Anatoliy Trubin completou 25 anos a 1 de agosto de 2026 e entra na reta final da janela de transferências de verão com um preço estampado nas costas: pelo menos €40 milhões, valor definido pela SAD encarnada para considerar qualquer proposta. O que a discussão pública raramente revela é que, mesmo que chegue uma oferta nesse montante, o Benfica não fica com a totalidade da verba. O Shakhtar Donetsk — clube que formou e vendeu o guarda-redes ucraniano em 2023 — retém 40% da mais-valia gerada na operação. Os números por detrás deste caso revelam uma realidade financeira que ultrapassa largamente o desporto.
Quando um guarda-redes vale mais do que uma PME portuguesa
O mercado de transferências de verão de 2026 voltou a bater recordes de valorização para determinados perfis de jogadores. Trubin enquadra-se nessa categoria de elite: após uma época em que o Benfica chegou aos quartos de final da Liga dos Campeões, o guardião ucraniano consolidou a sua reputação como um dos melhores da posição no continente. A sua atuação frente ao Real Madrid, em fevereiro de 2026 — com uma defesa decisiva que manteve a equipa em competição —, foi amplamente destacada pela imprensa europeia.
Segundo fontes próximas da SAD do Benfica citadas pela imprensa portuguesa no final de julho de 2026, o valor mínimo para qualquer negociação é de €40 milhões. Trata-se de uma cifra que, colocada em perspetiva, supera a capitalização de bolsa de muitas empresas cotadas na Euronext Lisboa. A Premier League inglesa — o destino declarado do próprio Trubin — tem capacidade para absorver esse montante com facilidade. Nomes como Manchester United, Arsenal e Chelsea foram associados ao jogador ao longo do verão.
Mas há uma condição que transforma esta negociação num caso de estudo financeiro pouco comum: a cláusula que o Shakhtar nunca abandonou.
A cláusula de mais-valias que acompanha o jogador desde Kiev
Quando o Benfica formalizou a contratação de Trubin em 2023, o valor base acordado foi de €10 milhões, com um adicional de €1 milhão em objetivos desportivos. Na negociação, o Shakhtar Donetsk impôs uma condição: o clube ucraniano mantém o direito a 40% da mais-valia gerada em qualquer futura transferência do jogador.
A matemática é direta, mas as implicações são profundas. Partindo de uma venda hipotética por €40 milhões:
- Custo de aquisição original pelo Benfica: €11 milhões
- Mais-valia gerada: €40M − €11M = €29 milhões
- Parte do Shakhtar (40% da mais-valia): €11,6 milhões
- Valor líquido real para o Benfica: €28,4 milhões
O Benfica recebe, portanto, significativamente menos do que o valor anunciado. Qualquer proposta de €40 milhões vale, na prática, €28,4 milhões líquidos para o clube português. Este cálculo é determinante na avaliação interna de qualquer oferta — e explica por que razão a SAD pode exigir um valor de transferência superior ao que seria esperado com base no mercado.
Este tipo de instrumento, denominado sell-on clause ou cláusula de participação em mais-valias futuras, é uma prática habitual em transferências internacionais de futebol quando o clube vendedor acredita estar a ceder um ativo abaixo do seu potencial. O mecanismo aparece também em outros contextos: acordos entre sócios fundadores e investidores de capital de risco, contratos de private equity e, com crescente frequência, em operações de venda de startups em Portugal. Para uma análise comparativa sobre como estas cláusulas funcionam no contexto das transferências do Benfica, consulte o caso António Silva e a cláusula com a Juventus.
Os dados financeiros que ninguém faz as contas
A conversa pública centra-se no preço do jogador. Mas o que acontece, financeiramente, ao próprio Trubin no momento de uma transferência?
Num clube de nível Champions League, um guarda-redes titular aufere tipicamente entre €1,5 e €3 milhões brutos anuais em salário base. Em Portugal, os rendimentos de trabalho dependente auferidos por não residentes ficam sujeitos a uma taxa de IRS de 25%, ou podem ser enquadrados no Regime de Residentes Não Habituais (RNH), que pode reduzir substancialmente a carga fiscal nos primeiros anos de residência. Se a transferência for para o Reino Unido, as luvas de assinatura (signing-on fees) — que nos grandes contratos da Premier League podem ascender a vários milhões — são tributadas entre 45% e 50% sobre o montante bruto.
