Jakub Menšík, 20 anos, e João Fonseca, 19 anos, chegaram às quartas de final de Roland Garros 2026 no dia 2 de junho, tornando-se dois dos três tenistas com menos de 21 anos a chegar tão longe num Grand Slam em simultâneo — o terceiro é o espanhol Rafael Jodar, também com 19 anos. O encontro entre Menšík e Fonseca, marcado para o Philippe-Chatrier, decidia quem avançava para as meias-finais. A geração mais jovem do ténis mundial chegou ao topo sem avisar.
Para chegar às quartas, Menšík sobreviveu mais de quatro horas e meia contra Navone, perdeu o primeiro set a 6-0 frente a De Minaur e ainda recuperou de desvantagens pesadas contra Rublev — tudo em menos de dez dias de competição. São batalhas que testam não apenas o físico, mas o equilíbrio mental de um atleta que ainda não completou 21 anos.
Uma geração que chegou muito cedo ao topo
Em Roland Garros 2026, três tenistas com menos de 21 anos atingiram os quartos de final do quadro masculino pela primeira vez em décadas. Não se trata de coincidência, mas de um ciclo geracional que a ATP e os técnicos identificam desde 2024: atletas formados desde jovens com trabalho psicológico estruturado, capaz de gerir a pressão de um Grand Slam antes dos 20 anos.
Fonseca, o mais jovem dos três, declarou ao site oficial do torneio que a sua abordagem mental mudou radicalmente ao longo do torneio: "Passei a focar-me em cada ponto, não no marcador final." Menšík, por sua vez, admitiu ter encontrado "reservas mentais e físicas que não sabia que tinha."
Estes testemunhos revelam um aspeto que os psicólogos desportivos sublinham há anos: nos Grand Slams, vence quem consegue manter o foco nas unidades mais pequenas da competição — um ponto, um game, um set —, e não quem pensa no troféu.
O que a psicologia desportiva sabe sobre competir aos 20 anos
Competir a nível de elite antes dos 21 anos impõe exigências psicológicas distintas das que se colocam a atletas adultos. O desenvolvimento do córtex pré-frontal — a área cerebral responsável pela regulação emocional e tomada de decisão sob pressão — não está concluído nos jovens desta faixa etária, segundo a literatura científica da área.
Isso não significa incapacidade. Significa que os jovens atletas precisam de estruturas externas mais consistentes para compensar a imaturidade neurológica natural: rotinas pré-competição bem estabelecidas, treino de visualização, técnicas de respiração controlada e, sobretudo, acesso regular a um psicólogo desportivo.
Nos grandes clubes europeus de ténis, a figura do psicólogo é tão central quanto a do preparador físico. O suporte mental é trabalhado semanalmente, com protocolos específicos para cenários de desvantagem no marcador, gestão do erro e recuperação entre sets.
Quando a pressão supera o talento: sinais a observar
Nem todos os jovens atletas têm acesso a suporte psicológico estruturado. E nem todos os sinais de dificuldade emocional são evidentes para os treinadores ou familiares. Os psicólogos desportivos apontam um conjunto de comportamentos que merecem atenção:
- Evitamento de treinos ou competições sem motivo físico aparente
- Irritabilidade excessiva após resultados negativos, fora das proporções habituais
- Dificuldade de concentração em tarefas fora do desporto (escola, relações sociais)
- Perturbações do sono nos dias antes de competição
- Discurso de autodesvalorização sistemático após erros no court
Estes sinais podem indicar burnout precoce, ansiedade de performance ou até depressão — condições que, sem intervenção, comprometem não só a carreira desportiva, mas o desenvolvimento global do jovem.
O papel do psicólogo desportivo na formação de jovens atletas
Em Portugal, o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) disponibiliza recursos de apoio ao desenvolvimento de atletas jovens, incluindo orientações sobre saúde mental no desporto de alto rendimento. O reconhecimento oficial da psicologia desportiva como parte integrante da preparação atlética é cada vez mais consensual.
Um psicólogo desportivo trabalha áreas específicas que vão muito além da "motivação": gestão do ego em momentos de sucesso repentino, elaboração de rotinas mentais de recuperação após derrota, comunicação com treinadores e família, e construção de uma identidade que não dependa exclusivamente dos resultados no campo.
Para um jovem como Menšík ou Fonseca — que passou de anonimato relativo para os grandes ecrãs de Philippe-Chatrier em poucos meses —, esse trabalho não é um luxo. É uma necessidade.
Como a família pode ajudar sem pressionar
Os pais de jovens atletas confrontam um dilema permanente: apoiar sem criar pressão adicional. Os especialistas em psicologia do desenvolvimento desportivo identificam alguns princípios que fazem diferença:
- Separar o desempenho da identidade: o filho não "é" os seus resultados. Uma derrota não é uma falha de carácter.
- Evitar análises táticas imediatamente após a competição: o período pós-jogo é tempo de recuperação emocional, não de debriefing técnico.
- Normalizar a dúvida e a ansiedade: dizer "é normal sentires nervosismo" tem mais valor do que "tens de acreditar em ti".
- Escutar antes de aconselhar: muitas vezes, o atleta precisa de ser ouvido, não de receber soluções.
Nestes casos, consultar um psicólogo clínico ou desportivo — mesmo que não haja um problema identificado — pode ser preventivo e valioso.
Uma geração que merece mais do que aplausos
Menšík e Fonseca estão a mostrar que o ténis de alto nível não pertence exclusivamente a atletas de 25 ou 30 anos. Mas o que os espectadores não veem é o trabalho mental que permite a dois jovens de 19 e 20 anos competir sem bloquear sob a pressão de um Grand Slam.
Se tem um jovem atleta que enfrenta pressão competitiva elevada, e quer perceber se o acompanhamento psicológico pode ajudar, os especialistas em psicologia clínica e desportiva da plataforma Expert Zoom estão disponíveis para uma primeira avaliação.
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Ricardo Rodrigues