O sorteio do play-off da UEFA Europa League 2026/27, realizado esta segunda-feira, 3 de agosto, em Nyon, confirmou o que já era histórico: Portugal entra nesta temporada europeia com uma peça fora do comum no tabuleiro. O Torreense — clube da segunda divisão que conquistou a Taça de Portugal ao derrotar o Sporting na final — está directamente na fase de liga, com adversários a revelar no próximo sorteio, a 28 de agosto. Do outro lado do espectro, o Benfica aguarda nos play-offs com o Hearts escocês no caminho.
Mas há uma dimensão desta história que vai muito além dos campos de futebol: o dinheiro. Participar na fase de liga da Liga Europa garante ao Torreense um mínimo de €5,47 milhões em prémios de participação, segundo os regulamentos financeiros da UEFA para 2026/27. A isso somam-se bónus por vitórias (€450 000 cada), empates (€150 000 cada) e classificação para as eliminatórias. Para um clube habituado à segunda divisão portuguesa, este é um montante sem precedente na sua história.
A questão que poucos colocam — mas que qualquer consultor de gestão patrimonial experiente no sector desportivo consideraria prioritária — é a seguinte: o que se faz com este dinheiro?
O que aconteceu no sorteio de agosto de 2026
O sorteio desta segunda-feira definiu os 12 duelos do play-off da Liga Europa 2026/27. Vinte e quatro clubes ficaram a conhecer os seus adversários, disputando os jogos nos dias 20 e 27 de agosto. O vencedor de cada duelo garante presença na fase de liga e o prémio mínimo de participação associado.
Em termos portugueses, o Benfica fica a conhecer o resultado frente ao Hearts. Se eliminar o clube escocês, o adversário seguinte virá do duelo entre Aarhus, da Dinamarca, e Sabah, do Azerbaijão. Uma vitória nos play-offs significa fase de liga e mais de cinco milhões de euros garantidos pela UEFA.
O Torreense, por sua vez, não precisa de se preocupar com play-offs. A histórica vitória na Taça de Portugal garantiu o acesso directo à fase de liga, onde vai partilhar o palco com clubes de todo o continente. As partidas em casa serão disputadas no Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, uma vez que o recinto do Torreense não reúne os requisitos técnicos exigidos pela UEFA para este nível de competição.
O sorteio da fase de liga está marcado para 28 de agosto, e será aí que o Torreense ficará a saber quem vai defrontar em cada uma das oito jornadas do formato de campeonato.
Porque é que os prémios UEFA são uma armadilha para clubes impreparados
A história do futebol europeu está repleta de exemplos de clubes que viveram uma temporada europeia extraordinária — e pagaram caro por isso nos anos seguintes.
O padrão repete-se com regularidade perturbadora: o clube qualifica-se para a Europa, assina novos contratos e aumenta os salários para manter e contratar jogadores à altura do nível exigido, gasta as receitas UEFA na operação corrente e no plantel, e quando o acesso europeu desaparece — por uma má temporada ou por eliminação precoce —, os custos fixos permanecem. O resultado é défice acumulado, reestruturação forçada e, por vezes, venda de activos estratégicos a preços baixos.
Em Portugal, este fenómeno é bem conhecido. Clubes da Primeira Liga que investiram em infra-estrutura e contratações após um acesso europeu inesperado acabaram a descer de divisão dois anos depois, com passivos que demorariam anos a resolver.
"Quando um clube recebe uma injecção de capital desta dimensão, o erro mais comum é tratar esse dinheiro como receita corrente recorrente", explicou recentemente um gestor de patrimónios com experiência no sector desportivo português. "Mas é uma verba extraordinária, e deve ser gerida como tal — com reservas, planeamento fiscal e uma visão clara de longo prazo."
A verba UEFA não é uma recompensa. É uma responsabilidade financeira que exige planeamento antes de o dinheiro sequer chegar à conta.
O caso do Torreense: quando €5,47 milhões podem fazer ou desfazer um clube
Aqui está o cenário mais conservador para o Torreense na fase de liga da Liga Europa 2026/27: o clube termina na parte inferior da tabela, com dois empates e seis derrotas.
- Prémio de participação garantido: €5,47 milhões
- Bónus pelos dois empates: €300 000 (€150 000 cada)
- Total acumulado: €5,77 milhões
Se o clube tiver uma campanha sólida — três vitórias, dois empates e três derrotas —, os números mudam substancialmente:
- Participação: €5,47 milhões
- Três vitórias (€450 000 cada): €1,35 milhões
- Dois empates: €300 000
- Total: €7,12 milhões
A diferença de €1,35 milhões entre os dois cenários é relevante, mas não é o problema principal. O verdadeiro desafio está no que o clube decide fazer com esse dinheiro antes de saber o resultado desportivo.