Aos 25 anos, Trubin tem pela frente uma janela de rendimentos de alta intensidade de aproximadamente 10 a 12 anos, antes de a carreira de elite começar a declinar. É nesta janela que as decisões de gestão financeira têm maior impacto a longo prazo — para o bem ou para o mal.
O que muda para um empresário português que recebe €500 000 de uma só vez
A situação de Trubin é um caso extremo pelo volume envolvido. Mas a lógica financeira subjacente — receber uma soma elevada num único momento e decidir o que fazer com ela — aplica-se a qualquer pessoa que venda uma empresa, receba uma herança, liquide um imóvel ou encaixe uma indemnização.
Considere o seguinte cenário em agosto de 2026: um empresário português vende a sua participação numa empresa por €500 000, após vários anos a construir o negócio.
Sem aconselhamento especializado em gestão de patrimônio:
- Mais-valias sujeitas a IRS à taxa autónoma de 28% nos termos do Portal das Finanças: €140 000 em impostos
- Capital líquido disponível para investir: €360 000
- Aplicado num depósito a prazo a 3% bruto (taxa média em Portugal no verão de 2026): €10 800 por ano de rendimento
- Ao fim de 10 anos, o capital cresce para aproximadamente €483 000 — um ganho de €123 000 em termos nominais, mas abaixo da inflação acumulada projetada
Com um gestor de patrimônio certificado:
- Estruturação fiscal antes da venda: reinvestimento em PPR, otimização de perdas fiscais reportadas, isenções legais para determinados ativos — poupança fiscal potencial de €20 000 a €40 000
- Capital efetivo para investir: €380 000 a €400 000
- Alocação diversificada (obrigações do Estado português e europeu, ETFs globais, imobiliário indireto, private credit): rendimento esperado de 5,5% a 7% ao ano
- Ao fim de 10 anos: capital estimado entre €652 000 e €793 000
A diferença entre os dois cenários, ao final de uma década, pode atingir €170 000 a €310 000 — um valor que, em muitos casos, supera o próprio ganho inicial da venda. Este cálculo não inclui o impacto da inflação, que corrói silenciosamente o poder de compra de quem mantém capital em produtos de baixo rendimento por omissão ou inércia.
Nota: As estimativas de rendimento apresentadas baseiam-se em projeções históricas e não constituem garantia de retorno futuro. Qualquer decisão de investimento deve ser precedida de consulta a um profissional certificado e devidamente regulamentado.
O que fazer quando uma soma elevada chega de uma só vez
Seja num contrato de futebol ou na venda de um negócio familiar, os erros mais comuns na gestão de uma entrada súbita de capital são três:
Agir sem planear. O impulso natural é colocar o dinheiro em segurança num depósito bancário enquanto se "pensa no assunto." Meses depois, o capital ainda está no mesmo sítio — e a janela fiscal para otimização entretanto fechou.
Ignorar as implicações fiscais antes de agir. Em Portugal, a forma como uma mais-valia é declarada — e o momento em que é declarada — pode fazer uma diferença de dezenas de milhares de euros. A consulta a um especialista antes da concretização da venda, e não depois, é determinante.
Concentrar tudo numa única classe de ativo. A diversificação não é uma preferência estética: é a única estratégia comprovada de reduzir risco sem sacrificar rentabilidade a longo prazo. Quem investe tudo em imóveis, ou tudo em ações, ou tudo em depósitos, está a assumir um risco que nem sempre compreende totalmente.
Um consultor de gestão de patrimônio trabalha precisamente nestas três frentes: analisa o perfil de risco do cliente, estrutura a alocação de ativos em função dos objetivos de longo prazo e acompanha a evolução ao longo do tempo. Para situações complexas — como a de um atleta profissional com rendimentos concentrados numa janela estreita de anos —, este acompanhamento pode determinar se os anos de poupança garantem uma reforma confortável ou uma dependência contínua de rendimentos futuros que nunca chegam a ser suficientes.
Se está a planear a venda de um ativo, a receção de uma herança ou simplesmente a reorganização do seu patrimônio, os especialistas em Gestão de Património disponíveis no Expert Zoom podem ajudá-lo a tomar as decisões certas — antes que o tempo fiscal passe.

Beatriz Martins