Em setembro de 2026, Portugal voltou a ser palco de dois dos maiores exercícios militares da NATO: o Tiger Meet, um dos maiores exercícios aéreos da aliança, e o REPMUS, o maior exercício mundial de robótica marítima. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas portuguesas abriram centenas de vagas novas para recrutas e militares contratados. Com este crescimento, uma questão ganha urgência: o corpo humano aguenta os exigentes exercícios militares? E quando uma lesão acontece — durante um treino, um aprontamento ou uma manobra — quem cuida do militar e o que está em jogo para a sua carreira?
Portugal no centro dos exercícios militares da NATO em 2026
Portugal é hoje um dos membros da NATO com maior presença em exercícios multinacionais. Em 2026, para além do Tiger Meet e do REPMUS, o Exército Português participou em exercícios terrestres na Polónia e em missões de aprontamento no âmbito da Very High Readiness Joint Task Force (VJTF). Cada um destes exercícios implica semanas de treino físico intensivo: marchas com carga de até 25 kg, simulações de combate em terreno irregular, treino de resistência cardiovascular prolongado e exercícios de força em condições de stress extremo.
Para os candidatos a entrar nas Forças Armadas, o processo começa ainda antes do serviço ativo. Em julho de 2026, a Academia Militar realizou sessões de adaptação às provas de aptidão física entre os dias 8 e 10, seguidas das provas oficiais entre 20 e 31 de julho. Estas avaliações incluem corrida de resistência, flexões de braços, abdominais e provas de velocidade — e são apenas o primeiro degrau de uma exigência física que acompanha toda a carreira militar. O Exército Português realiza testes de aptidão física semestrais para todos os militares no ativo, o que significa que qualquer debilidade física acumulada pode ter consequências regulares e previsíveis na progressão profissional.
Os números que ninguém conta: lesões no treino físico militar
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Medicina do Esporte acompanhou 54 semanas de treino físico com efetivos militares e revelou um dado preocupante: 45,3% dos militares sofreram pelo menos uma lesão, totalizando uma média de 1,5 lesões por pessoa ao longo do período analisado. As mais comuns foram lesões musculares dos membros inferiores — joelhos, tornozelos e região lombar —, muito associadas a marchas forçadas com equipamento pesado e corridas em superfícies irregulares.
Estes números estão em linha com o que os especialistas de medicina desportiva observam na prática clínica: o treino militar é, por natureza, mais exigente e menos variado do que o treino desportivo convencional. Não há uma periodização cuidada para cada indivíduo, as cargas são muitas vezes impostas de forma coletiva sem consideração pelo estado físico de cada recruta, e a cultura institucional nem sempre favorece que os militares reportem lesões — por receio de serem vistos como menos capazes.
O resultado? Lesões que começam como dores passageiras tornam-se crónicas, e dores crónicas tornam-se causas de incapacidade. E quando a incapacidade é classificada como definitiva pelas Tabelas de Inaptidão e Incapacidade para a Prestação de Serviço Militar — o documento legal que rege a aptidão dos militares portugueses —, pode significar o fim da carreira militar antes do tempo.
O exame médico e o que ele realmente avalia
O processo de inspeção médica para ingresso nas Forças Armadas é mais exigente do que muitos candidatos esperam. Segundo o portal de recrutamento militar do Ministério da Defesa Nacional, os candidatos devem estar "livres de qualquer doença ou deficiência física suscetível de condicionar o exercício das funções específicas da especialidade", de acordo com as Tabelas de Inaptidão e Incapacidade.
Na prática, isto implica:
- Radiografia ao tórax para descartar patologias pulmonares ou cardíacas;
- Radiografia à coluna lombo-sagrada (L4-L5-S1), as vértebras mais vulneráveis em marchas com carga pesada;
- Avaliação psicológica para avaliar resistência ao stress operacional;
- Boletim de vacinas atualizado na plataforma E-VACINAS;
- Análises clínicas e avaliação oftalmológica adaptada à especialidade pretendida.
Há uma distinção crucial que muitos candidatos desconhecem: uma lesão detetada antes do ingresso — numa radiografia da coluna, por exemplo — pode levar à exclusão do processo. Mas uma lesão que ocorre durante o serviço ativo é tratada pelo sistema de saúde militar, com acesso ao Hospital das Forças Armadas e à Assistência na Doença aos Militares (ADM), desde que devidamente reportada e documentada. A linha entre as duas situações pode ser tênue — e é aqui que a orientação médica especializada faz toda a diferença, tanto para candidatos como para militares no ativo.
Caso concreto: Francisco, 23 anos, recruta com dores lombares após marcha forçada
Imagine o caso de Francisco, um jovem de 23 anos que ingressou no Exército Português em março de 2026 através de um contrato de serviço efetivo de dois anos. Nas primeiras semanas de formação, realiza marchas de treino com mochila de 20 kg ao longo de 15 km. Ao fim da quarta semana, começa a sentir dores persistentes na região lombar. Não reporta o problema ao superior imediato — receia ser excluído do pelotão ou prejudicado na avaliação de desempenho.
