O Partido Socialista indicou, a 7 de abril de 2026, o juiz Vítor Teixeira de Sousa — responsável pelo processo secundário da Operação Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates e o empresário Carlos Santos Silva — para vogal do Conselho Superior da Magistratura (CSM). A decisão gerou polémica e levantou uma questão central: quando um juiz abandona um processo, o que muda para os arguidos?
O que é o CSM e por que razão este caso é controverso?
O Conselho Superior da Magistratura é o órgão responsável pela gestão e disciplina dos juízes portugueses. A designação de juízes em exercício para este conselho — por indicação de partidos políticos — é pouco comum e gerou críticas imediatas de juristas e da oposição.
O juiz Vítor Teixeira de Sousa tem um historial que alimenta as suspeitas: segundo o Observador, exerceu funções como chefe de gabinete em governos do PS entre 2021 e 2024, período durante o qual esteve ligado a Mário Belo Morgado (secretário de Estado) e a José Luís Carneiro (ministro da Administração Interna). A sua indicação para o CSM implica o abandono do processo que tem como arguidos figuras associadas ao mesmo partido que o indicou.
Para além da dimensão política, a questão prática é imediata: o que acontece ao julgamento da Operação Marquês quando o juiz responsável muda?
Substituição de juiz num processo: o que diz a lei?
Em Portugal, a substituição de um juiz durante um processo penal é uma situação prevista na lei, mas que pode ter consequências significativas para os arguidos — tanto positivas como negativas.
De acordo com o Código de Processo Penal português, quando um juiz titular de um processo muda de tribunal ou é designado para outras funções, o processo é redistribuído. Para processos em fase de julgamento, a redistribuição pode implicar a repetição de diligências ou o reinício de alguns atos processuais, dependendo do estado em que o processo se encontra.
No caso da Operação Marquês, o processo ainda não tinha chegado à fase de julgamento, o que significa que a redistribuição será menos disruptiva do ponto de vista processual — mas poderá implicar atrasos adicionais num processo que já se arrasta há mais de uma década.
Segundo dados do Tribunal Constitucional e da Procuradoria-Geral da República, processos criminais de grande complexidade em Portugal têm, em média, uma duração de 7 a 12 anos desde a abertura do inquérito até ao trânsito em julgado. A Operação Marquês, iniciada em 2014, está já no limite superior deste intervalo.
Os direitos dos arguidos quando há mudança de juiz
A substituição de um juiz não pode nunca prejudicar os direitos fundamentais dos arguidos, consagrados na Constituição da República Portuguesa e no Código de Processo Penal. Entre os mais relevantes:
Direito a um julgamento justo e imparcial: O novo juiz deve apreciar o processo sem quaisquer pré-conceções, como se estivesse a iniciar o processo de raiz — o que, na prática, é uma garantia importante para os arguidos.
Direito à celeridade processual: O artigo 20.º da Constituição garante a todos o direito a uma decisão em prazo razoável. Atrasos sucessivos, ainda que justificados por razões processuais, podem ser invocados pelos arguidos como fundamento de recurso.
Direito a conhecer o juiz natural: O princípio do juiz natural (ou juiz legal) estabelece que, em regra, nenhum processo pode ser subtraído ao juiz competente para o seu julgamento. Substituições de juiz por razões externas ao processo — como uma nomeação política — podem ser contestadas pelos arguidos se houver suspeita de que a mudança visa influenciar o desfecho.
Direito à continuidade das provas já produzidas: As diligências de prova já realizadas não são, regra geral, repetidas. O novo juiz tem acesso a toda a documentação e atos processuais anteriores.
Quando deve consultar um advogado?
Se é arguido num processo criminal e o juiz titular muda, há vários momentos em que a consulta com um advogado especializado em direito penal é fundamental:
- Imediatamente após a redistribuição, para perceber se existem fundamentos para contestar o ato processual
- Se notar atrasos injustificados no novo juiz em dar seguimento ao processo
- Se tiver dúvidas sobre os seus direitos face a uma mudança que considerou inesperada ou politicamente motivada
- Se receber notificações do tribunal em resultado da redistribuição — cada notificação tem prazos de resposta que, se ultrapassados, podem implicar consequências processuais graves
A Ordem dos Advogados Portugueses recorda que todo o arguido tem direito a patrocínio judiciário, independentemente dos seus recursos financeiros, quando estejam em causa liberdades fundamentais.
A dimensão política que os advogados não podem ignorar
A indicação de um juiz em exercício — com historial de ligações ao partido que o nomeia — para um órgão de gestão judicial, num momento em que esse juiz conduz um processo onde arguidos estão associados ao mesmo partido, levanta questões sérias sobre a independência do judiciário.
Em Portugal, a independência judicial está consagrada no artigo 203.º da Constituição, que estabelece que "os tribunais são independentes e apenas estão sujeitos à lei". A perceção — mesmo que não comprovada — de que fatores políticos influenciam a composição dos processos pode minar a confiança dos cidadãos na justiça.
Para os arguidos e os seus advogados, a vigilância sobre este tipo de movimentos processuais é parte essencial de uma defesa eficaz.
O que fazer se tiver dúvidas sobre o seu processo
Seja a Operação Marquês ou qualquer outro processo criminal em que seja arguido, a regra de ouro é sempre a mesma: não espere. A substituição de um juiz é um momento processual crítico que pode abrir janelas de oportunidade — ou de risco — para a sua defesa. Um advogado penalista com experiência em processos de media complexidade pode ajudá-lo a navegar estas transições com segurança.
Na plataforma Expert Zoom, pode encontrar advogados criminalistas especializados que analisam o seu processo e esclarecem os seus direitos em qualquer fase processual.
Para mais informações sobre os seus direitos enquanto arguido, consulte o portal da Ordem dos Advogados Portugueses — a entidade reguladora que garante o acesso à justiça em Portugal.
Nota: Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento jurídico personalizado. Em caso de processo penal, consulte sempre um advogado.

Sofia Costa