Nuno Markl voltou a casa a 14 de julho de 2026, seis meses depois de ter sido internado na sequência de dois acidentes vasculares cerebrais — um AVC hemorrágico em novembro e um segundo, isquémico, em dezembro. Nos últimos dias, o humorista e locutor da Rádio Comercial partilhou nas redes sociais imagens de uma sessão de terapia em que testa tecnologia de treino da mão, descrevendo-se com humor como "metade homem, metade máquina". Por trás das imagens está uma realidade que milhares de portugueses conhecem: o AVC não termina na alta hospitalar — começa aí a fase mais longa e decisiva, a da reabilitação.
O que acontece depois do AVC
O acidente vascular cerebral é uma das principais causas de incapacidade crónica em Portugal e na Europa. Sobreviver ao episódio agudo é apenas o primeiro passo. As sequelas — perda de força num lado do corpo, dificuldades na fala, alterações do equilíbrio, da memória ou da coordenação fina das mãos — determinam a qualidade de vida nos anos seguintes.
A recuperação depende de um trabalho intensivo, precoce e continuado. Os primeiros três a seis meses são considerados a janela em que o cérebro tem maior capacidade de reorganização, através de um processo conhecido como neuroplasticidade. É por isso que cada semana de terapia conta, e é por isso que o percurso de Nuno Markl, feito de sessões repetidas e de pequenos ganhos, ilustra bem o esforço que a reabilitação exige.
Uma corrida contra as listas de espera
O problema é que, em Portugal, o acesso a esta reabilitação está longe de ser garantido. Um estudo pioneiro que acompanhou 460 sobreviventes de AVC durante um ano concluiu que 70% não tiveram acesso a reabilitação intensiva e que 65% não beneficiaram de uma equipa multiprofissional. Segundo os mesmos dados, 80% receberam, no máximo, cinco sessões de fisioterapia por semana, muitas vezes com menos de 45 minutos cada.
A pressão sobre o serviço público é visível nos números das consultas. Em 2025 estavam inscritos cerca de 49 mil utentes em lista de espera para consulta de Medicina Física e de Reabilitação, mas apenas cerca de 32 mil consultas foram realizadas. O tempo de espera mediano ronda os quatro meses e, em alguns hospitais, aproxima-se de um ano — precisamente durante a janela em que a reabilitação é mais eficaz.
Para uma família confrontada com um AVC, esta demora pode significar a diferença entre recuperar autonomia e ficar dependente. É aqui que a orientação de um profissional se torna decisiva.
Que especialistas fazem a reabilitação
Ao contrário do que se pensa, a reabilitação pós-AVC não se resume à fisioterapia. É um trabalho de equipa que pode envolver vários profissionais:
- Médico fisiatra (especialista em Medicina Física e de Reabilitação): coordena o plano, avalia as sequelas e define objetivos realistas.
- Fisioterapeuta: trabalha a força, o equilíbrio, a marcha e a mobilidade.
- Terapeuta ocupacional: treina as tarefas do dia a dia — vestir, cozinhar, escrever, usar a mão afetada, como no caso do treino que Markl mostrou.
- Terapeuta da fala: intervém quando há afasia ou dificuldades de deglutição.
- Psicólogo: acompanha a depressão pós-AVC, frequente e muitas vezes subvalorizada.
Um fisiatra pode ajudá-lo a montar este plano e a decidir que apoios contratar, sobretudo quando a espera no Serviço Nacional de Saúde é longa. Muitas famílias optam por complementar o percurso público com sessões privadas ou domiciliárias para não perder a janela terapêutica dos primeiros meses.
O que fazer se um familiar teve um AVC
Se acompanha alguém em recuperação, há passos concretos que aumentam as probabilidades de sucesso:
- Comece cedo. Peça, ainda durante o internamento, a referenciação para consulta de Medicina Física e de Reabilitação e confirme se ficou inscrita.
- Não fique só à espera. Se o tempo de espera for de meses, avalie com um fisiatra a hipótese de iniciar sessões privadas em paralelo, para não perder a fase mais produtiva.
- Exija um plano multiprofissional. A reabilitação eficaz combina fisioterapia, terapia ocupacional e, quando necessário, terapia da fala e apoio psicológico.
- Adapte a casa. Barras de apoio, eliminação de tapetes soltos e boa iluminação reduzem o risco de quedas na fase de recuperação.
- Cuide de quem cuida. O cansaço do cuidador é real; procure apoio e informe-se sobre os direitos e apoios sociais disponíveis.
Pode conhecer melhor a doença e os sinais que exigem ação imediata neste guia sobre os sinais de alerta do AVC, e compreender o peso das sequelas neurológicas a longo prazo neste artigo sobre reabilitação e trauma neurológico. Para orientação sobre o percurso de reabilitação no sistema público, a página oficial de reabilitação do Serviço Nacional de Saúde reúne informação útil.
Um exemplo público de um percurso privado
Ao partilhar as suas sessões, Nuno Markl deu visibilidade a algo que raramente se vê: o trabalho paciente e prolongado que separa o AVC agudo de uma vida recuperada. A sua mensagem de bom humor não esconde a dureza do processo — nem o facto de que nem todos têm acesso, no tempo certo, aos meios de que ele dispõe.
Para quem enfrenta esta situação, o primeiro passo é não esperar sozinho. Falar com um profissional de reabilitação, perceber que apoios existem e montar um plano à medida pode ser determinante nos meses que se seguem a um AVC.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica. Perante sintomas de AVC — face descaída, falta de força num braço ou dificuldade em falar — ligue de imediato para o 112.

Ricardo Rodrigues