Afonso Eulálio entrou para a história do ciclismo português. No dia 13 de maio de 2026, o ciclista luso vestiu a Maglia Rosa do Giro d'Italia, tornando-se o terceiro português a liderar a mais antiga grande volta do ciclismo — depois de Acácio da Silva em 1989 e João Almeida em 2020. Com uma vantagem de 2 minutos e 24 segundos sobre Jonas Vingegaard na classificação geral, Eulálio entrou na décima etapa da corrida como o nome que toda a imprensa desportiva europeia fala. Mas o que poucos discutem é o que este momento histórico representa financeiramente — e o que o caso Eulálio ensina sobre a gestão de dinheiro no desporto profissional.
Uma Carreira de Ouro com Prazo de Validade
Os ciclistas profissionais de elite têm carreiras que raramente ultrapassam os 15 anos. Muitos atingem o pico aos 25-30 anos e retiram-se antes dos 40. É uma janela de rendimentos elevados — e depois? Para um atleta que nunca planeou o pós-carreira, essa transição pode ser devastadora.
Os ganhos de um ciclista de nível WorldTour — a elite máxima do ciclismo, onde compete Afonso Eulálio — são consideráveis. Para além do salário base (que pode atingir seis ou sete dígitos anuais nos contratos mais importantes), existem:
- Prémios de etapa e de classificação geral: A Maglia Rosa garante prémios diários; a vitória final do Giro vale dezenas de milares de euros ao vencedor.
- Contratos de patrocínio pessoal: A visibilidade de um ciclista que lidera um Grand Tour atrai marcas que querem associar a sua imagem.
- Direitos de imagem e presença nos media: Entrevistas, aparições, redes sociais — tudo tem valor comercial crescente.
O problema, como sabem os gestores de património desportivo, é que este fluxo de rendimentos é irregular, volátil e, acima de tudo, finito.
O Que Diz Um Gestor de Património Sobre As Finanças de Um Atleta
Os erros financeiros mais comuns entre atletas de alto nível são bem documentados: gastos excessivos durante os anos de pico, falta de diversificação de rendimentos, investimentos mal estruturados e planeamento fiscal insuficiente.
Em Portugal, os rendimentos de atletas profissionais estão sujeitos a IRS — com tabelas específicas para atividades desportivas. O Portal das Finanças disponibiliza as categorias aplicáveis a profissionais do desporto, incluindo as deduções permitidas e as obrigações declarativas para quem tem rendimentos estrangeiros (como os prémios de corridas realizadas noutros países).
Um gestor de património com experiência em desportistas recomenda, de forma geral, três pilares fundamentais:
1. Separar o rendimento de desempenho do rendimento passivo O salário da equipa é o rendimento de desempenho — depende da continuidade física. O objetivo é construir progressivamente um rendimento passivo (imóveis arrendados, fundos de investimento, poupança gerida) que sobreviva ao fim da carreira ativa.
2. Planear o pico fiscal com antecedência Os anos de maior rendimento são também os de maior carga fiscal. Utilizar corretamente as deduções, os planos de poupança-reforma (PPR) e as estruturas fiscais disponíveis pode fazer uma diferença significativa no rendimento líquido acumulado ao longo de uma carreira de 12 anos.
3. Proteger o capital com diversificação Investir tudo no imobiliário local, ou confiar exclusivamente num fundo gerido por um familiar próximo, são erros frequentes. A diversificação geográfica e por classe de ativo — com apoio de um profissional certificado — reduz a exposição a riscos concentrados.
A Lição Histórica: Campeões Sem Reforma
Há histórias conhecidas de atletas que, apesar de terem ganho fortunas durante a carreira, chegaram à reforma em dificuldades financeiras. O ciclismo não é exceção. Vencedores do Tour de France ou do Giro d'Italia dos anos 80 e 90 relataram publicamente dificuldades financeiras décadas depois da glória.
A diferença entre um atleta que constrói riqueza duradoura e um que gasta o que ganha está, em grande parte, no momento em que decide consultar um especialista. Quanto mais cedo, melhor — idealmente, antes de assinar o primeiro contrato profissional.
O Que Acontece Quando O Giro Acabar?
Para Afonso Eulálio, o imediato é o Giro. Mas a corrida dura até 31 de maio. Depois, a temporada continua. E com ela, novas possibilidades de contratos, patrocínios e rendimentos.
A visibilidade de ter vestido a Maglia Rosa e de ter sido, durante dias, o líder de uma das maiores corridas do mundo, vale muito mais do que o prémio financeiro imediato. Valerá nos próximos anos de carreira — mas só se for bem gerida.
Tal como aconteceu com João Almeida, outro ciclista português que liderou o Giro e enfrentou os desafios físicos de uma grande volta, o sucesso desportivo e o sucesso financeiro são duas corridas diferentes. A primeira exige talento e sacrifício físico; a segunda exige planeamento, disciplina e os parceiros certos.
O Que Pode Fazer Quem Vê Eulálio e Se Reconhece No Dilema
Não é preciso ser ciclista profissional para enfrentar este dilema. Qualquer profissional que tenha rendimentos variáveis — trabalhador independente, empresário, consultor, freelancer — enfrenta versões do mesmo desafio: rendimentos irregulares, incerteza sobre o futuro, e a necessidade de construir estabilidade financeira a longo prazo.
Consultar um gestor de património qualificado não é exclusivo dos atletas de elite. É uma decisão inteligente para qualquer pessoa que queira que os seus rendimentos de hoje se transformem em segurança amanhã.
A Maglia Rosa de Afonso Eulálio é o símbolo de um momento extraordinário no desporto português. Que também seja o ponto de partida para uma reflexão sobre como construir um futuro financeiro à altura do esforço.
Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento financeiro individualizado.

Beatriz Martins