A onda de calor que assolou Portugal no final de maio de 2026 já é oficialmente a terceira mais intensa alguma vez registada para esse mês — e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) avisou que o episódio pode prolongar-se para o início de junho. No dia 27 de maio, o termómetro chegou a 40,3°C em Mora, no Alentejo, batendo o anterior recorde nacional de temperatura máxima para maio. Num só dia, o IPMA registou 22 novos valores absolutos de temperatura máxima para aquele mês.
Com o índice acumulado a atingir 68,9°C — oito vezes mais do que a referência histórica de 1991-2020 — o governo português ativou o Nível 1 do plano de contingência para calor. A Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, confirmou um aumento "substancial" na procura das urgências, e o INEM recebeu um "número considerável de chamadas" relacionadas com o calor extremo. Mas afinal, quem corre mais risco — e o que pode fazer para se proteger?
Os cinco grupos que mais precisam de atenção
Não é toda a gente que reage da mesma forma ao calor extremo. A Direção-Geral da Saúde (DGS) identifica cinco grupos com risco significativamente mais elevado de complicações graves:
1. Idosos acima dos 85 anos. Durante a onda de calor de 2025, Portugal registou 69 mortes em excesso — a esmagadora maioria entre pessoas com mais de 85 anos. Um relatório europeu publicado em abril de 2026 classificou Portugal e Espanha como os dois países mais vulneráveis ao impacto do calor extremo na saúde em toda a Europa. O isolamento social agrava o risco: um idoso que viva sozinho pode não ter quem dê o alerta a tempo.
2. Crianças com menos de 6 meses. Nos bebés mais novos, o sistema de regulação da temperatura corporal ainda está incompleto. A DGS é clara: nenhuma exposição ao sol, direta ou indireta. Mesmo à sombra, o calor refletido pode ser suficiente para causar desidratação num lactente.
3. Doentes crónicos. Insuficiência cardíaca, diabetes, doença renal crónica e patologias respiratórias podem descompensar rapidamente em situações de calor extremo. Quem toma medicação que afeta a regulação do calor — como diuréticos, antidepressivos ou betabloqueadores — deve consultar o médico antes de uma vaga de calor prolongada.
4. Grávidas. O aumento da temperatura corporal pode causar desidratação e perturbar a circulação, comprometendo o bem-estar do feto. Viagens longas ou exposição prolongada ao sol são especialmente desaconselháveis no terceiro trimestre.
5. Trabalhadores ao ar livre. Trabalhadores da construção civil, agricultura, serviços de entrega e recolha de resíduos estão entre os mais expostos. A legislação portuguesa obriga os empregadores a garantir medidas de proteção em situações de alerta meteorológico: hidratação, pausas regulares, equipamento adequado e, se possível, reajustamento de horários. O incumprimento pode constituir contraordenação grave — um advogado especializado em direito laboral pode esclarecer os direitos e deveres de ambas as partes.
O que dizem os alertas do IPMA para junho
No início de junho de 2026, o IPMA mantinha alertas laranja e vermelho ativos nos distritos de Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja. Em Évora e Beja, as previsões apontavam para temperaturas superiores a 37°C — com algumas localidades a roçar os 40°C.
A duração média da onda de calor de maio foi de 7,9 dias, tornando-a a oitava mais longa alguma vez registada para aquele mês. A boa notícia é que o litoral e as ilhas tendem a ser afetados com menor intensidade; a má notícia é que o interior centro e norte e o Alentejo concentram os piores valores.
Para acompanhar os alertas em tempo real, o portal de informação sobre ondas de calor do IPMA disponibiliza boletins diários sobre a situação meteorológica em Portugal Continental e nas regiões autónomas.
Sintomas que exigem atenção imediata
O golpe de calor é uma emergência médica e pode ser fatal se não for tratado com rapidez. Os sinais de alarme mais graves incluem:
- Temperatura corporal elevada sem transpiração — quando o corpo já não consegue arrefecer
- Confusão mental, desorientação ou perda de consciência
- Vómitos persistentes e náuseas
- Pulso rápido e fraco
- Pele quente e seca ao toque
Em caso de suspeita de golpe de calor, ligue imediatamente para o SNS 24 (808 24 24 24) ou para o 112. Enquanto aguarda socorro: mova a pessoa para um local fresco, humedeça a pele com panos frios, e nunca deixe a pessoa sozinha.
A exaustão pelo calor — precursora do golpe de calor — manifesta-se com suores intensos, fraqueza, palidez e câimbras musculares. É o sinal para sair do sol e ingerir líquidos imediatamente.
As recomendações da DGS para os próximos dias
A Direção-Geral da Saúde estabeleceu um conjunto de medidas preventivas que podem fazer a diferença entre uma tarde difícil e uma emergência hospitalar:
- Hidratação constante: beba pelo menos 1,5 litros de água por dia, mesmo sem sentir sede. Evite bebidas alcoólicas e com cafeína — intensificam a perda de líquidos.
- Evite o sol nas horas de pico: entre as 11h e as 17h, mantenha-se em espaços interiores frescos.
- Aproveite locais públicos com ar condicionado: centros comerciais, bibliotecas e centros de saúde podem funcionar como abrigos climáticos. Dois a três horas num local fresco por dia são suficientes para estabilizar a temperatura corporal.
- Vista roupas leves e de cores claras: o linho e o algodão são as melhores escolhas. Cores claras refletem o calor; cores escuras absorvem-no.
- Proteja a pele e os olhos: protetor solar com fator mínimo 30, renovado de duas em duas horas, e óculos com proteção UV.
- Feche persianas e estores durante o dia: impede que o calor entre em casa. Ventile ao anoitecer, quando as temperaturas baixam.
- Nunca deixe crianças ou animais em carros estacionados: mesmo à sombra, o interior de um automóvel parado pode atingir os 60°C em menos de dez minutos.
Quando consultar um profissional de saúde
Temperaturas persistentemente acima dos 35°C afetam o funcionamento cardiovascular, renal e neurológico — mesmo em pessoas saudáveis. Se tiver mais de 65 anos, uma doença crónica, estiver grávida, ou se algum familiar pertencer a um dos grupos de risco identificados pela DGS, marque uma consulta preventiva com o seu médico antes de as temperaturas subirem de novo.
Um profissional de saúde pode rever a medicação habitual, ajustar a dosagem de diuréticos e definir um plano de hidratação adequado ao seu perfil clínico específico. No ExpertZoom, pode encontrar médicos disponíveis para consultas rápidas de acompanhamento — sem esperar semanas por uma consulta no SNS.
Para trabalhadores ao ar livre que sintam que o empregador não está a cumprir as obrigações legais durante as vagas de calor, um advogado especializado pode esclarecer os direitos aplicáveis e ajudar a apresentar uma queixa à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).
A onda de calor de abril de 2026 já tinha dado sinais de que este seria um verão exigente. Os dados de maio confirmam-no com números históricos. Prepare-se com informação — e com o apoio de profissionais qualificados.
Nota: Este artigo tem caráter informativo. Em caso de sintomas graves de golpe de calor, ligue imediatamente 112.

Ricardo Rodrigues