A morte de Lito Sousa, aos 59 anos, no dia 1 de outubro de 2026, comoveu os seus quase cinco milhões de seguidores no canal Aviões e Música. O influenciador e especialista em aviação tornou público, em julho, o diagnóstico de adenocarcinoma da próstata de agressividade intermédia — descoberto graças a um resultado de PSA (antigénio prostático específico) alterado durante um check-up de rotina. Semanas depois, a 21 de agosto, chegou um segundo diagnóstico devastador: doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara, progressiva e fatal, sem cura conhecida. A esposa de Lito, Mila Seidl, anunciou a morte nas redes sociais esta manhã.
Para milhares de homens portugueses entre os 50 e os 70 anos, a história de Lito Sousa levanta uma questão urgente: quando é que um resultado de PSA alterado deve levá-los a marcar, sem demora, uma consulta com um urologista?
Um PSA alterado e dois diagnósticos inesperados
Lito Sousa soube do seu PSA elevado durante uma consulta preventiva de rotina. A proteína PSA é produzida pela glândula prostática, e os seus níveis sobem em caso de inflamação, hiperplasia benigna ou cancro. O valor detetado em Lito levou os médicos a aprofundar a investigação — exames adicionais confirmaram adenocarcinoma da próstata de agressividade intermédia, uma forma tratável quando detetada nesta fase.
Em agosto, a progressão neurológica rápida que o influenciador passou a apresentar — dificuldades motoras e cognitivas intensas — surpreendeu os médicos. O diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob foi confirmado a 21 de agosto. Lito chegou a entrar numa lista de espera de um estudo da Universidade de Harvard sobre DCJ e recebeu autorização da ANVISA, autoridade sanitária brasileira, para usar o composto experimental ALN-6457 — tornando-se o primeiro doente no mundo a utilizar este medicamento, que até então tinha sido testado apenas em animais. Nada foi suficiente para travar a progressão da doença.
A coexistência de dois diagnósticos tão distintos — cancro da próstata e DCJ — foi extraordinariamente incomum. Não existe associação causal conhecida entre estas duas condições: a DCJ surge por acumulação de proteínas priônicas mal dobradas no tecido cerebral, de forma esporádica (85% dos casos) ou hereditária, sem qualquer ligação a patologias oncológicas.
O cancro da próstata em Portugal: o que os números revelam
O cancro da próstata é o cancro mais frequente nos homens portugueses e uma das principais causas de morte por doença oncológica masculina, de acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS, Relatório de Saúde 2025). A taxa de mortalidade reduziu significativamente nas últimas duas décadas, em grande parte graças ao diagnóstico precoce.
O PSA é a ferramenta central neste rastreio. Os protocolos europeus de urologia (EAU) recomendam a vigilância com PSA a partir dos 50 anos para homens de risco médio, e dos 45 anos para quem tem historial familiar ou predisposição genética. Um valor superior a 4 ng/mL é geralmente considerado alterado e requer avaliação adicional por um especialista.
O cancro da próstata localizado — detetado antes de se disseminar — tem uma taxa de sobrevivência a cinco anos superior a 90%. Quando é detetado já em fase metastizada, esse número cai para menos de 30%. A diferença entre estes dois cenários é, na maioria das vezes, o momento do diagnóstico.
Como detalha o artigo Cancro em Portugal 2026: 7 sinais de alerta que ninguém devia ignorar, o Orçamento do Estado prevê agora novas medidas de rastreio oncológico que podem facilitar o acesso à consulta de urologia pelo SNS.
A doença de Creutzfeldt-Jakob: rara, progressiva e sem tratamento
A DCJ é causada pela acumulação de priões — proteínas mal dobradas que destroem progressivamente o tecido cerebral. Com uma incidência global de apenas 1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano, é uma das doenças neurológicas mais raras do mundo. Em Portugal, são diagnosticados entre 10 a 20 novos casos por ano.
Os primeiros sintomas podem confundir-se com outras condições: alterações de memória, irritabilidade, dificuldades motoras subtis. A progressão é habitualmente rápida — a maioria dos doentes sobrevive entre 4 e 12 meses após o diagnóstico. Não existe cura nem tratamento estabelecido. A investigação está ainda numa fase muito inicial, como demonstra o caso extraordinário de Lito Sousa, que se tornou o primeiro ser humano a receber um composto experimental desenhado especificamente para bloquear a produção de priões.
