Cinco italianos mortos nas Maldivas: o que os médicos aconselham antes de mergulhar em cavernas

Mergulhadores em caverna subaquática com equipamento técnico

Photo : Borut Furlan / Wikimedia

5 min de leitura 15 de maio de 2026

Cinco mergulhadores italianos morreram na quinta-feira, 14 de maio de 2026, durante uma excursão de mergulho em caverna no Atol Vaavu, nas Maldivas. As vítimas exploravam formações subaquâneas a uma profundidade de 50 metros, perto da ilha Alimathaa, quando algo correu terrivelmente mal. O acidente chocou a comunidade internacional de mergulho e reacende o debate sobre os riscos médicos e técnicos desta modalidade — incluindo em Portugal, que conta com mais de 2000 cavernas e um dos principais destinos europeus para mergulho em grutas.

O que mata os mergulhadores em cavernas não é o que a maioria das pessoas imagina. Não são os tubarões, nem os colapsos de rocha. São fenómenos fisiológicos silenciosos — e frequentemente preveníveis com uma avaliação médica adequada.

O que aconteceu nas Maldivas e porque importa para Portugal

O mergulho em caverna é a técnica mais especializada e perigosa da espeleologia subaquática. Ao contrário do mergulho em mar aberto, o mergulhador em caverna opera num ambiente fechado: se algo falha, não existe subida directa à superfície. Esta característica fundamental altera tudo — desde a gestão do gás respirado até à tomada de decisões sob pressão.

Segundo dados de investigação especializada em acidentes de mergulho, o esgotamento de gás respirado é a causa imediata mais comum de morte em mergulho de caverna. Em segundo lugar surgem as falhas de navegação — perda da linha guia, desorientação em bifurcações, ou visibilidade zero causada por sedimentos levantados. Em terceiro, a acumulação de CO₂ por ventilação ineficiente, que degrada rapidamente a cognição e acelera o pânico.

Portugal tem jazida de cavernas inundadas em várias regiões: a Gruta da Almonda (Torres Novas) é a mais profunda caverna de Portugal e um local internacionalmente reconhecido para mergulho técnico. Algarve e Açores têm também locais procurados por mergulhadores de todo o mundo. A crescente popularidade do mergulho em caverna entre turistas e desportistas sem formação técnica adequada preocupa os especialistas de medicina hiperbárica.

Os riscos médicos que a maioria desconhece

A medicina hiperbárica — especialidade que trata das patologias relacionadas com pressões fora do normal — identifica vários fenómenos fisiológicos específicos do mergulho em profundidade que se tornam ainda mais críticos em ambientes fechados:

Narcose por azoto. Acima dos 30 a 40 metros de profundidade, o azoto presente no ar comprimido passa a ter um efeito tóxico no sistema nervoso central, produzindo um estado semelhante à embriaguez. Em mar aberto, o mergulhador pode subir. Numa caverna a 50 metros — como no caso das Maldivas — a narcose pode levar a decisões fatais sem saída de emergência disponível.

Toxicidade por oxigénio. Misturas ricas em oxigénio (utilizadas para prolongar o tempo de mergulho) tornam-se tóxicas a partir de certas profundidades, podendo causar convulsões súbitas — letais para um mergulhador sozinho debaixo de água.

Hipercapnia. O aumento de CO₂ no sangue, causado por respiração ineficiente ou equipamento defeituoso, provoca sensação de sufocação, pânico e tomada de decisões erradas. Num ambiente fechado, o resultado pode ser catastrófico.

Barotrauma e doença de descompressão. Subidas muito rápidas — frequentemente provocadas pelo pânico — causam lesões por expansão de gás nos pulmões e articulações. A doença de descompressão, conhecida popularmente como "doença dos escafandristas", pode surgir horas depois do mergulho e requerer câmara hiperbárica de urgência.

