O Benfica recebe o Celtic esta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, no Estádio da Luz, em Lisboa, na segunda jornada da fase de liga da Liga Europa. O jogo está marcado para as 20h00, segundo a Sports Mole, e junta milhares de adeptos escoceses que voam para Portugal e regressam no dia seguinte.
O jogo que mexe com as viagens
Os dois clubes chegam em momentos diferentes. Segundo o Observador, o Benfica de Marco Silva venceu em Milão por 2-0 na primeira jornada e ainda não sofreu golos na competição. O Celtic, orientado por Martin O'Neill, perdeu em casa com o Ferencváros por 3-1, de acordo com a Sports Mole.
Para quem trabalha no turismo, na hotelaria ou em transportes, o dado relevante é outro: uma noite de futebol europeu concentra chegadas e partidas num intervalo curto. Os aeroportos de Lisboa e as ligações para o Reino Unido ficam mais sobrecarregados, e um atraso pequeno transforma-se depressa num problema grande.
Porque é que um atraso deixa de ser só um incómodo
Muitos adeptos acreditam que um voo atrasado dá direito a dinheiro de forma automática. Não é assim. O Regulamento (CE) n.º 261/2004 distingue o simples atraso à partida do atraso à chegada ao destino final, e só este último conta para a indemnização.
O Tribunal de Justiça da União Europeia clarificou, em jurisprudência de 2009, que os passageiros de voos atrasados em três horas ou mais à chegada podem ser tratados como os de voos cancelados. O que interessa, portanto, é a hora a que a porta do avião abre no destino, não a hora a que o avião levantou.
As regras aplicam-se a voos que partem de um aeroporto da União Europeia, como Lisboa, seja qual for a companhia. Aplicam-se também a voos que chegam à UE com uma transportadora europeia. Por isso, o adepto escocês que regressa a Glasgow a partir do aeroporto Humberto Delgado está protegido.
O que a lei prevê, sem rodeios
Há três direitos diferentes, e convém não os misturar.
- Assistência: refeições, bebidas e, se necessário, alojamento e transporte até ao hotel, conforme a duração da espera.
- Reembolso ou reencaminhamento: em caso de cancelamento, o passageiro escolhe entre o reembolso do bilhete e outro voo.
- Indemnização: 250 euros até 1500 km, 400 euros entre 1500 e 3500 km e 600 euros acima disso. A distância entre Lisboa e Glasgow situa-se, em linha reta, na faixa intermédia.
A indemnização não é devida quando a companhia prova circunstâncias extraordinárias que não podia evitar, como condições meteorológicas extremas ou uma greve do controlo de tráfego aéreo. Uma avaria técnica rotineira, em regra, não conta como circunstância extraordinária.
Um adepto, um voo, três horas e dez minutos
Imagine um adepto do Celtic que assiste ao jogo na Luz e tem voo marcado para Glasgow na sexta-feira, 16 de outubro, às 8h00. A chegada prevista é às 10h30, hora local. Por um problema de escala da tripulação, o avião só levanta às 11h00 e aterra às 13h40.
O atraso à chegada é de três horas e dez minutos. Como a distância ronda os 2000 km, está na faixa dos 400 euros. Se viajar com a mulher e um filho, cada passageiro com bilhete tem direito ao seu valor, ou seja, 1200 euros no total.
Agora a variante. Se o voo aterrasse às 13h20, o atraso seria de duas horas e cinquenta minutos. Nesse caso, a regra das três horas não se cumpre, e a indemnização de 400 euros não é devida, embora o adepto possa ter direito a refeições e bebidas durante a espera. Nesta faixa de distância, a assistência começa às três horas de atraso à partida, e não à chegada. Daí a importância de registar duas horas: a da partida real e a da aterragem.
A diferença de vinte minutos vale 400 euros por passageiro. É por isso que muitos pedidos falham por falta de prova, e não por falta de direito, e que um simples registo feito no momento pode decidir o resultado de uma reclamação meses mais tarde.
Se a companhia invocar circunstâncias extraordinárias, por exemplo uma greve de controladores aéreos no espaço aéreo francês, a conta muda. Nesse caso, o passageiro mantém os direitos de assistência, mas perde o direito ao pagamento. A prova cabe à companhia, e não ao passageiro.
O ângulo do jurista: o que fazer na prática
Um advogado especializado em direito do consumo e dos transportes recomenda quatro gestos simples, ainda no aeroporto:
- Guardar o cartão de embarque e a confirmação da reserva.
- Fotografar o painel de partidas e anotar a hora real de aterragem, que muitas aplicações de seguimento de voos registam.
- Pedir por escrito o motivo do atraso ao balcão da companhia.
- Conservar os talões de refeições e de transporte, se a companhia não os pagar.
Depois, o passageiro reclama diretamente à transportadora. Se a resposta demorar ou for negativa, pode recorrer à Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), que é o organismo nacional responsável pela aplicação do regulamento em Portugal. O prazo de prescrição para pedir a indemnização varia consoante o país onde se apresenta a ação, razão pela qual convém não deixar o assunto para meses depois.
Quem mais deve estar atento
O mesmo raciocínio vale para os adeptos portugueses que viajam para jogos europeus fora de casa e para quem tem bilhetes comprados para a Luz e vê a viagem falhar. Em artigos recentes, a Expert Zoom já explicou o que acontece com bilhetes e revenda no Sporting–Celtic e com um voo cancelado a caminho de um jogo do Porto em Sevilha.
Também as empresas locais devem preparar-se. Um hotel que aceita reservas de grupos de adeptos, ou uma agência que vende pacotes de viagem e jogo, assume obrigações próprias perante o cliente, e uma cláusula de cancelamento mal redigida pode custar caro.
Pacotes de viagem: outra proteção
Quando o adepto compra voo e hotel num único pacote, entra em jogo o regime das viagens organizadas. O organizador responde pela execução do pacote no seu conjunto. Se o voo falha e o hotel já está pago, o cliente pode exigir uma solução ao organizador, sem ter de negociar com cada fornecedor.
Convém ler as condições antes de pagar. Se o pacote incluir o bilhete para o jogo e o encontro for adiado ou jogado à porta fechada, o reembolso depende do que ficou escrito no contrato. Por isso, vale a pena guardar o email de confirmação com todas as cláusulas.
Quando falar com um jurista
Nem todos os casos se resolvem com uma carta-modelo. Faz sentido consultar um advogado quando a companhia recusa o pagamento sem explicação, quando o voo envolve várias transportadoras, ou quando o atraso provocou despesas adicionais, como um hotel pago do próprio bolso ou uma noite de trabalho perdida.
Na Expert Zoom pode encontrar juristas especializados em direito do consumo e dos transportes, que analisam o seu caso e indicam se compensa avançar. Uma primeira consulta ajuda a perceber, antes de gastar tempo, se o seu voo cumpre as três horas e se a companhia pode invocar uma circunstância extraordinária.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento jurídico individual. Os valores e prazos indicados dependem de cada situação concreta. O texto de referência é o Regulamento (CE) n.º 261/2004.

João Silva