O IPMA emitiu um alerta de onda de calor para Portugal continental válido até 22 de abril de 2026, com temperaturas a atingir 30°C em plena primavera — valores claramente acima da média histórica para esta época do ano. Uma massa de ar tropical proveniente do interior da Península Ibérica, combinada com um anticiclone a norte dos Açores, explica o fenómeno.
O que é uma onda de calor e por que ocorre em abril?
Segundo o IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), uma onda de calor é definida como um período de pelo menos seis dias consecutivos com temperatura máxima diária superior em 5°C ao valor médio diário para o período de referência 1971-2000. O que torna este evento de abril de 2026 incomum é a sua precocidade: março de 2026 já foi o 5.º março mais quente desde 2000, com uma temperatura média de 12,99°C (+0,62°C acima da normal 1991-2020) e precipitação de apenas 54% da normal, segundo o boletim climatológico do IPMA.
Regiões como o interior norte e centro registaram menos de metade da chuva habitual, o que agrava os efeitos do calor sobre os solos e aumenta o risco de incêndios rurais prematuros.
Os riscos para a saúde que os médicos alertam
O calor extremo precoce apanha muitos portugueses desprevenidos. O organismo ainda não se adaptou às temperaturas elevadas após um inverno e início de primavera mais frios. É exatamente neste contexto que os riscos para a saúde são mais elevados — e quando a consulta a um médico pode ser determinante.
Desidratação: Com temperaturas de 30°C em abril, a perda de líquidos é significativamente superior ao habitual. Sinais de alerta incluem urina escura, boca seca, tonturas e confusão mental. Em adultos idosos e crianças pequenas, a desidratação pode progredir rapidamente para um estado grave.
Esgotamento pelo calor: Caracteriza-se por suores excessivos, fraqueza, pele pálida e húmida, pulso rápido e temperatura corporal elevada (acima de 38°C). Não confundir com a fase seguinte, mais grave.
Golpe de calor (coup de chaleur): A emergência médica mais grave associada ao calor. A temperatura corporal supera os 40°C, a pele fica seca e quente (sem suor), e pode ocorrer perda de consciência. Trata-se de uma emergência médica — ligue 112 imediatamente.
Grupos de risco prioritários:
- Idosos com mais de 65 anos
- Bebés e crianças pequenas
- Pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias crónicas
- Trabalhadores ao ar livre (construção, agricultura)
- Doentes a tomar diuréticos, anti-hipertensores ou antipsicóticos
Quando consultar um médico?
Esta é a pergunta que mais portugueses deverão fazer nos próximos dias. A resposta dos profissionais de saúde é clara: não espere pelos sintomas mais graves.
Consulte um médico se:
- A temperatura corporal subir acima de 38°C sem causa aparente
- Os sintomas de desidratação persistirem após ingestão de líquidos
- Surgirem cãibras musculares intensas
- Uma pessoa idosa ou criança apresentar letargia, confusão ou recusa alimentar
- Qualquer sintoma de golpe de calor se manifestar
Um especialista em medicina geral e familiar ou um médico internista pode avaliar o estado de hidratação, identificar fatores de risco subjacentes e ajustar medicação que possa ser problemática no calor — algo que não deve fazer por conta própria.
Segundo a DGS (Direção-Geral da Saúde), o plano de contingência para ondas de calor inclui a ativação de linhas de apoio e a monitorização de populações vulneráveis — mas a primeira linha de defesa é sempre o contacto com um profissional de saúde.
Dicas práticas para os próximos dias
Até 22 de abril de 2026, enquanto o alerta do IPMA estiver ativo, os especialistas recomendam:
- Beba pelo menos 1,5 a 2 litros de água por dia, mesmo sem sentir sede — a sede é um sinal tardio de desidratação
- Evite exposição solar entre as 12h e as 17h, o período de maior radiação e calor
- Ventile a habitação de manhã cedo e feche janelas e persianas durante o período mais quente — o ar de dentro aquece se a janela estiver aberta enquanto o exterior está mais quente
- Vista roupa leve, de cores claras e de fibras naturais como algodão ou linho
- Nunca deixe crianças ou animais fechados em veículos, mesmo por poucos minutos — a temperatura no interior pode atingir 60°C em menos de 20 minutos
O que esperar após a onda de calor
Os meteorologistas indicam que a partir de 23 de abril de 2026 deverá ocorrer uma descida de temperaturas, com eventual retorno à normalidade primaveril. No entanto, padrões como este — ondas de calor precoces, meses de março cada vez mais secos — estão alinhados com as projeções climáticas para Portugal, que apontam para verões mais longos e quentes nas próximas décadas.
Isso significa que saber reconhecer os sinais de alerta e saber quando pedir ajuda médica deixou de ser uma competência sazonal. É uma literacia de saúde essencial para todos os portugueses.
Se tem dúvidas sobre a sua situação específica — seja pela sua idade, condição crónica ou medicação habitual — não hesite em marcar uma consulta com um médico. Uma avaliação preventiva vale sempre mais do que uma urgência hospitalar.
Este artigo tem caráter informativo. Em caso de emergência médica, ligue 112. Para questões de saúde não urgentes, contacte a sua linha de saúde (SNS 24: 808 24 24 24).

Ricardo Rodrigues