Manchester City e Atlético de Madrid defrontam-se esta tarde no Estádio Mundial de Seul, na Coreia do Sul, num amistoso de pré-época integrado na Coupang Play Series 2026. Haaland, Griezmann e as restantes estrelas das duas equipas pisam o relvado pela primeira vez de forma competitiva nesta temporada — mas é o que acontece nos bastidores destes jogos que interessa a qualquer pessoa que pratique futebol aos fins de semana em Portugal.
Os amistosos de pré-época são, para a medicina desportiva, uma das fases de maior risco do calendário futebolístico. Segundo dados publicados no British Journal of Sports Medicine, a incidência de lesões musculares em jogos de preparação é até 30% superior à registada durante a temporada regular, precisamente porque os atletas retomam cargas de esforço elevadas após semanas de menor atividade física.
A janela de vulnerabilidade que a maioria dos desportistas ignora
Agosto é o mês mais traiçoeiro para qualquer pessoa que regresse ao desporto após as férias de verão. Os especialistas em fisiologia do exercício chamam a este período a "janela de readaptação neuromuscular": após três a seis semanas de menor exigência física, o sistema nervoso periférico perde parte da sincronização com a musculatura, o que significa que gestos explosivos — o remate, a aceleração repentina, a mudança de direção — podem exceder a capacidade de resposta do tecido muscular.
É exatamente este fenómeno que explica a lesão de Wesley França, lateral-direito cortado da Seleção Brasileira para o Mundial 2026 após sofrer uma rotura muscular na coxa durante um amistoso de preparação. O caso foi amplamente noticiado em maio de 2026 como "azar" — mas para a medicina desportiva, enquadra-se num padrão previsível: atletas de alto nível com cargas de trabalho elevadas, pouco tempo de recuperação real e regresso abrupto à intensidade competitiva.
De acordo com o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), as lesões musculares representam cerca de 37% de todas as lesões desportivas registadas em Portugal por ano, com maior concentração nos meses de agosto e setembro — o período de retoma após férias. As estruturas mais afetadas são os músculos posteriores da coxa (isquiotibiais), os ligamentos do joelho e o tendão de Aquiles.
O que o Manchester City e o Atlético de Madrid fazem de diferente — e o que pode aprender com isso
Os dois clubes que se defrontam hoje em Seul adotam abordagens distintas na gestão do risco de lesão em pré-época. O Manchester City, sob orientação médica, impõe rotações rigorosas nos amistosos: raramente um jogador titular completa mais de 60 minutos nas primeiras semanas, e as sessões de treino alternnam entre alta intensidade e recuperação ativa. O objetivo é aumentar progressivamente a carga de trabalho, não atingir pico de forma em agosto.
O Atlético de Madrid de Diego Simeone prioriza, historicamente, a intensidade táctica mesmo nos amistosos — uma abordagem que maximiza a coesão coletiva mas que, segundo fisiologistas desportivos citados pelo jornal Marca em julho de 2026, eleva o risco individual de lesões musculares nas primeiras semanas. Não é acidente que o Atlético registe, em média, mais lesões nos primeiros 30 dias de época do que equipas com abordagens mais graduais.
O que ambos os clubes têm em comum — e que a grande maioria dos desportistas amadores portugueses não tem — é um departamento médico dedicado, com fisioterapeutas, médicos desportivos e analistas de carga de trabalho disponíveis em tempo real. Um só jogo de pré-época é monitorizado com dados de GPS, frequência cardíaca e variabilidade de desempenho. Para o futebolista amador, o equivalente é simples: saber reconhecer os sinais de alerta antes que uma dor passageira se transforme numa lesão de seis meses.
O caso de João: quando uma tarde de futebol custa meses de recuperação
Imagine o seguinte cenário, comum em centenas de campos de futebol de salão e de onze em Portugal neste mês de agosto. João tem 34 anos, joga na equipa do bairro e fez um mês e meio de pausa total durante o verão — praia, descanso, nenhum treino estruturado. No primeiro jogo de "pré-época" informal, com apenas dois treinos de 45 minutos como preparação, forçou uma aceleração explosiva no minuto 38 e sentiu um estalido seco na face posterior da coxa direita.
