Para os adeptos portugueses que ontem viram Portugal eliminar a Croácia com um dramático golo de penálti aos 90+4 minutos, o "jogo agora" voltou a ser a pesquisa do momento neste 4 de julho: quem joga hoje, qual o marcador, quando é o próximo confronto. Com Portugal a preparar o duelo dos oitavos de final frente à Espanha, a febre do Mundial 2026 está longe de abrandar — e o corpo dos adeptos sente isso em cada minuto de jogo.
Mas enquanto a seleção nacional se prepara para o maior desafio da competição, muitos adeptos ignoram o que a adrenalina de acompanhar um jogo ao vivo pode fazer ao seu coração. E o risco é real.
O que acontece ao coração quando há "jogo agora"
A fisiologia do stress emocional durante um jogo de futebol de alta tensão é bem documentada. Quando o árbitro apita o início de um Portugal vs Espanha, o organismo responde como se estivesse perante uma ameaça real: o sistema nervoso simpático ativa-se, a adrenalina e o cortisol são libertados em massa, a frequência cardíaca sobe 20 a 40 batimentos por minuto acima do basal, e a pressão arterial dispara.
Para adeptos saudáveis, este processo é temporário e inócuo. Para quem tem fatores de risco cardiovascular — muitas vezes sem saber — pode ser o gatilho de um evento grave. Investigação publicada na revista European Heart Journal mostrou que o risco de enfarte agudo do miocárdio duplica nas horas seguintes a um jogo de futebol emocionalmente intenso para pessoas com doença coronária subjacente.
Os grupos de maior risco
Não há adepto imune, mas há perfis de maior vulnerabilidade que devem conhecer os seus limites antes de se sentarem no sofá para um Portugal vs Espanha.
Hipertensos: A pressão arterial já elevada em repouso atinge picos mais perigosos durante jogos de tensão máxima. Um duelo ibérico com eliminação a peso como este é precisamente o tipo de partida que coloca estes doentes sob maior risco.
Diabéticos e pré-diabéticos: O stress hormonal altera o metabolismo da glicose e agrava a resistência à insulina, para além de sobrecarregar vasos sanguíneos já comprometidos pela doença.
Homens acima dos 45 anos e mulheres pós-menopausa: Este grupo representa a esmagadora maioria dos eventos cardiovasculares agudos associados a momentos de desporto emocional de alta intensidade.
Fumadores e ex-fumadores recentes: O tabagismo reduz a elasticidade vascular, amplificando o impacto dos picos de adrenalina e aumentando a tendência para a coagulação sanguínea.
Sedentários: A ausência de exercício físico regular significa que o coração está menos preparado para gerir variações bruscas de frequência cardíaca durante um jogo.
Sintomas que nunca devem ser ignorados
Saber distinguir a emoção do perigo pode salvar uma vida. Segundo o Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares do SNS, os sinais de alerta que exigem chamada imediata para o 112 são:
- Dor ou pressão no peito que irradia para o braço esquerdo, a mandíbula ou as costas
- Falta de ar desproporcional, mesmo em repouso ou sentado no sofá
- Palpitações irregulares ou aceleração cardíaca que não normaliza após o jogo
- Tonturas, suores frios ou desmaio súbito durante ou após a partida
- Formigueiro ou dormência no braço esquerdo, na mão ou na face
Estes sinais nunca devem ser atribuídos apenas à emoção do momento. O enfarte do miocárdio pode imitar exatamente esta sintomatologia. E os primeiros 90 minutos após o início dos sintomas — muito mais curtos do que qualquer jogo — são determinantes para a sobrevivência e para a qualidade de vida posterior.
O que fazer antes e durante o jogo
A boa notícia é que existem medidas simples que reduzem significativamente o risco cardiovascular durante os grandes jogos do Mundial:
Nas 2 horas antes do jogo: Evite cafeína em excesso (café, bebidas energéticas) e álcool — ambos amplificam a resposta simpática e sobem a pressão arterial. Não salte a refeição: a hipoglicemia agrava o stress cardiovascular.
Durante o jogo: Mantenha-se hidratado com água. Levante-se e movimente-se brevemente no intervalo — a imobilidade prolongada favorece a formação de coágulos venosos. Se sentir o coração "disparar", experimente respirar lentamente de forma abdominal durante 60 segundos antes de ligar para o 112.
Se toma medicação: Não interrompa nem altere a dose de anti-hipertensivos, anticoagulantes ou antidiabéticos orais sem indicação médica — mesmo que o jogo seja às 22h00 e prefira não se levantar para os tomar.
O jogo em família: atenção aos mais velhos
As partidas do Mundial são momentos de reunião familiar — e é precisamente nesses ambientes que vale a pena observar os familiares mais velhos. Um avô que parece "só cansado" após um empate nos penáltis pode estar a experienciar sintomas cardíacos atípicos.
Nos idosos, o enfarte apresenta-se frequentemente de forma silenciosa: fadiga súbita, náuseas ligeiras, ou apenas a sensação de que "algo não está bem". Não descarte estes sinais. Ligue para o 112 em caso de dúvida — é sempre preferível um falso alarme a uma emergência ignorada.
Tal como analisado no contexto do stress cardíaco em clássicos de alta tensão emocional, os eventos cardiovasculares associados a jogos de futebol são um fenómeno documentado globalmente — e Portugal, com um dos maiores índices de paixão pelo futebol da Europa, não é exceção.
Quando consultar um especialista de saúde
Se pertence a algum dos grupos de risco identificados, o momento ideal para falar com um médico não é durante o jogo — é agora, antes do Portugal vs Espanha. Um especialista de saúde pode avaliar a sua pressão arterial, ajustar medicação se necessário, e indicar os sinais específicos a que deve prestar atenção no seu caso individual.
Na ExpertZoom, encontra especialistas de saúde disponíveis para consulta online, sem listas de espera. Uma conversa preventiva de 20 minutos pode dar-lhe a segurança — e a tranquilidade — para desfrutar do jogo agora e de todos os que se seguirem.
Portugal joga para chegar longe. O seu coração também merece chegar ao fim do torneio em boa forma.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico individual. Em caso de sintomas de emergência, ligue imediatamente para o 112.

Ricardo Rodrigues