Cristiano Ronaldo vai completar 42 anos em fevereiro de 2027 e ainda joga na primeira divisão saudita com o Al-Nassr FC. Em outubro de 2026, o internacional português marcou três golos nas primeiras sete jornadas da época na Liga Profissional Saudita e disputa a AFC Champions League Elite com o clube de Riade pela primeira vez na competição reformulada. O fenómeno não é apenas desportivo: é uma janela para a ciência da longevidade atlética que interessa a qualquer pessoa acima dos 40 anos que pratique futebol ou desporto regular em Portugal.
Nota informativa: Este artigo tem fins jornalísticos e educativos. As informações médicas aqui contidas não substituem o aconselhamento de um profissional de saúde. Consulte sempre um médico especialista antes de alterar o seu regime de treino ou em caso de sintomas físicos durante o exercício.
O Al-Nassr e a Nova Temporada de Ronaldo
O Al-Nassr garantiu o título da Liga Profissional Saudita na época 2025-26 — o primeiro campeonato da era Ronaldo no clube — e voltou à AFC Champions League Elite para 2026-27, onde enfrenta adversários dos Emirados Árabes Unidos como o Al Ain e o Shabab Al Ahli. Ronaldo, contratado pelo clube em janeiro de 2023 com um salário estimado em 200 milhões de euros anuais segundo relatos de vários meios especializados, tem vínculo válido até ao final desta época.
Segundo o Gulf News, a 2026-27 deverá ser a última época de Ronaldo como jogador profissional. A afirmação, feita no contexto de uma carreira com mais de 900 golos em competições oficiais, gerou reações em todo o mundo — incluindo em Portugal, onde o seu nome domina as tendências de pesquisa cada vez que há novidades sobre o Al-Nassr.
O que raramente se debate publicamente, porém, é o que o caso Ronaldo revela sobre a biologia do desporto depois dos 40 anos. E o que a medicina desportiva aconselha para os milhões de atletas amadores portugueses que, sem equipa médica de elite, continuam a jogar futebol, a correr maratonas ou a praticar desportos de contacto bem além dos quarenta.
O Que a Medicina Desportiva Diz Sobre Jogar Depois dos 40
A partir dos 40 anos, o corpo atravessa transformações fisiológicas que afetam qualquer praticante desportivo, independentemente do nível de performance. A capacidade aeróbica máxima (VO2 máx) diminui cerca de 1% por ano a partir dos 30 anos, segundo dados publicados em estudos de fisiologia do exercício. A força muscular começa a declinar a partir dos 35 anos, com aceleração notória após os 50. A recuperação entre treinos prolonga-se, e o risco de lesão músculo-esquelética é significativamente mais elevado do que na segunda ou terceira décadas de vida.
Segundo as recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia para atletas masters — definidos como praticantes acima dos 35 anos que compitam em eventos organizados —, o risco de eventos cardíacos adversos durante o exercício aumenta com a idade, mesmo em pessoas sem historial cardíaco conhecido. A maioria dos episódios cardíacos graves durante o desporto ocorre em homens entre os 35 e os 65 anos, e em muitos casos não existem sintomas prévios identificados.
Ronaldo é uma exceção extrema: monitorizações em tempo real, equipa de fisiologistas, nutricionistas e médicos desportivos dedicados, e condições laboratoriais de recuperação que não existem na liga amadora de fim de semana. O jogador que treina às terças e quintas numa equipa de veteranos em Leiria ou em Braga não tem acesso a nada disso. É precisamente por isso que a consulta com um especialista em medicina desportiva tem um papel diferente — e muitas vezes decisivo.
A boa notícia é que a ciência também confirma os benefícios. De acordo com a Direção-Geral da Saúde, os adultos que praticam atividade física regular têm risco cardiovascular, metabólico e oncológico significativamente mais baixo do que os sedentários. O problema não é o desporto depois dos 40. O problema é praticá-lo sem avaliação médica atualizada.
Os 3 Exames que os Especialistas Recomendam
A medicina desportiva identifica três avaliações prioritárias para qualquer pessoa que pratique desporto com intensidade moderada a alta após os 40 anos:
1. Prova de esforço cardiorrespiratória (ergometria) Mede a resposta do coração ao esforço progressivo até ao máximo tolerável. Permite detetar arritmias, alterações da tensão arterial ao esforço e isquemia silenciosa — condições que não dão sintomas em repouso mas que podem tornar-se perigosas durante uma corrida intensa ou um jogo de futebol. Em Portugal, este exame pode ser realizado no SNS mediante referenciação pelo médico de família, ou em clínicas privadas com custo entre 80 e 150 euros.
