Mais de 450 anúncios fraudulentos com a imagem de Lionel Messi circularam nas redes sociais nos últimos doze meses, transformando o jogador mais admirado do futebol na cara involuntária de uma vaga global de burlas de investimento. Em julho de 2026, com o Mundial ainda a dominar o feed dos portugueses, os vídeos falsos gerados por inteligência artificial continuam a prometer fortunas rápidas a quem clica.
O esquema é sempre parecido. Um vídeo mostra Messi, com voz e rosto clonados, a garantir que transformou 75 dólares em 2 000 dólares numa semana e a convidar os espectadores a entrar num grupo de Telegram ou WhatsApp. Nada daquilo é real: a imagem foi fabricada por software de deepfake, e o dinheiro depositado desaparece.
O que está a acontecer
Segundo dados de monitorização de fraude publicados pela plataforma Revelum, foram detetados pelo menos 456 anúncios fraudulentos com a imagem de Messi, dos quais 437 foram lançados antes de 11 de junho de 2026, data de arranque do Mundial. No total, mais de 10 000 anúncios com jogadores de futebol clonados por IA foram identificados no espaço de um ano.
Messi é, aliás, o caso mais extremo, mas está longe de ser único. Na mesma semana em que Portugal foi eliminado da competição, começou a circular um deepfake de Cristiano Ronaldo a promover uma falsa plataforma de criptomoedas, de acordo com o portal Crypto Times. O mecanismo repete-se: rosto conhecido, promessa de retorno garantido e pressão para agir depressa.
Os números confirmam a escala do problema. Um relatório citado pela Memeburn aponta para um aumento de 3 892% nos casos de fraude com deepfake em 2026 face ao período homólogo. A tecnologia que há dois anos exigia meios sofisticados está agora ao alcance de qualquer burlão com um computador.
Porque é que isto o afeta a si
Não é preciso ser adepto de futebol para ser alvo. Em Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) já emitiu vários alertas sobre esquemas de investimento fraudulentos difundidos em grupos de WhatsApp e Telegram, muitos deles usando o nome ou a imagem de personalidades públicas para ganhar credibilidade.
A associação de defesa do consumidor DECO PROteste contabilizou 98 reclamações de burla digital em menos de metade de 2026 — quase tantas como as 312 registadas desde 2024. Cada uma representa poupanças perdidas, por vezes na ordem das dezenas de milhares de euros.
O padrão que a CMVM pede para reconhecer é claro:
- Mensagens não solicitadas com perfis falsos que usam nomes de figuras públicas;
- Garantias de rentabilidades muito elevadas sem qualquer menção ao risco;
- Pressão para investir de imediato, antes que "a oportunidade acabe";
- Convites para sair da rede social e continuar a conversa num grupo privado.
Quando um destes sinais aparece associado a um vídeo de uma celebridade, a probabilidade de se tratar de uma burla é altíssima.
Como distinguir um deepfake de um vídeo real
A boa notícia é que os vídeos falsos ainda deixam pistas. Um especialista em informática recomenda observar os pormenores que a IA tem dificuldade em reproduzir: o sincronismo entre os lábios e o som, piscar de olhos pouco natural, contornos do rosto que tremem ou desfocam nas margens, e sombras que não coincidem com a iluminação da cena. A voz clonada tende a ter uma entoação demasiado uniforme, sem as hesitações de uma pessoa real.
Há ainda um teste simples: nenhuma figura pública credível anuncia esquemas de enriquecimento rápido em anúncios pagos nas redes sociais. Se Messi tivesse mesmo uma dica de investimento infalível, não a partilharia com desconhecidos num grupo de Telegram.
O que fazer se já investiu
Se transferiu dinheiro para uma destas plataformas, o tempo é decisivo. Um técnico de informática ou de cibersegurança pode ajudar a reunir provas — capturas de ecrã, moradas de carteiras de criptomoedas, comprovativos de transferência — antes que as contas fraudulentas sejam apagadas. Deve também alterar de imediato as palavras-passe e ativar a autenticação em dois passos em todas as contas financeiras, sobretudo se partilhou documentos de identificação.
Em paralelo, convém verificar sempre, no site da CMVM, se a entidade que oferece o investimento está autorizada a operar em Portugal, consultando as listas oficiais de intermediários financeiros: www.cmvm.pt. Qualquer plataforma que não conste dessas listas deve ser tratada como suspeita.
Um problema técnico que precisa de ajuda técnica
A defesa contra deepfakes deixou de ser uma questão de bom senso e passou a exigir literacia digital. Configurar corretamente a privacidade das contas, reconhecer domínios falsos, perceber como funcionam as carteiras de criptomoedas ou recuperar o acesso a uma conta comprometida são tarefas em que a orientação de um profissional faz a diferença entre travar um golpe e perder tudo.
Na Expert Zoom, é possível contactar especialistas em informática e cibersegurança que avaliam a segurança dos seus dispositivos, ajudam a identificar conteúdos manipulados por IA e apoiam quem já foi vítima de fraude online. Perante uma tecnologia que evolui todas as semanas, ter alguém que a domina do seu lado é a melhor prevenção.
Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento financeiro ou jurídico. Em caso de burla, apresente queixa às autoridades competentes e procure apoio profissional especializado.

João Santos