O que acontece a seguir depende de quanto tempo João espera para agir.
Se João aguardar e "tentar ver como corre" — a opção mais comum entre desportistas amadores —, arrisca regressar ao jogo com uma lesão de grau II parcialmente cicatrizada. Segundo o European Journal of Sport Science, esta decisão multiplica por 3,1 a probabilidade de recidiva no prazo de 12 meses. Uma lesão de grau II que evolui para rotura muscular completa exige cirurgia e um período de recuperação entre seis e doze meses.
Se João pedir avaliação médica nas primeiras 48 horas, o quadro muda radicalmente. Uma consulta de medicina desportiva em clínica privada em Portugal custa entre €60 e €120. Uma ecografia muscular diagnóstica ronda os €80 a €150. O custo total de uma avaliação precoce completa — consulta mais exame de imagem — situa-se entre €140 e €270. Este investimento permite classificar a lesão (grau I, II ou III) e definir um protocolo de recuperação adequado, reduzindo o tempo de afastamento de meses para semanas num cenário de grau I ou II ligeiro.
A diferença entre intervir a tempo e ignorar o sinal pode representar a distinção entre três semanas de repouso e oito meses de reabilitação.
Os sinais que justificam consulta imediata
Nem toda a dor muscular após o primeiro jogo da época exige avaliação de urgência. A dor muscular de início tardio — conhecida pelo acrónimo DOMS —, que aparece 24 a 48 horas após o esforço e desaparece naturalmente em três a cinco dias, é uma resposta fisiológica normal ao regresso à atividade. O problema surge quando a dor tem características diferentes.
Os sinais que indicam uma lesão que exige avaliação médica nas 48 horas seguintes são:
- Dor súbita e localizada durante o esforço, não gradual nem difusa
- Sensação de "estalido" ou "corte" num músculo durante um gesto explosivo
- Perda imediata de força ou dificuldade em apoiar o membro lesionado
- Inchaço visível nas primeiras horas após a ocorrência
- Dor que agrava ao toque direto no ventre muscular afetado
O protocolo correto nas primeiras 24 horas — enquanto aguarda avaliação — é o método PRICE: Proteção (parar imediatamente a atividade), Repouso, aplicação de Gelo durante 15 minutos a cada hora, Compressão com ligadura elástica e Elevação do membro. Este protocolo não substitui a avaliação médica, mas limita o agravamento da lesão nas horas críticas imediatamente a seguir ao incidente.
O que fazer antes do próximo jogo da época
Manchester City e Atlético de Madrid investem milhões de euros anuais na preparação física e na prevenção de lesões dos seus jogadores. O desportista amador português tem acesso a algo que, na prática, tem o mesmo efeito preventivo: uma consulta de medicina desportiva de início de época.
Uma avaliação preventiva com um médico desportivo antes do regresso à atividade competitiva inclui análise postural, testes funcionais de mobilidade e identificação de desequilíbrios musculares que elevam o risco de lesão. Em Portugal, esta avaliação custa entre €80 e €150 numa clínica privada — um valor que, comparado com o custo de uma lesão não tratada a tempo, representa uma das melhores relações custo-benefício em saúde desportiva.
Para saber mais sobre como proteger a sua saúde no regresso ao desporto esta época, pode consultar artigos relacionados como o que publicámos sobre lesões e contratos na Copa do Mundo 2026, que aborda as implicações médicas e legais das lesões em contexto futebolístico a nível profissional.
Na Expert Zoom, encontra médicos desportivos e fisioterapeutas disponíveis para consultas online e presenciais, com resposta em menos de 24 horas. Se voltou ao futebol — ou a qualquer outra modalidade — depois das férias de agosto, esta pode ser a decisão mais importante que toma esta semana.
Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada. Perante qualquer sintoma de lesão desportiva, consulte um profissional de saúde qualificado.

Ricardo Rodrigues