Seis meses depois de sofrer dois acidentes vasculares cerebrais que o colocaram "perto de ir desta para melhor", Nuno Markl regressou a lágrimas ao estúdio da Rádio Comercial, gravou o seu célebre segmento e confirmou presença no palco do MEO Arena a 19 de dezembro de 2026. O percurso do apresentador é a crónica mais lida sobre recuperação em Portugal este ano — mas levanta também uma pergunta que afeta 20 000 famílias por ano: quando é, afinal, seguro voltar ao trabalho depois de um AVC?
O que aconteceu: dois AVCs e uma recuperação histórica
Em novembro de 2025, Nuno Markl sofreu o primeiro AVC. Ainda hospitalizado, teve um segundo episódio — complicação que, nas suas palavras dadas à "Alta Definição" no dia 1 de julho de 2026, o deixou literalmente "perto de ir desta para melhor". O apresentador iniciou então uma reabilitação intensiva que durou cerca de seis meses.
Em maio de 2026, regressou ao estúdio para gravar "O Homem Que Mordeu o Cão". Em junho, voltou ao edifício da Rádio Comercial, reencontrando colegas em ambiente que rapidamente se tornou viral. Na entrevista de julho ao programa de Daniel Oliveira, descreveu a luta pela recuperação, o papel insubstituível do apoio familiar e o que a equipa médica determinou para o seu regresso gradual.
Esta trajetória não é, infelizmente, exceção. Segundo a Portugal AVC, cerca de 20 000 novos casos de AVC ocorrem em Portugal por ano. Entre 35 % e 40 % necessitam de programas de reabilitação especializados. Muitos desses sobreviventes têm entre 45 e 65 anos — na força da vida ativa.
O que os médicos dizem sobre o regresso ao trabalho
Não existe um prazo universal, e quem diz o contrário está a simplificar em excesso. O regresso ao trabalho após um AVC depende de: tipo e localização da lesão cerebral, sequelas funcionais (motoras, cognitivas, de linguagem), tipo de atividade profissional e presença de comorbilidades como hipertensão ou diabetes.
De acordo com as recomendações nacionais, a reabilitação continuada deve envolver uma equipa multidisciplinar: médico fisiatra, fisioterapeuta, terapeuta da fala, terapeuta ocupacional, neuropsicólogo e assistente social. A alta hospitalar é apenas o início do processo — não o seu fim.
Para profissões intelectuais ou criativas, como a locução e a escrita que Nuno Markl exerce, estudos de neurorreabilitação indicam que, após um AVC minor com boa recuperação funcional, pode haver retorno gradual entre os 3 e os 6 meses. Nos casos com fadiga cognitiva persistente — uma das sequelas mais frequentes e mais subestimadas —, o regresso pode levar entre 12 a 18 meses. Quando existem dois AVCs em sequência, como no caso do apresentador, o processo é ainda mais complexo: a recorrência aumenta o risco de sequelas cumulativas e exige maior precaução antes de assumir funções plenas.
Que Nuno Markl esteja a preparar uma atuação de palco para dezembro de 2026, sete meses após o episódio mais crítico, é por isso um resultado que a própria comunidade médica reconhece como excecional — e que não deve ser tomado como a norma.
A recorrência que muitos desconhecem
O caso do apresentador tem uma característica clinicamente relevante que vai além da emoção: dois AVCs em pouquíssimo tempo. Do ponto de vista médico, o segundo AVC, ocorrido ainda durante a hospitalização, eleva significativamente o risco de sequelas mais graves e prolonga o horizonte de recuperação.
A recorrência é um dos maiores riscos após um primeiro episódio isquémico: estima-se que cerca de 25 % dos sobreviventes de AVC tenham um segundo episódio nos cinco anos seguintes. Esta realidade tem implicações práticas não apenas médicas, mas também laborais: pode obrigar a ajustes no posto de trabalho, redução de horário e reavaliações periódicas de aptidão profissional.
Se fosse consigo: o que muda nos seus direitos laborais e financeiros
Imagine que sofreu um AVC isquémico em novembro de 2025 — tal como Nuno Markl — e que a sua profissão é técnico de informática numa empresa de médias dimensões em Lisboa.
