Cada vez mais casas portuguesas têm um assistente de voz, um smartwatch, uma câmara de segurança inteligente ou uma televisão ligada à internet. Em 2026, o mercado de gadgets conectados atingiu novos máximos de vendas em Portugal — mas a maioria dos consumidores desconhece a extensão dos dados pessoais que estes dispositivos recolhem, processam e, muitas vezes, partilham com terceiros sem aviso claro.
O Que os Seus Gadgets Recolhem Todos os Dias
Os dispositivos de Internet das Coisas (IoT) — termo técnico para todos os aparelhos domésticos com ligação à internet — funcionam recolhendo continuamente dados sobre os seus utilizadores. Um smartwatch regista a frequência cardíaca, padrões de sono e rotinas de exercício. Uma câmara de segurança inteligente guarda imagens do interior da sua casa. Um assistente de voz armazena perguntas e comandos. Uma televisão inteligente monitoriza o que vê e durante quanto tempo.
O problema não é apenas a recolha em si — é o que acontece depois. Segundo a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), os dados recolhidos por dispositivos IoT podem ser utilizados para criar perfis detalhados sobre hábitos, preferências e até o estado de saúde dos utilizadores. Estes perfis têm valor comercial elevado para anunciantes e, nos piores casos, ficam expostos em violações de segurança.
Em 2026, o risco cresceu com a integração de inteligência artificial em dispositivos domésticos. Um frigorífico inteligente pode inferir padrões alimentares; uma balança conectada revela variações de peso ao longo do tempo; uma lâmpada inteligente sabe a que horas se acorda e se deita. A cada gadget adicionado à rede doméstica, aumenta o que os especialistas chamam de "superfície de ataque" — o número de pontos vulneráveis a intrusões externas. Segundo o Portugal IT Security Summit 2026, cerca de 40% dos dispositivos IoT domésticos ativos no país foram adquiridos sem cumprir os padrões mínimos de segurança agora exigidos pela União Europeia.
O Novo Regulamento Europeu que Muda as Regras para os Fabricantes
A partir de dezembro de 2024, entrou em fase de aplicação o Cyber Resilience Act (CRA) da União Europeia — o regulamento que obriga os fabricantes de dispositivos com componentes digitais a garantir normas mínimas de cibersegurança durante todo o ciclo de vida dos produtos. Em Portugal, a CNPD e o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) trabalham em conjunto para fiscalizar o cumprimento destas normas.
Na prática, o CRA significa que, em 2026, um fabricante de câmaras de segurança baratas que não inclua encriptação básica ou atualizações automáticas pode enfrentar coimas de até 15 milhões de euros ou 2,5% do seu volume de negócios mundial. Para o consumidor, isto representa uma mudança significativa: os gadgets vendidos na UE passam a ter requisitos mínimos de segurança obrigatórios, com período mínimo de suporte de cinco anos.
Mas há um detalhe importante: o CRA aplica-se a produtos colocados no mercado europeu após a sua entrada em vigor. Gadgets comprados antes, especialmente os importados de plataformas asiáticas por preços muito abaixo da média, continuam sem garantias equivalentes. Paralelamente, o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) já confere aos cidadãos portugueses direitos concretos: direito de acesso, de retificação, ao apagamento e de portabilidade dos seus dados. Mas exercer estes direitos em relação a um dispositivo IoT não é simples — e é aqui que um especialista em informática se torna essencial. Tal como explicado na análise sobre riscos de ciberataques em Portugal em 2026, o desconhecimento das obrigações legais é o maior fator de risco.
Quando o Smartwatch Partilha os Seus Dados: Um Cenário Real
Imagine que adquiriu um smartwatch de marca asiática por 89 euros numa plataforma de comércio eletrónico em janeiro de 2026. O dispositivo sincroniza frequência cardíaca, sono e localização GPS com uma aplicação no telemóvel. Ao instalar a aplicação, aceitou os termos de serviço — documentos de 47 páginas em inglês que incluíam, na cláusula 14.3, autorização para partilhar dados de saúde com "parceiros comerciais e afiliadas" da empresa.
