Sofia Barillà, estudante italiana de 20 anos em programa Erasmus nas Caldas da Rainha, morreu de forma súbita no dia 31 de maio de 2026 enquanto conversava ao telefone com a sua tia Fiorella. A jovem, natural de Palermo e matriculada no curso de Ciências Biomédicas, foi encontrada sem vida pelos Bombeiros Voluntários das Caldas da Rainha após a família contactar as autoridades portuguesas com urgência. A causa da morte ainda não foi apurada e foi solicitada uma autópsia.
Os pais de Sofia viajaram de Itália para Portugal no próprio dia 1 de junho. A embaixada italiana em Lisboa e o Consulado de Portugal acompanham o caso. A notícia abalou a comunidade estudantil portuguesa e a cidade siciliana de Palermo, onde Sofia era conhecida e estimada.
Morte súbita em jovens: um risco que existe sem sintomas
A morte súbita cardíaca em pessoas com menos de 35 anos é rara, mas representa um problema de saúde pública que os cardiologistas alertam com insistência. Em Portugal, ocorrem entre 1.000 a 4.000 paragens cardíacas súbitas por ano em adultos, segundo dados da Direção-Geral da Saúde. Uma parte significativa afeta jovens sem qualquer historial conhecido de doença cardíaca.
O que torna estes casos especialmente trágicos é a ausência de sinais de aviso. A maioria das pessoas que sofre morte súbita cardíaca nunca tinha recebido um diagnóstico cardiovascular — e nunca havia sentido qualquer sintoma suficientemente preocupante para procurar ajuda médica.
As causas mais frequentes investigadas pelos cardiologistas
Quando uma pessoa jovem morre de forma inesperada, a autópsia foca-se num conjunto de condições cardíacas que, em vida, raramente se manifestam com clareza:
- Cardiomiopatia hipertrófica — o músculo cardíaco está anormalmente espesso, reduzindo a eficiência do coração e criando condições para arritmias fatais. É a causa mais identificada em jovens e tem forte componente hereditária.
- Cardiomiopatia arritmogénica — o tecido muscular do ventrículo direito é progressivamente substituído por gordura ou tecido fibroso, desencadeando arritmias ventriculares severas.
- Síndrome de Brugada — distúrbio elétrico do coração que pode não se manifestar durante toda uma vida até provocar uma paragem cardíaca, frequentemente durante o sono ou em repouso.
- Anomalias congénitas das artérias coronárias — estruturas presentes desde o nascimento que passam despercebidas em exames de rotina e que, sob esforço físico intenso, podem comprometer gravemente o fluxo sanguíneo.
- Miocardite — inflamação do músculo cardíaco desencadeada, por vezes, por infeções virais comuns, incluindo constipações ou infeções respiratórias aparentemente ligeiras.
Nenhuma destas condições tem uma "cara" típica. Afetam jovens saudáveis, ativos, sem sobrepeso e sem qualquer suspeita prévia.
Quando é que um jovem deve fazer um rastreio cardíaco?
Em Portugal, a triagem cardíaca obrigatória aplica-se apenas a atletas federados. Para jovens não-desportistas, não existe ainda um programa nacional de rastreio sistemático. Ainda assim, a comunidade médica identifica um conjunto de sinais que, quando presentes, justificam uma consulta de cardiologia com urgência:
- Síncope (desmaio) durante ou após esforço físico
- Palpitações rápidas e inexplicáveis, especialmente em repouso
- Dor ou pressão no peito durante o exercício, mesmo que passageira
- Historial familiar de morte súbita antes dos 50 anos
- Cansaço desproporcional face ao nível de atividade habitual
Um eletrocardiograma (ECG) simples, disponível em qualquer centro de saúde do SNS, pode detetar anomalias elétricas sugestivas de risco. Quando existem suspeitas mais concretas, o cardiologista pode solicitar um ecocardiograma, um Holter de 24 horas ou uma prova de esforço.
A Direção-Geral da Saúde disponibiliza orientações de saúde para jovens com recomendações sobre rastreio cardiovascular e consultas preventivas no SNS.
O historial familiar: o indicador de risco mais subestimado
Muitas das doenças que causam morte súbita em jovens são hereditárias, transmitindo-se de pais para filhos com uma probabilidade de 50%. Um dos progenitores pode ser portador sem nunca ter sofrido uma paragem cardíaca.
Perguntar à família se alguém morreu de forma súbita, sofreu uma paragem cardíaca ou foi diagnosticado com insuficiência cardíaca antes dos 50 anos é um gesto simples com potencial de salvar vidas. Se a resposta for afirmativa, uma consulta de cardiologia preventiva está indicada, independentemente de qualquer sintoma.
Em casos de suspeita de doença cardíaca hereditária, os hospitais portugueses com unidade de genética médica oferecem testes genéticos que identificam mutações de risco — e que podem levar a um rastreio preventivo de toda a família.
Estudantes em Erasmus: acesso ao SNS em Portugal
Sofia Barillà estava em Portugal ao abrigo do programa Erasmus. Muitos estudantes internacionais desconhecem que têm acesso ao Serviço Nacional de Saúde durante a sua estadia. O Cartão Europeu de Seguro de Doença (CESD) cobre urgências em toda a União Europeia e, para consultas de rotina, os estudantes podem inscrever-se no centro de saúde da área de residência temporária.
Essa inscrição permite acesso a consulta de clínica geral, análises e referenciação para especialidade — incluindo cardiologia. Um estudante que conheça historial familiar de risco cardíaco pode, portanto, fazer um rastreio preventivo sem custos acrescidos durante a sua estadia em Portugal.
O que pode fazer agora
Casos como o de Sofia Barillà recordam que a saúde cardiovascular não tem idade mínima. Um exame simples pode revelar condições que, sem diagnóstico, permanecem invisíveis. Se tem menos de 35 anos e historial familiar de doença cardíaca — ou se alguma vez sentiu palpitações inexplicáveis ou desmaios — consulte um cardiologista.
Na plataforma Expert Zoom, encontra especialistas em cardiologia disponíveis para consulta online ou presencial, capazes de avaliar o seu risco individual e indicar os exames adequados.
Nota: Este artigo tem fins informativos e não substitui o aconselhamento médico individual. Perante qualquer sintoma cardíaco, consulte imediatamente um profissional de saúde.
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Ricardo Rodrigues