Dois irmãos franceses de 3 e 5 anos foram abandonados pela mãe e pelo padrasto numa estrada nacional em Alcácer do Sal, no dia 19 de maio de 2026. O casal suspeito foi detido pela GNR a 23 de maio de 2026, em Fátima, desencadeando um debate urgente sobre os direitos das crianças e a proteção legal dos menores em Portugal.
O caso que parou Portugal
O relato do mais velho chocou o país: "Taparam-me os olhos e disseram para procurar um brinquedo. Quando voltei, o carro da minha mãe tinha ido embora." Um automobilista que passava encontrou as duas crianças a chorar junto a uma estrada nacional próxima de Monte Novo do Sul e alertou as autoridades.
Marine R. (41 anos), mãe das crianças, apresenta-se publicamente como sexóloga e terapeuta emocional em Troyes, França. Marc B. (55 anos), o companheiro, é antigo agente da polícia francesa com registo criminal anterior: condenado em 2010 por assédio e violência doméstica.
Ambos aguardam em prisão preventiva. Em Paris, foi aberta uma investigação paralela por suspeita de rapto de menores. O Tribunal da Relação de Lisboa deverá decidir sobre um mecanismo de entrega temporária dos suspeitos às autoridades francesas. Segundo a advogada especialista em extradição Vânia Costa Ramos, os fundamentos legais para recusar essa entrega são muito limitados.
O que diz o Código Penal sobre o abandono de menores
O abandono de menores está tipificado no artigo 138.º do Código Penal português. A pena base é de um a cinco anos de prisão. Quando o crime é praticado por um progenitor ou por quem exerce responsabilidades parentais, e quando a vítima tem menos de 16 anos, a moldura penal agrava-se: dois a oito anos de prisão efetiva.
O conceito jurídico de "abandono" é mais abrangente do que o senso comum sugere. Inclui qualquer situação em que o responsável legal priva intencionalmente o menor de cuidados essenciais: alimentação, habitação adequada, proteção contra perigos ou assistência médica. A privação reiterada de qualquer destes elementos, mesmo sem abandono físico, pode constituir crime autónomo.
Neste caso, o historial de Marc B. poderá ser valorado pelo tribunal como circunstância agravante, reforçando a acusação de violência doméstica qualificada. Os dois suspeitos enfrentam, em conjunto, cinco acusações formais em Portugal.
Quando é preciso um advogado de direito de família
Situações que envolvem a proteção de crianças são urgências legais. Um advogado especializado em direito de família pode:
- Representar progenitores que contestem decisões de suspensão ou retirada de responsabilidades parentais;
- Orientar avós ou outros familiares que pretendam obter a guarda de uma criança em risco;
- Acompanhar processos de adoção, acolhimento familiar ou tutela;
- Assessorar em casos transfronteiriços, onde a criança e os pais têm nacionalidades diferentes.
No caso dos meninos de Alcácer do Sal, a dimensão internacional é determinante. Os suspeitos são franceses, o crime foi cometido em Portugal e existe uma investigação simultânea em França. Advogados com especialização em cooperação judiciária europeia, ao abrigo do Regulamento de Bruxelas II, são indispensáveis neste tipo de processo.
Extradição entre Portugal e França: como funciona
Quando um crime é cometido em Portugal por cidadãos de outro Estado-membro da UE, a questão da jurisdição não é automática. Em regra, Portugal tem competência quando o ato ilícito ocorre em território nacional. No entanto, a entrega temporária dos suspeitos a França é possível ao abrigo dos tratados de cooperação judicial europeia, se existirem acusações mais graves, como rapto de menores.
O processo de extradição ou entrega temporária demora normalmente entre duas semanas e dois meses, é sempre mediado por advogados com mandato nos dois países, e requer a aprovação de um tribunal superior. Um advogado especializado em direito internacional privado ou em cooperação penal europeia é essencial para navegar neste processo.
Como denunciar abuso ou abandono de menores em Portugal
A Lei n.º 147/99 (Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo) impõe que qualquer pessoa que conheça ou suspeite de situações de perigo as comunique às autoridades competentes. As principais vias disponíveis são:
CPCJ (Comissões de Proteção de Crianças e Jovens): Presentes em todos os municípios portugueses. A Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens disponibiliza um diretório completo e informação sobre os direitos dos menores em Portugal.
GNR ou PSP: Em situações de perigo imediato, contacte imediatamente as forças de segurança locais.
Ministério Público: Para casos com indícios criminais claros, a denúncia direta ao Ministério Público ou à Polícia Judiciária é a via mais célere.
Um advogado de família pode orientar qualquer cidadão sobre como formalizar uma denúncia, protegendo o anonimato do denunciante quando aplicável, e pode representar os interesses das crianças e dos seus familiares ao longo de todo o processo judicial.
As responsabilidades parentais na lei portuguesa
O exercício das responsabilidades parentais, regulado pelo artigo 1878.º do Código Civil, implica obrigações legalmente exigíveis: segurança física, saúde, educação e desenvolvimento afetivo dos filhos. Quando os pais falham nestas obrigações de forma grave ou reiterada, o Estado tem o dever de intervir, podendo suspender ou retirar as responsabilidades parentais sem necessitar do consentimento dos progenitores.
Nos termos da Lei n.º 147/99, qualquer situação que ponha em risco o desenvolvimento físico, psíquico ou emocional de um menor justifica intervenção estatal imediata. O caso dos meninos de Alcácer do Sal é um lembrete doloroso de que os direitos das crianças prevalecem sempre sobre a autoridade parental.
Se enfrenta uma situação de conflito familiar envolvendo menores, ou precisa de orientação sobre os seus direitos como progenitor, familiar ou testemunha de abuso, um advogado de família pode ajudá-lo a agir de forma rápida e juridicamente fundamentada. Na ExpertZoom, encontrará advogados especializados em direito de família e proteção de menores prontos para uma consulta.
Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento jurídico profissional. Para situações específicas, consulte sempre um advogado especializado.

Sofia Costa