2. Ecocardiograma Uma ecografia cardíaca em repouso que avalia a estrutura e função das câmaras. Os atletas masters que treinam há décadas podem desenvolver hipertrofia benigna do ventrículo esquerdo — uma adaptação normal ao exercício —, mas em alguns casos essa hipertrofia pode mascarar miocardiopatias detetáveis apenas com imagem. O exame demora entre 20 e 30 minutos e custa entre 80 e 150 euros em regime privado.
3. Avaliação músculo-esquelética Joelhos, tornozelos, anca e coluna lombar são as estruturas de maior desgaste no futebol e em desportos de impacto. Uma ecografia músculo-esquelética ou ressonância magnética às articulações mais solicitadas permite mapear o estado atual do tecido e ajustar o volume de treino antes de uma lesão acontecer — e não depois. No futebol amador de veteranos, as lesões do ligamento cruzado anterior e as roturas meniscais são as causas mais frequentes de afastamento prolongado, e a maioria seria evitável com deteção precoce.
Os três exames realizados em conjunto por um médico especialista demoram geralmente entre duas e quatro semanas a completar. O custo total em regime privado situa-se entre 200 e 450 euros, consoante a região e a cobertura do seguro de saúde.
O Caso de André: Futebol Amador aos 43 Anos em Setúbal
André tem 43 anos, trabalha como engenheiro civil em Setúbal e joga futebol amador todos os sábados numa liga de veteranos. Nunca teve problemas cardíacos conhecidos. A última consulta médica foi há dois anos, uma análise de rotina que saiu dentro da normalidade. Em setembro de 2026, começou a sentir falta de ar ligeira e um desconforto no peito durante os jogos — episódios passageiros, que ignorou durante três semanas seguidas.
Se André tivesse feito uma avaliação médica desportiva em 2024 — antes dos sintomas —, o cenário seria este: a prova de esforço teria detetado uma alteração precoce do ritmo cardíaco ao esforço que ele nunca soube ter. O médico desportivo teria ajustado a sua carga de treino — por exemplo, limitar os sprints máximos a três por jogo e reduzir o volume semanal de 90 para 60 minutos por sessão —, e possivelmente prescrito uma monitorização preventiva mensal. André continuaria a jogar, com o coração avaliado e os riscos controlados. Custo total: aproximadamente 280 euros em exames.
Se André continuar a ignorar os sintomas e o episódio se intensificar durante um jogo, o cenário muda radicalmente. Diagnóstico em urgência hospitalar: fibrilhação atrial paroxística com episódios repetidos. Afastamento obrigatório do desporto entre 6 a 12 meses, cardioversão farmacológica, monitorização holter contínua e reavaliação cardiológica completa. Custo estimado em regime privado: entre 2.500 e 4.000 euros, sem contar com os dias de trabalho perdidos nem o impacto na qualidade de vida durante o período de afastamento.
A diferença entre os dois cenários não é sorte nem genética. É o momento em que se pede ajuda a um especialista.
Quando a Consulta Se Torna Urgente
Há sinais que não devem ser ignorados por nenhum praticante desportivo acima dos 40 anos, independentemente da aparente boa forma física:
- Falta de ar desproporcional ao esforço habitual
- Dor, pressão ou aperto no peito durante ou após o exercício
- Palpitações irregulares durante ou após o treino
- Tonturas ou pré-síncope em esforço
- Dor articular persistente que não cede com dois dias de repouso
Qualquer um destes sinais justifica uma consulta médica antes do próximo treino — não depois.
Segundo as orientações publicadas pela Direção-Geral da Saúde, a atividade física regular é um dos fatores protetores mais eficazes para a saúde cardiovascular e metabólica dos adultos. O objetivo não é abandonar o desporto. É praticá-lo com base numa avaliação atualizada e personalizada.
O Que Fazer Depois de Ver as Notícias do Al-Nassr
A longevidade atlética de Ronaldo no Al-Nassr em 2026 é inspiradora — mas é também o resultado de um sistema de suporte médico que a maioria dos atletas amadores nunca terá acesso. A diferença entre jogar futebol saudável aos 43 anos e sofrer uma complicação cardíaca grave durante um jogo de veteranos raramente está nos genes. Está no acompanhamento preventivo.
Se tem mais de 40 anos e pratica futebol amador, corrida, ciclismo, padel ou qualquer desporto de intensidade moderada a alta — com ou sem sintomas —, uma avaliação médica desportiva completa é o investimento mais inteligente que pode fazer pela sua longevidade desportiva. Não espere pelos sintomas para agir.
Na plataforma Expert Zoom, pode encontrar médicos especialistas em medicina desportiva e cardiologistas disponíveis para uma primeira consulta. Uma avaliação preventiva de 30 minutos pode evitar meses de recuperação — e muito mais do que 280 euros em consequências.

Ricardo Rodrigues