Dois meses depois, a dor já interfere com o sono e com as provas de aptidão física semestrais. Uma ressonância magnética revela uma hérnia discal incipiente entre L4 e L5 — exatamente a estrutura que a radiografia lombo-sagrada da inspeção médica de ingresso deveria ter sinalizado como zona de risco.
Se Francisco tivesse agido ao primeiro sinal de dor — na semana 4:
- Reportado a lesão dentro de 30 dias: teria acesso ao Hospital das Forças Armadas sem custo, com cobertura integral pela ADM, e a um protocolo de fisioterapia de 8 a 10 semanas.
- Com diagnóstico precoce de hérnia incipiente: tratamento conservador (fisioterapia + controlo de carga + anti-inflamatórios), sem perda definitiva de aptidão, retorno ao serviço normal em 10 a 12 semanas.
- Progressão na carreira mantida: os dois anos de contrato cumpridos sem interrupção, possibilidade de renovação e progressão para contrato de longa duração.
Por ter esperado até ao mês 5:
- Classificação de inapto temporário (categoria E3 das Tabelas de Inaptidão), com suspensão de atividade operacional por 6 meses mínimos.
- Risco real de não renovação do contrato se a aptidão não for recuperada dentro do prazo.
- Possível reclassificação como inapto definitivo (categoria E4/E5) se a hérnia evoluir para compressão radicular — o que significa o fim do serviço ativo e a perda dos benefícios de carreira acumulados.
A diferença entre agir na semana 4 e esperar até ao mês 5 pode ser a diferença entre uma carreira militar de 20 anos e uma incapacidade permanente. O tempo importa — e os números são claros.
O que fazer quando aparece uma lesão durante o serviço militar
A medicina militar tem protocolos claros para lesões em serviço — mas só funcionam quando ativados a tempo. Tanto para candidatos como para militares no ativo, há um conjunto de passos essenciais:
1. Não ignore os sinais precoces. Dores persistentes após treino que não passam em 48 a 72 horas não são "dores normais de esforço" — são alertas. Lombalgia após marcha, dor no joelho após corrida, dormência nos pés após dias consecutivos de exercício com bota: todos merecem avaliação médica, de preferência por um especialista de saúde com experiência em medicina desportiva ou medicina do trabalho.
2. Comunique ao médico da unidade. Cada unidade militar tem serviços de saúde integrados. Reportar uma lesão não é sinal de fraqueza — é o que preserva uma carreira. O silêncio, ao contrário, é o caminho mais rápido para a incapacidade crónica.
3. Guarde toda a documentação. Datas de ocorrência, relatórios médicos da unidade, registo das atividades de serviço onde a lesão ocorreu: tudo isto é fundamental se houver necessidade de requerer incapacidade temporária, aceder aos benefícios da ADM ou, em última instância, contestar uma classificação de inaptidão.
4. Prepare-se antes de entrar. Para candidatos, a recomendação é clara: antes das provas de aptidão física, consulte um médico de medicina desportiva ou fisiatra. Um exame preventivo pode identificar fragilidades musculoesqueléticas antes que o treino intensivo as transforme em lesões graves — exatamente como acontece no alto rendimento desportivo, onde a medicina preventiva é um investimento e não um custo. Veja, por exemplo, como os atletas dos Jogos do Mediterrâneo de Taranto 2026 abordaram a gestão de lesões em contexto de competição intensa.
5. Entenda as tabelas de inaptidão. As Tabelas de Inaptidão e Incapacidade são documentos complexos. Uma lesão classificada como E3 (inapto temporário) é muito diferente de E4 ou E5 (inapto definitivo). Compreender estas categorias — com apoio de um especialista de saúde familiarizado com medicina militar — é essencial para tomar decisões informadas e defender os seus direitos dentro do sistema.
O exercício militar em 2026 é mais exigente do que nunca: Portugal está no centro de operações NATO de grande escala e as Forças Armadas precisam de efetivos fisicamente preparados e resistentes. Mas preparação física inclui saber reconhecer e gerir os limites do próprio corpo. Se tem dúvidas sobre aptidão física para o serviço militar, sobre os seus direitos em caso de lesão, ou sobre o que esperar de uma inspeção médica militar, um especialista de saúde pode orientá-lo com precisão e sem risco para a sua carreira.
Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica profissional. As informações sobre aptidão física, lesões e procedimentos militares variam conforme a especialidade, o ramo das Forças Armadas e o caso individual. Para uma avaliação adequada ao seu perfil, consulte um especialista de saúde qualificado.

Ricardo Rodrigues