O futebol português vive dias de alta tensão. A última jornada da Primeira Liga acontece neste sábado, 16 de maio de 2026, com Casa Pia ainda em risco de descida. Na LigaPro — a segunda divisão — Portimonense está em 16.º lugar e enfrenta um play-off de manutenção contra o Belenenses (Liga 3), agendado para 23 e 29 de maio. Para os clubes em perigo, o que está em jogo vai muito além dos três pontos: o destino dos contratos dos jogadores pode ser radicalmente alterado pela subida ou descida.
O que é o play-off de descida da LigaPro?
A LigaPro (Liga Portugal 2) tem um sistema de manutenção/promoção que envolve play-offs no final da temporada. O 16.º classificado da LigaPro disputa dois jogos com o 3.º classificado da Liga 3: quem vencer fica (ou sobe) para a segunda divisão nacional. Perder o play-off significa uma descida que pode ter consequências financeiras devastadoras para o clube — e contratuais para os jogadores.
O mesmo raciocínio aplica-se ao jogo de manutenção da Primeira Liga: o 16.º classificado (potencialmente Casa Pia) defronta o 3.º da LigaPro (potencialmente Torreense). Uma descida da Primeira Liga para a LigaPro representa uma queda nos direitos de transmissão, nas receitas de bilheteira e nos orçamentos disponíveis para os salários.
O que acontece ao contrato de um jogador quando o clube desce?
Esta é a questão que mais afeta os futebolistas durante a época de play-offs. A resposta curta: a descida do clube, por si só, não rescinde o contrato. O jogador mantém o vínculo até ao final do contrato, e o clube mantém a obrigação de pagar o salário acordado.
No entanto, a prática é mais complexa. Muitos contratos de futebol incluem cláusulas específicas relacionadas com a divisão em que o clube compete:
Cláusula de descida salarial — Alguns contratos estipulam uma redução automática de salário em caso de descida de divisão. Esta cláusula é legal em Portugal, desde que negociada e constante no contrato assinado.
Cláusula de rescisão após descida — Outros contratos conferem ao jogador o direito de rescindir unilateralmente o contrato em caso de descida, geralmente com um prazo de aviso prévio de 15 a 30 dias após a confirmação da descida.
Sem cláusula específica — Se o contrato não prevê qualquer mecanismo para a descida, o jogador mantém os mesmos direitos e o clube mantém as mesmas obrigações. O clube não pode impor uma redução salarial unilateral sem o acordo do jogador.
O que diz a lei portuguesa sobre contratos desportivos?
O Regime Jurídico do Contrato de Trabalho do Praticante Desportivo (Lei n.º 54/2017) — que regula os contratos de futebolistas profissionais em Portugal — estabelece que qualquer alteração às condições do contrato de trabalho (incluindo salário) exige o acordo expresso e escrito do trabalhador. O clube não pode, unilateralmente, reduzir o salário de um jogador porque desceu de divisão.
A Federação Portuguesa de Futebol disponibiliza os regulamentos aplicáveis ao futebol profissional, incluindo as normas sobre transferências e contratos, em fpf.pt. É fundamental que os jogadores e os seus agentes conheçam estes regulamentos antes de assinar qualquer contrato.
O risco de insolvência: quando o clube não paga
A descida de divisão pode precipitar dificuldades financeiras graves. Se um clube desce para a Liga 3 e as receitas caem bruscamente, o risco de não pagamento de salários aumenta. Em Portugal, o incumprimento de três meses consecutivos de salário confere ao jogador o direito de rescindir o contrato com justa causa — sem necessidade de pagar qualquer indemnização ao clube.
Este é um dos cenários mais comuns em clubes de divisões inferiores: jogadores ficam meses sem receber, não sabem os seus direitos e perdem o emprego sem qualquer compensação. Um advogado especializado em direito desportivo pode acompanhar o jogador durante este processo, garantindo que a rescisão é feita dentro dos prazos legais e com direito ao subsídio de desemprego.
O que pode fazer um jogador em risco de ver o seu clube descido?
Se representa um clube em play-off de manutenção, há passos práticos a seguir:
- Ler o contrato — Verificar se existem cláusulas de descida salarial ou de rescisão automática
- Consultar um advogado desportivo — Antes de assinar qualquer acordo de redução salarial ou rescisão
- Registar salários em atraso — Em caso de incumprimento, guardar comprovativos de que os salários não foram pagos
- Comunicar à FPF — O mecanismo de resolução de disputas da Federação permite reclamar salários em atraso sem recurso imediato aos tribunais
O que aprende o adepto (e o trabalhador) com esta história
A LigaPro não é apenas futebol. É um mercado de trabalho onde centenas de jogadores dependem de contratos legalmente vinculativos — e onde as cláusulas que estão (ou não estão) no papel fazem toda a diferença no momento mais crítico da época.
A lição para qualquer trabalhador é simples: ler e perceber o contrato antes de assinar, e ter aconselhamento jurídico nas decisões importantes. Na plataforma Expert Zoom, pode consultar advogados especializados em direito laboral e desportivo que esclarecem os seus direitos, seja numa situação de descida de divisão, de incumprimento salarial ou de rescisão contratual.
A LigaPro decide nos próximos dias quem sobe e quem desce. Para os jogadores, o que fica por escrito no contrato vai decidir muito mais.
Nota: Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento jurídico. Para situações concretas, consulte um advogado especializado em direito desportivo.

Sofia Costa