mil.
  • ETFs temáticos: fundos sectoriais permitem exposição indireta a empresas de desporto e entretenimento com liquidez diária e custos de gestão reduzidos.
  • Fan tokens e ativos digitais: opções de elevado risco e liquidez imprevisível, inadequadas para uma estratégia patrimonial estruturada.

Num caso recente amplamente analisado, a venda de uma participação do Newcastle United ao fundo soberano saudita PIF demonstrou como mesmo clubes de segunda linha podem atrair capital de €300 milhões quando há uma tese de investimento clara. Leia a análise completa do caso Newcastle e o que os investidores portugueses devem saber.

Caso concreto: o que acontece quando investe €50.000 em futebol

Imagine um empresário português de 45 anos, com um patrimônio líquido de €400.000 e €50.000 disponíveis para diversificar a carteira além dos habituais depósitos a prazo e ETFs globais. Decide explorar o futebol como ativo alternativo.

Cenário A — Ações do Sporting SAD (SCPF): Com o preço das ações a variar historicamente entre €1,80 e €3,20, os €50.000 comprariam entre 15.600 e 27.700 ações. O problema: o valor das ações de clubes portugueses correlaciona fortemente com os resultados desportivos — uma eliminação precoce na fase de grupos da Liga dos Campeões pode implicar uma queda de 30% a 40% em poucas semanas. A volatilidade supera largamente a de um ETF de mercado alargado.

Cenário B — ETF temático desportivo: Com uma taxa de gestão anual de ~0,55%, o custo seria de €275/ano. O retorno estaria ligado ao setor no seu conjunto — transmissões, patrocinadores, merchandising — com muito menos exposição ao risco de um único clube e liquidez diária. Adequado para quem quer diversificação sectorial sem concentrar risco num só ativo.

Cenário C — Fundo de private equity desportivo: A maioria dos fundos especializados exige investimentos mínimos de €250.000, pelo que os €50.000 ficam abaixo do threshold habitual. Para este perfil de investidor, o acesso direto a fundos de primeira linha não é viável sem veículos intermediários, como os fundos de fundos com tickets de entrada mais baixos.

Se a situação fosse diferente — €50.000 aplicados em ações do Liverpool aquando da compra pela FSG em 2010: com o retorno de 1.157% documentado pela Forbes, esses €50.000 teriam crescido para cerca de €628.500 em 2026. A diferença entre o cenário real e o hipotético é de €578.500 — uma ilustração concreta de quanto o timing e a seleção do ativo impactam o resultado final numa classe de ativos ilíquida e de longo prazo.

A diferença que um especialista faz: sem uma análise prévia do perfil de risco e do horizonte temporal (o futebol exige tipicamente 7 a 10 anos de paciência), um investidor pode concentrar capital num ativo volátil sem perceber as implicações. A alocação recomendada a ativos alternativos e ilíquidos raramente ultrapassa 10% do portfólio total — o que, para um patrimônio de €400.000, significa um máximo de €40.000 em ativos desportivos. Um consultor em gestão de patrimônio ajuda também a estruturar o tratamento fiscal dos dividendos de ações estrangeiras e a definir limites de concentração sectorial. Gareth Bale, por exemplo, criou o seu próprio fundo desportivo de €500 milhões para gerir exactamente este tipo de alocação de forma profissional — um modelo que qualquer investidor com ambições no sector pode analisar.

O que perguntar a um especialista antes de investir em futebol

Antes de avançar para qualquer investimento ligado ao desporto, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) recomenda que os investidores avaliem a liquidez do ativo, o horizonte temporal e a tolerância ao risco — critérios que se aplicam com particular acuidade a ativos alternativos como participações em clubes de futebol.

Um consultor de gestão patrimonial pode ajudá-lo a responder a questões como:

  • Qual a percentagem máxima do meu patrimônio a alocar em ativos ilíquidos ou de elevado risco?
  • Existe um enquadramento fiscal vantajoso em Portugal para dividendos de ações de clubes estrangeiros?
  • Como se compara o retorno esperado, face ao risco assumido, com alternativas como o imobiliário ou as obrigações do Tesouro?
  • Em caso de perda total do capital (falência ou despromoção do clube), o meu plano financeiro global é materialmente afetado?

O Liverpool que hoje joga em Anfield vale 12,5 vezes o que a FSG pagou em 2010. O Mônaco que entra em campo a seguir foi comprado por €1 e transformado num ativo de referência europeia. Mas por cada Liverpool e cada Mônaco, existem dezenas de clubes que fecharam, foram rebaixados ou viram os acionistas perder todo o capital. O entusiasmo desta tarde é legítimo — a decisão de investir exige um nível diferente de análise.

Se o amigável de hoje o inspirou a pensar no futebol como ativo patrimonial, o próximo passo é conversar com um especialista em gestão de patrimônio que conheça tanto os números como as regras do jogo.

Aviso: este artigo é de natureza informativa e não constitui aconselhamento financeiro ou de investimento. Para decisões concretas, consulte um profissional qualificado.

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