Após a alta hospitalar, que pode ocorrer entre 5 e 21 dias consoante a gravidade, tem direito a baixa médica remunerada pela Segurança Social. A taxa de substituição para incapacidade temporária é de 55 % do salário de referência nos primeiros 90 dias, subindo para 60 % entre o 91.º e o 365.º dia.
Se a reabilitação durar os seis meses que o caso Nuno Markl exigiu, um trabalhador com salário mensal bruto de 1 500 euros receberia aproximadamente 825 euros por mês nos primeiros três meses, e cerca de 900 euros nos três seguintes. No total, uma redução de rendimento de cerca de 4 500 euros face ao salário normal durante esse período — valor que muitas famílias não têm margem para absorver sem planeamento.
A questão que muitos não colocam a tempo: quando pedir uma consulta ao médico do trabalho, e não apenas ao médico de família? A resposta é antes de assinar qualquer carta de alta definitiva ou de aceitar um regresso a funções incompatíveis com a sua condição atual. Um especialista em medicina do trabalho pode emitir uma declaração de aptidão condicionada, que obriga o empregador a adaptar o posto — teletrabalho parcial, redução de horário, eliminação de deslocações.
Se a adaptação não for viável e o trabalhador mantiver incapacidade permanente superior a 66,6 %, pode requerer pensão de invalidez. Para um trabalhador com 20 anos de contribuições e salário de 1 500 euros brutos, a pensão de invalidez relativa ronda os 675 a 825 euros mensais segundo as tabelas vigentes em 2026 da Segurança Social — menos de metade do salário, o que torna ainda mais urgente uma avaliação cuidadosa antes de qualquer decisão.
A equipa que decide quando está realmente pronto
A decisão sobre o regresso ao trabalho não pode depender apenas do médico de família. Depois de um AVC — sobretudo quando envolveu dois episódios em sequência —, a avaliação adequada envolve:
- Médico fisiatra: avalia a função motora e coordena o programa de reabilitação
- Neuropsicólogo: avalia atenção, memória de trabalho, velocidade de processamento e controlo executivo
- Terapeuta da fala: essencial quando há afasia ou alterações de deglutição
- Terapeuta ocupacional: traduz as capacidades residuais em atividades concretas do quotidiano e do trabalho
- Médico do trabalho: converte a avaliação clínica em aptidão laboral formal perante o empregador
- Assistente social: orienta sobre baixa, pensão, adaptação do posto e apoios disponíveis
Em Portugal, o acesso a esta equipa completa existe no SNS — mas as listas de espera para neuropsicologia e fisiatria chegam frequentemente a vários meses. Para quem dispõe de seguro de saúde privado ou capacidade para consultas privadas, os prazos são significativamente mais curtos, o que pode fazer diferença numa janela de reabilitação em que cada semana conta.
O que deve fazer agora
O regresso à vida profissional depois de um AVC é um processo que entrelaça decisões médicas, laborais e financeiras. Tomá-las cedo, e com acompanhamento especializado, pode significar a diferença entre uma recuperação plena e uma recaída.
A história de Nuno Markl mostra que é possível regressar — e regressar até a um palco com milhares de pessoas. Mas também mostra que esse regresso exigiu seis meses de acompanhamento intensivo, uma equipa de profissionais de saúde e uma rede de apoio que nem sempre está disponível de forma imediata para todos os sobreviventes.
Se está a gerir a sua própria recuperação de AVC ou a de um familiar, consulte um especialista que possa avaliar especificamente a sua situação: sequelas concretas, tipo de trabalho, direitos laborais e opções de reabilitação. Profissionais de neurorreabilitação, fisiatria e neuropsicologia podem acompanhar este processo — saiba mais sobre reabilitação após AVC e os especialistas disponíveis.
Aviso de saúde: Este artigo tem carácter informativo e jornalístico. Não substitui consulta médica. Perante suspeita de AVC — face descaída, braço sem força, fala alterada ou visão turva de início súbito —, ligue imediatamente para o 112.

Ricardo Rodrigues