Se o Torreense contratar quatro jogadores com salários fixos de €18 000/mês para reforçar o plantel para a Liga Europa — uma despesa modesta para o contexto europeu —, isso representa €864 000 por ano em custos salariais adicionais fixos. Contratos anuais renováveis, com os jogadores disponíveis a serem contratados rapidamente. Se o clube não se qualificar para a Europa no ano seguinte — o que é estatisticamente provável para um clube da segunda divisão —, esses contratos mantêm-se, e os custos também.
A regra fundamental que qualquer gestor de patrimónios recomendaria é esta: as receitas UEFA extraordinárias não devem financiar custos fixos permanentes. Uma estrutura de alocação responsável poderia seguir este modelo:
- 40% para reservas operacionais — um fundo de contingência que cubra pelo menos 18 a 24 meses de operação sem receitas europeias
- 30% para infra-estrutura — adequação das instalações de treino, academia de jovens e infra-estrutura técnica que gere valor independentemente dos resultados desportivos de curto prazo
- 20% para aquisições estratégicas — investimento em jogadores com valor de mercado e cláusulas de revenda bem estruturadas, que permitem recuperar o investimento ou gerar mais-valias numa venda futura
- 10% para amortização de dívidas existentes
Esta não é uma fórmula universal — é um ponto de partida que um consultor de gestão patrimonial adaptaria à situação específica do clube, ao seu passivo actual, à sua estrutura jurídica e aos seus objectivos estratégicos.
A componente fiscal que raramente se discute
Existe um aspecto desta história que a cobertura desportiva raramente menciona: a fiscalidade dos prémios UEFA.
Os prémios recebidos por clubes de futebol em Portugal estão sujeitos a IRC (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas), que incide sobre o lucro tributável do clube. Dependendo da estrutura jurídica — sociedade anónima desportiva (SAD) ou associação —, as implicações fiscais são significativamente diferentes. Uma SAD está sujeita à taxa geral de IRC de 21%, enquanto uma associação pode beneficiar de isenções parciais dependendo da natureza das receitas.
Para os jogadores, os bónus individuais por desempenho na Liga Europa — cláusulas que muitos contratos de futebol incluem explicitamente quando o clube participa em competições europeias — estão sujeitos a IRS e às contribuições devidas à Segurança Social. A taxa efectiva de tributação para jogadores com remunerações mais elevadas pode ultrapassar os 48%.
Segundo informação disponível no site oficial da UEFA Europa League, a estrutura de prémios é pública e detalha exactamente o que cada clube recebe por cada resultado. Mas a estrutura fiscal que determina o que fica efectivamente disponível para o clube é uma questão nacional — e requer assessoria especializada.
Esta componente exige que o clube, os seus jogadores e os seus agentes envolvam consultores jurídicos e fiscais antes do início da competição, não depois de o dinheiro ter chegado às contas. O planeamento fiscal é mais eficaz quando feito com antecedência, e os erros nesta área são irreversíveis.
Para quem acompanhe o tema da tributação de prémios desportivos em Portugal, o contexto sobre prémios e tributação de ganhos no desporto de alto rendimento oferece um enquadramento útil sobre as regras do IRS aplicáveis a ganhos extraordinários desta natureza.
O que fazer se tiver ligação directa ou indirecta a um clube europeu
A participação do Torreense na Liga Europa e o possível avanço do Benfica não são apenas questões de futebol. São eventos com impacto financeiro, contratual e fiscal real para dezenas de pessoas directamente envolvidas.
Dirigentes do clube, jogadores com cláusulas de bónus europeu nos seus contratos, agentes desportivos, fornecedores e patrocinadores que tenham acordos dependentes da participação europeia devem agir nas próximas semanas — antes do sorteio de 28 de agosto e antes de os primeiros jogos serem disputados em setembro.
Um consultor de gestão patrimonial com experiência em contextos desportivos pode ajudar em três áreas concretas: estruturar o uso das verbas UEFA de forma a proteger o clube a longo prazo; avaliar os impactos fiscais dos prémios de desempenho para jogadores e para o clube como entidade; e rever cláusulas contratuais que possam ser activadas — ou contestadas — pelo facto de o clube participar numa competição europeia.
O sorteio de hoje é o início de uma aventura desportiva histórica para Portugal. Que seja também o início de uma gestão financeira à altura do momento.
Nota: este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento fiscal ou financeiro. Para decisões específicas sobre gestão de patrimónios, contratos ou fiscalidade desportiva, recomenda-se a consulta de um profissional qualificado.

Beatriz Martins