Na tarde de 1 de outubro de 2026, o Estádio Mario Alberto Kempes, em Córdoba, assistiu a mais uma exibição dominante da Argentina. A seleção albiceleste goleou a Bolívia por 3-0 num jogo amistoso internacional, com golos de Lautaro Martínez (19'), Nico Paz (29') e Cristian Romero (54'). Nas casas, cafés e bares de Lisboa ao Porto, milhares de adeptos acompanharam o encontro. Muitos terão sentido exatamente o que os cardiologistas descrevem como "stress cardíaco induzido pelo futebol": coração acelerado, pressão no peito, uma adrenalina que nem sempre desaparece quando o apito final soa.
A Relação Entre Futebol e Saúde Cardiovascular
Não é uma coincidência que os hospitais registem aumentos de urgências cardíacas nos dias de grandes jogos de futebol. Estudos publicados no New England Journal of Medicine documentaram que o risco de enfarte agudo do miocárdio pode aumentar até três vezes durante a transmissão de jogos de alto impacto emocional — mesmo para quem está comodamente sentado em casa ou num café.
Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde alerta que situações de stress emocional intenso podem desencadear episódios cardíacos em pessoas com fatores de risco pré-existentes. E os jogos de futebol de alto perfil são, clinicamente, stressores emocionais intensos — independentemente de não envolverem esforço físico da parte do adepto.
A Argentina e a Bolívia não são rivais com a mesma carga emocional de um Portugal-Espanha ou de uma final europeia. Mas o mecanismo fisiológico é exatamente o mesmo: a emoção coletiva do futebol activa o sistema nervoso simpático, que liberta adrenalina e cortisol em quantidades significativas. Para a maioria das pessoas, tudo passa em minutos. Para outras — especialmente homens acima dos 45 anos, fumadores, diabéticos ou com hipertensão arterial —, o mesmo pico emocional pode ser o gatilho final de algo muito mais sério.
O Que Acontece no Seu Corpo Durante um Golo
Quando Lautaro Martínez marcou ao minuto 19' com assistência de Mac Allister, o que se passou no corpo de quem assistia foi quase tão intenso como para os próprios jogadores. Em termos fisiológicos, a resposta ao stress emocional agudo activa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que regula a libertação de hormonas de stress. Os efeitos são imediatos e mensuráveis:
- Frequência cardíaca: pode aumentar 20 a 40 batimentos por minuto num momento de golo
- Pressão arterial sistólica: regista subidas de 15 a 30 mmHg durante momentos de alta tensão
- Adrenalina no sangue: pode triplicar em segundos, mesmo estando completamente parado
Para um adulto saudável de 30 anos, estes picos são normais e passageiros. Para um homem de 58 anos com colesterol elevado e histórico familiar de doença cardíaca, o mesmo pico pode desencadear uma arritmia, um episódio de angina de peito ou, no pior cenário, um síndrome coronário agudo.
O problema central é este: a maioria dos adeptos não conhece os seus próprios fatores de risco cardiovascular. Segundo dados da Direção-Geral da Saúde, cerca de 40% dos portugueses adultos têm hipertensão arterial — e muitos não sabem que a têm. Entre os homens com mais de 50 anos, a prevalência de dislipidemia (colesterol elevado) ultrapassa os 55%. Estas são as pessoas que mais assistem a jogos de futebol em bares e em casa, e são simultaneamente as que correm maior risco cardiovascular durante episódios de euforia coletiva.
Quando a Euforia É Um Sinal de Alerta
As doenças cardiovasculares são frequentemente silenciosas. Um adepto pode assistir a dezenas de jogos sem qualquer problema e, depois, num momento de stress emocional intenso — um penálti decisivo, uma expulsão polética, um golo no último minuto — o coração simplesmente não aguenta. Não por causa do futebol em si, mas porque o jogo foi o gatilho final para uma doença que já estava presente.
Em casos documentados de emergências cardíacas relacionadas com eventos desportivos, os médicos identificaram um padrão consistente: as vítimas tinham fatores de risco conhecidos (ou desconhecidos) que nunca tinham sido avaliados adequadamente. A prevenção não é deixar de ver futebol. A prevenção é saber exactamente o que o seu coração pode aguentar antes de sentar no sofá.