Quem está em risco — e como um médico pode ajudar

Não é preciso ser um mergulhador de cavernas para correr risco em mergulho profundo. Muitos acidentes envolvem mergulhadores recreativos com certificação básica que subestimam as exigências físicas e cognitivas de ambientes confinados.

As condições médicas que aumentam significativamente o risco em mergulho de caverna incluem:

  • Doenças cardiovasculares — a exigência física num ambiente confinado pode precipitar arritmias ou enfarte
  • Problemas respiratórios — asma, DPOC ou qualquer obstrução crónica aumenta o risco de barotrauma
  • Perturbações psicológicas — claustrofobia, ansiedade ou histórico de ataques de pânico são contraindicações sérias
  • Medicação — vários fármacos de uso comum interagem negativamente com o mergulho em profundidade

A DAN Europe — a principal organização europeia de investigação em medicina de mergulho — recomenda que qualquer mergulhador que pratique ou pretenda praticar mergulho técnico realize uma avaliação médica especializada antes de iniciar a formação. Esta avaliação inclui electrocardiograma, prova de esforço, avaliação pulmonar e consulta de medicina hiperbárica.

Portugal tem recursos — mas são suficientes?

Em Portugal, existem câmaras hiperbáricas em Lisboa (Hospital da Marinha), Setúbal, Coimbra, Porto e nos Açores. A Marinha Portuguesa tem experiência em medicina de mergulho desde os anos 1960. Contudo, o número de médicos especializados em medicina hiperbárica fora do ambiente hospitalar militar é limitado.

Para quem pratica mergulho regular ou pretende iniciar mergulho técnico, incluindo o tão procurado mergulho em caverna, a consulta com um médico especializado é o primeiro passo — não uma opção.

Ultramaratonistas também enfrentam riscos médicos subestimados em Portugal: da hipotermia ao colapso cardiovascular, o padrão de subestimação de risco em desportos extremos é transversal.

O que deve fazer antes de mergulhar em caverna

Se está a considerar experimentar mergulho em caverna em Portugal — seja na Almonda, no Algarve ou nos Açores — estes são os passos que um médico especialista recomendaria:

  1. Avaliação médica prévia: Consulta com médico de medicina hiperbárica ou do desporto, incluindo ECG e avaliação pulmonar
  2. Formação certificada: Certificações específicas de mergulho em caverna (como CMAS, PADI Cave, TDI) são obrigatórias — não podem ser substituídas por experiência em mar aberto
  3. Regra do terço: Nunca consumir mais de um terço do gás na entrada, reservando dois terços para a saída e emergências
  4. Nunca mergulhar sozinho: A regra do buddy é ainda mais crítica em ambientes fechados
  5. Conhecer os sinais de narcose: Saber reconhecer os próprios sinais de narcose antes de entrar numa caverna profunda

Na ExpertZoom, pode consultar médicos especializados em medicina desportiva e medicina hiperbárica que o podem acompanhar na avaliação prévia ao mergulho técnico.

Aviso médico: Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento médico. Em caso de emergência de mergulho em Portugal, contacte o INEM (112) ou o serviço de câmara hiperbárica mais próximo.

Tragédia nas Maldivas como lição

O acidente de 14 de maio de 2026 não foi um acaso ou má sorte. Acidentes em mergulho de caverna raramente são imprevisíveis — quase sempre resultam de uma combinação de formação insuficiente, avaliação médica negligenciada e subestimação das condições.

Portugal, com o seu rico património subaquático e as suas cavernas únicas, tem muito a oferecer aos mergulhadores que procuram experiências raras. Mas essa riqueza exige preparação proporcional. Consultar um médico antes de mergulhar não é excesso de precaução: é o primeiro equipamento de segurança.

Os nossos especialistas

Vantagens

Respostas rápidas e precisas para todas as suas questões e pedidos de assistência em mais de 200 categorias.

Milhares de utilizadores obtiveram uma satisfação de 4,9 em 5 para os conselhos e recomendações fornecidas pelos nossos assistentes.