Ultramaratona em Portugal 2026: os riscos médicos que os corredores subestimam e quando consultar um especialista

Corredor de trail em terreno rochoso montanhoso em Portugal durante ultramaratona
4 min de leitura 16 de abril de 2026

A Figueira Ultra Trail 2026 decorreu a 4 de abril em Buarcos, com atletas a completar distâncias até 47 km na Serra da Boa Viagem — e o Madeira Island Ultra Trail (MIUT) aproxima-se a 25 e 26 de abril, com provas até 115 km. Com as ultramaratonas a ganhar popularidade em Portugal, os médicos do desporto alertam: os riscos médicos destas provas são frequentemente subestimados pelos próprios participantes.

A febre das ultramaratonas em Portugal

Portugal tornou-se nos últimos anos um destino de referência para provas de trail e ultramaratona. A Figueira Ultra Trail, integrada no Campeonato Nacional de Ultra Trail da Federação Portuguesa de Atletismo, reuniu em abril centenas de corredores nas categorias de 12, 18, 31 e 47 quilómetros. Já o MIUT, na Madeira, é considerado uma das provas de montanha mais exigentes da Europa, com o percurso de 115 km a atravessar a ilha de norte a sul.

A popularização destas provas tem um lado positivo: mais pessoas adotam estilos de vida ativos e superam os seus limites. Mas também um lado preocupante: muitos atletas amadores participam sem preparação médica adequada, subestimando o impacto fisiológico de esforços que podem durar entre 6 e 30 horas.

Os principais riscos médicos das ultramaratonas

Hiponatremia por ingestão excessiva de água

Um dos riscos menos conhecidos das provas longas é a hiponatremia — a diminuição perigosa dos níveis de sódio no sangue, causada por ingestão excessiva de água sem reposição de eletrólitos. Contrariamente ao que muitos pensam, o problema não é a desidratação, mas o excesso de água sem sal. Os sintomas incluem náuseas, confusão mental, convulsões e, em casos extremos, coma. Em provas de ultramaratona, a hiponatremia pode ser fatal se não for diagnosticada a tempo.

Rabdomiólise

O esforço muscular extremo pode causar a destruição de fibras musculares e a libertação de mioglobina para a corrente sanguínea — um processo chamado rabdomiólise. A mioglobina é tóxica para os rins e pode causar insuficiência renal aguda. Os sinais de alerta incluem urina escura (cor de chá ou coca-cola), dores musculares intensas após a prova e fraqueza persistente. Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine identificou a rabdomiólise como uma das complicações mais comuns em ultramaratonistas, afetando entre 12% e 40% dos participantes em diferentes estudos.

Lesões de sobrecarga nos joelhos e tornozelos

A síndrome da banda iliotibial, as tendinopatias do tendão de Aquiles e as fraturas de stress são as lesões mais frequentes em corredores de longa distância. Em terreno de montanha — como na Serra da Boa Viagem ou nas serras da Madeira —, as descidas acumulam cargas articulares que podem ser três a quatro vezes superiores ao peso corporal. Muitos atletas completam a prova com lesões parciais que, sem tratamento, se tornam crónicas.

Hipotermia e hipertermia

As variações de temperatura nas provas de montanha são imprevisíveis. Uma subida rápida em pleno calor pode provocar golpe de calor (hipertermia) — com confusão mental, pele seca e temperatura corporal acima de 40°C. A hipotermia ocorre quando o corredor abranda ou para em zonas de altitude, especialmente à noite. Ambas as situações constituem emergências médicas.

O que dizem os especialistas em medicina do desporto

Os médicos do desporto são unânimes: qualquer atleta que planeia participar numa prova de ultramaratona deveria realizar uma avaliação médica prévia, independentemente da sua condição física aparente. Esta avaliação inclui:

  • Eletrocardiograma (ECG) de esforço, para descartar arritmias silenciosas que podem tornar-se perigosas em esforços prolongados
  • Análises sanguíneas completas, incluindo função renal, hepática e hemograma, para identificar deficiências que aumentam o risco de complicações
  • Avaliação músculo-esquelética, para identificar desequilíbrios biomecânicos que podem provocar lesões de sobrecarga
  • Plano de nutrição e hidratação adaptado ao perfil do atleta e às condições da prova

Durante a prova, os postos médicos da Federação Portuguesa de Atletismo cobrem os checkpoints principais — mas a monitorização entre checkpoints depende do próprio atleta e dos seus companheiros de corrida. Conhecer os sinais de alerta de rabdomiólise, hiponatremia e hipotermia pode salvar uma vida.

Quando consultar um médico antes e depois da prova

Antes da prova: Se tem mais de 35 anos, nunca realizou um ECG de esforço, tem historial de doenças cardíacas ou renais, ou planeia completar uma distância superior a 42 km pela primeira vez, a consulta com um médico do desporto é fortemente recomendada.

Durante a prova: Dores no peito, confusão mental, urina escura, incapacidade de reconhecer pessoas familiares ou temperatura corporal elevada são sinais para parar imediatamente e pedir assistência.

Após a prova: As primeiras 48 horas após uma ultramaratona são críticas. Urina escura, inchaço súbito nas pernas, dores musculares muito intensas ou febre devem motivar uma ida às urgências — não um "descansinho" extra.

A medicina do desporto em Portugal tem vindo a consolidar-se como especialidade de referência, com consultórios equipados para análise biomecânica, testes de esforço e recuperação pós-prova. Segundo as orientações da Federação Portuguesa de Atletismo, que supervisiona as provas de ultra trail em Portugal, todos os atletas que participam em provas de resistência extrema deveriam ter um acompanhamento médico regular — e não apenas quando a lesão já aconteceu.

O boom das ultramaratonas em Portugal é uma história de superação coletiva. Mas superar os próprios limites de forma segura exige preparação — e, muitas vezes, a orientação de um médico especializado que conheça as exigências específicas deste desporto.

Antes do próximo desafio, consulte a informação disponível na Meia Maratona de Gaia 2026 e lesões de corrida em Portugal — um guia útil sobre os cuidados a ter antes e depois de provas de resistência.

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