Os sinais de alarme durante ou após um jogo que nunca devem ser ignorados:
- Dor, pressão ou aperto no peito
- Falta de ar súbita sem esforço físico
- Palpitações irregulares ou muito rápidas
- Tontura, sensação de desmaio ou confusão
- Suores frios sem explicação aparente
- Dor irradiada para o braço esquerdo, pescoço ou mandíbula
Se sentir qualquer um destes sintomas, ligue imediatamente para o 112. Não espere para ver se passa com o segundo tempo.
O Manuel, os 54 Anos e o Golo do 3-0
Manuel, 54 anos, técnico de construção civil em Setúbal, acompanha o futebol sul-americano desde os anos 90. No dia 1 de outubro de 2026, estava num café com amigos quando Cristian Romero fez o 3-0 ao minuto 54'. Levantou-se, gritou, levou a mão ao peito — e sentiu uma pressão estranha que durou cerca de dois minutos.
"Pensei que era emoção. Mas ficou um desconforto no ombro esquerdo e senti-me cansado de forma estranha", contou mais tarde ao médico de família.
O que Manuel não sabia: tinha hipertensão arterial não diagnosticada (pressão sistólica de 158 mmHg medida no dia seguinte), colesterol LDL de 162 mg/dL, e um índice de massa corporal de 27,8. O episódio durante o jogo foi, muito provavelmente, uma angina de esforço emocional — dor torácica causada pela redução temporária do fluxo sanguíneo para o coração durante picos de adrenalina intensa.
A aritmética do risco é direta: com uma pressão sistólica basal de 158 mmHg, se durante o golo a pressão subiu mais 25 mmHg — o que é fisiologicamente esperado —, a pressão máxima no momento da euforia teria atingido cerca de 183 mmHg. Em pessoas com artérias já comprometidas por colesterol elevado, este nível de pressão representa risco imediato de acidente vascular cerebral hemorrágico ou de rotura de placa coronária e enfarte.
Se Manuel tivesse feito uma avaliação cardiovascular preventiva nos seis meses anteriores, o médico teria detectado a hipertensão e iniciado tratamento. Com a pressão controlada abaixo de 130/80 mmHg — que é o objetivo terapêutico actual segundo as guidelines europeias —, o golo do 3-0 seria apenas um momento de alegria, não um potencial aviso cardíaco.
O caso de Manuel não é invulgar. Uma percentagem significativa das urgências cardíacas em homens de meia-idade ocorre durante ou imediatamente após eventos de alta carga emocional, incluindo jogos de futebol transmitidos pela televisão. A diferença entre um susto e uma tragédia é, frequentemente, ter feito uma avaliação preventiva a tempo.
O Que Deve Fazer Antes do Próximo Grande Jogo
A boa notícia é que a maioria dos riscos pode ser avaliada, monitorizada e controlada com uma simples consulta médica preventiva. Um médico clínico geral ou cardiologista pode, em menos de 30 minutos, determinar o seu perfil de risco cardiovascular através de:
- Medição da pressão arterial: valores normais abaixo de 120/80 mmHg; hipertensão grau 1 começa nos 130/80 mmHg
- Análise ao sangue: colesterol total, LDL, HDL, triglicéridos e glicemia em jejum
- Eletrocardiograma (ECG) em repouso: identifica arritmias silenciosas, como fibrilação auricular
- Avaliação do índice SCORE2: estima o risco de evento cardiovascular fatal ou não fatal nos próximos 10 anos
- Avaliação de hábitos: tabagismo, sedentarismo, consumo de álcool e IMC
Se for um adepto com mais de 45 anos, fumador, diabético, com excesso de peso ou com histórico familiar de doença cardíaca, a recomendação é clara: faça uma avaliação cardiovascular antes do próximo grande torneio. Não se trata de deixar de ver futebol — trata-se de saber que o seu coração pode aguentar a emoção.
Para quem prefere uma primeira avaliação rápida e acessível, a plataforma Expert Zoom conta com especialistas de saúde disponíveis para consulta online, o que permite obter orientação médica personalizada sem sair de casa — ideal para perceber se precisa de aprofundar a investigação com o médico de família ou um cardiologista.
Ver futebol é uma das grandes paixões culturais dos portugueses. Com os cuidados certos, pode continuar a sê-lo por muitos anos.
Nota: Este artigo tem carácter informativo e não substitui a consulta médica. Se sentir dor no peito ou outros sintomas cardíacos agudos, ligue imediatamente para o 112.
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Ricardo Rodrigues