Em março de 2026, essa empresa sofreu uma violação de dados: os registos de 2,3 milhões de utilizadores — frequência cardíaca, localização habitual e padrões de sono — foram expostos num fórum da dark web.
Se for residente em Portugal, a empresa tem a obrigação legal de o notificar diretamente no prazo de 72 horas após detetar a violação, desde que esta "resulte num elevado risco para os seus direitos e liberdades". Pode ainda apresentar queixa junto da CNPD. O custo estimado de uma violação de dados para um particular português — considerando tempo perdido, risco de roubo de identidade e impacto potencial em seguros de saúde — pode ultrapassar os 500 euros, segundo estimativas do CNCS para 2026.
E se a empresa estiver sediada fora da UE? O RGPD aplica-se na mesma. Qualquer empresa que processe dados de cidadãos europeus está sujeita ao regulamento, independentemente da sua localização. Contudo, o processo de reclamação torna-se mais complexo: é necessário identificar o representante europeu da empresa, determinar qual a autoridade de supervisão competente e formalizar a queixa no formato correto. Um especialista em informática e proteção de dados aumenta significativamente as hipóteses de obter uma resposta efetiva dentro dos prazos legais.
Como Avaliar os Riscos de Segurança dos Seus Dispositivos
Antes de ligar um novo gadget à rede doméstica ou empresarial, há cinco critérios que um especialista em informática avaliaria de imediato:
1. O fabricante fornece atualizações de segurança regulares? Gadgets sem suporte ativo são vulnerabilidades permanentes. O CRA exige um mínimo de cinco anos de atualizações para produtos colocados no mercado da UE.
2. O dispositivo usa encriptação de ponta a ponta? Dados transmitidos sem encriptação podem ser intercetados na rede local ou em ligações Wi-Fi públicas.
3. A política de privacidade especifica claramente que dados são recolhidos? Documentos vagos como "podemos recolher informações para melhorar a experiência" são um sinal de alerta. O RGPD exige transparência concreta sobre finalidade, duração e partilha de dados.
4. É possível desativar funções de recolha de dados não essenciais? Dispositivos que não permitem desativar microfones, câmaras ou telemetria representam um risco acrescido para a privacidade.
5. O dispositivo foi adquirido de um revendedor certificado? Gadgets comprados em plataformas não regulamentadas podem incluir firmware modificado com software malicioso pré-instalado.
Este tipo de auditoria de segurança IoT — que o tema da inteligência artificial e segurança de dados também aborda no contexto do iPhone e de outros dispositivos Apple — é exatamente o serviço que um especialista em informática certificado pode prestar, seja para uso doméstico ou para proteger a rede de uma pequena empresa.
O Que Fazer Hoje Para Reduzir o Risco
Se já tem gadgets conectados em casa ou no seu negócio, os passos imediatos são:
- Alterar todas as palavras-passe de fábrica. A maioria dos ataques a dispositivos IoT explora credenciais padrão como "admin/admin" ou "1234". Um dispositivo comprometido na sua rede pode ser usado para aceder a outros dados.
- Atualizar o firmware de todos os dispositivos para a versão mais recente disponível.
- Criar uma rede Wi-Fi separada para dispositivos IoT, isolando-os do computador pessoal e de dados sensíveis. Esta é a medida de segurança mais eficaz e mais ignorada pelos utilizadores domésticos.
- Rever as definições de privacidade de cada aplicação associada e revogar permissões desnecessárias.
Para empresas, a avaliação de risco IoT passou a ser uma obrigação no contexto do CRA e do RGPD. Uma empresa com 10 dispositivos IoT não auditados pode estar em incumprimento regulatório sem o saber — com coimas potenciais que, em 2026, aumentaram para empresas de todas as dimensões.
Aviso: As informações deste artigo têm carácter informativo e não constituem aconselhamento técnico ou jurídico. Para uma avaliação personalizada da segurança dos seus dispositivos ou da conformidade com o RGPD e o Cyber Resilience Act, consulte um especialista em informática ou proteção de dados certificado.

João Santos