Para os médicos, a mensagem é clara: perante deterioração cognitiva ou motora rápida e inexplicada num adulto, a hipótese de DCJ deve ser considerada precocemente, pois o diagnóstico diferencial é complexo e os exames necessários — ressonância magnética, análise de proteína 14-3-3 no líquido cefalorraquidiano, e o relativamente novo exame RT-QuIC — exigem centros especializados.
O que acontece quando o PSA dá alterado aos 56 anos
Imagine que tem 56 anos, se sente bem e o seu médico de família inclui um PSA nas análises anuais de rotina. O resultado chega: 6,2 ng/mL. O valor de referência para a sua faixa etária está entre 0 e 4 ng/mL. O médico diz que "há que vigiar" e marca nova análise daqui a seis meses.
O problema: segundo as guidelines da Associação Europeia de Urologia (EAU), um PSA de 6,2 ng/mL numa primeira medição justifica consulta com urologista em menos de 30 dias, e não uma espera passiva de seis meses.
O que acontece nessa consulta especializada?
- Rácio PSA livre/total: se superior a 25%, a probabilidade de cancro clinicamente significativo é menor; se inferior a 10%, o risco sobe substancialmente.
- Cinética do PSA: um aumento superior a 0,75 ng/mL por ano, mesmo dentro dos valores normais, é sinal de alerta independente.
- Ressonância magnética multiparamétrica (mpMRI): exame não invasivo com sensibilidade superior a 90% para cancros de alto grau; evita biópsias desnecessárias em lesões PI-RADS 1 e 2.
- Biópsia guiada por fusão: se a RM identificar lesões PI-RADS 4 ou 5, confirma o diagnóstico com menor taxa de falsos negativos do que a biópsia aleatória tradicional.
Se o PSA de 6,2 ng/mL for investigado imediatamente e o tumor for detetado no estadio T1c ou T2 — localizado, sem extensão para fora da cápsula —, a cirurgia robótica (prostatectomia radical) ou a radioterapia de precisão oferecem taxas de cura superiores a 90%. Se o mesmo homem aguardar os seis meses sugeridos e o tumor progredir para T3 (extensão extracapsular), as opções tornam-se mais limitadas e os efeitos secundários dos tratamentos, mais graves.
A história de Lito Sousa não foi um caso de negligência — o PSA dele foi detetado e seguido. Mas a rapidez com que a sua situação evoluiu, com dois diagnósticos em menos de dois meses, sublinha a importância de não deixar para amanhã o que pode ser resolvido hoje quando um exame mostra um valor fora do intervalo.
O que fazer agora
Se tem mais de 45 anos — ou 40 anos se tiver historial familiar de cancro da próstata — e ainda não fez um PSA este ano, estes são os próximos passos:
- Solicite o PSA na próxima consulta com o médico de família. É um exame simples, coberto pelo SNS, pedido numa análise de sangue de rotina.
- Se o resultado vier alterado (acima de 4 ng/mL, ou de 2,5 ng/mL se tiver menos de 50 anos), não espere a próxima consulta agendada de rotina — procure urologista nos 30 dias seguintes.
- Se a lista de espera do SNS for longa, considere uma consulta particular ou através de plataformas de telemedicina como o ExpertZoom, que permite aceder a especialistas em saúde masculina em menos de 48 horas.
Para mais informação sobre rastreio e vigilância oncológica em Portugal, o artigo Joe Biden e o cancro de próstata: o que os homens devem fazer agora detalha os critérios de rastreio recomendados pelos principais protocolos internacionais.
A partida de Lito Sousa é uma perda enorme para os seus seguidores e para a família que o acompanhou até ao fim com uma transparência rara. É também um lembrete — perturbador, mas necessário — de que a saúde masculina ainda é demasiadas vezes adiada, normalizada, e tratada com passividade. Um simples exame de sangue, seguido de ação rápida, pode ser a diferença entre um diagnóstico curável e um diagnóstico que chega tarde.
Nota de saúde: Este artigo contém informação geral e não substitui o diagnóstico médico individualizado. Perante sintomas ou resultados laboratoriais alterados, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.

Ricardo Rodrigues