O Haiti perdeu 1-0 frente à Escócia no dia 13 de junho de 2026, no Gillette Stadium em Foxborough, Massachusetts, no arranque do Grupo C do Mundial 2026. John McGinn marcou o único golo ao minuto 28. Mas além do resultado, este encontro revelou algo excecional: 25 dos 26 jogadores convocados pelo Haiti nasceram fora do país, numa seleção construída inteiramente pela diáspora.
Uma seleção da diáspora no maior palco do mundo
O Haiti regressou ao Mundial de Futebol após 52 anos de ausência. Para o conseguir, o selecionador francês Sébastien Migné — que nunca visitou o Haiti — reuniu um plantel composto quase exclusivamente por filhos e netos de emigrantes haitianos espalhados pela Europa e América do Norte.
Wilson Isidor, avançado do Sunderland na Championship inglesa, nasceu em França e representou os escalões jovens franceses até Sub-20 antes de decidir jogar pelo Haiti. Jean-Ricner Bellegarde, médio do Wolverhampton Wanderers, é outro exemplo de jogador formado fora do Caribe que escolheu as cores haitianas. Duckens Nazon, o melhor marcador da fase de apuramento com seis golos — incluindo um hat-trick histórico frente à Costa Rica — também representa a vasta comunidade haitiana na América do Norte.
A questão que muitos se fazem: como é que a FIFA permite que jogadores nascidos em França, Inglaterra ou Canadá representem o Haiti numa competição da magnitude de um Campeonato do Mundo?
O que dizem as regras da FIFA sobre elegibilidade nacional
Segundo o Regulamento de Elegibilidade da FIFA, um jogador pode representar uma seleção nacional se cumprir pelo menos um dos seguintes critérios:
- Ter nascido no território do país em questão
- Ter pai ou mãe com a nationalidade desse país
- Ter avô ou avó com a nationalidade desse país
- Ter residido no país durante pelo menos cinco anos após os 18 anos de idade
Wilson Isidor pôde mudar de França para o Haiti porque os seus progenitores são haitianos. Como nunca disputou qualquer jogo oficial pela seleção principal francesa — apenas partidas de formação —, estava elegível para efectuar a transição de acordo com o artigo 9.º do Regulamento de Elegibilidade da FIFA. Este artigo estipula que um jogador pode mudar de associação se a representação anterior se limitou a escalões jovens e não incluiu competições officiais com a equipa sénior.
Quando é possível mudar de seleção nacional?
A mudança de seleção é permitida uma única vez na carreira, mas apenas em circunstâncias muito precisas. As condições acumuladas que a FIFA exige são:
Condição 1 — Elegibilidade pela nova associação: o jogador tem de satisfazer um dos critérios de filiação (nascimento, filiação, residência) em relação ao novo país que pretende representar.
Condição 2 — Ausência de compromisso formal com a associação anterior: o jogador não pode ter participado em jogos oficiais pela equipa principal da associação anterior. Jogos de formação ou amigáveis não bloqueiam a transição.
Condição 3 — Aprovação da FIFA: o pedido de mudança tem de ser formalmente submetido e aprovado pela FIFA antes de qualquer convocatória oficial.
Este mecanismo tem sido amplamente utilizado por países com grandes diásporas — Cabo Verde, Senegal, Marrocos e, agora, o Haiti — para construir seleções competitivas com jogadores formados nos melhores campeonatos europeus. Como se verificou também nos casos do Qatar e da Suíça no Mundial 2026, as regras de elegibilidade permitem construir equipas que reflectem a realidade migratória global.
O que significa a dupla nationalidade para os cidadãos portugueses?
Portugal tem uma das maiores diásporas do mundo. Estima-se que entre 4,5 e 5 milhões de portugueses vivam no estrangeiro, e muitos dos seus filhos nasceram em França, Luxemburgo, Suíça, Brasil ou Angola — podendo ter dois passaportes desde o nascimento ao abrigo do Código da Nacionalidade Portuguesa e das leis do país de acolhimento.
O caso do Haiti ilustra bem como a dupla nationalidade vai muito além do desporto. Para os cidadãos portugueses com dupla nationalidade, existem implicações práticas que muitas vezes surgem de forma inesperada:
Residência e vistos: ter dois passaportes pode simplificar a circulação internacional, mas também pode criar conflitos de jurisdição quando os dois países têm regras de residência diferentes.
Obrigações fiscais: alguns países exigem que os seus cidadãos paguem impostos independentemente do local de residência, o que pode gerar dupla tributação se não existir convenção fiscal entre os dois estados.
Serviço militar: em certos países, a nationalidade implica obrigações militares que podem conflituar com as regras do país de residência.
Herança e espólio: quando um familiar falece com bens em dois países, a questão sobre qual a lei aplicável — portuguesa ou estrangeira — pode gerar litígios longos e custosos.
Registo de menores: filhos nascidos no estrangeiro de pais portugueses têm direito à nationalidade portuguesa por filiação, mas o registo deve ser efectuado atempadamente nos consulados ou nas conservatórias competentes.
Quando consultar um advogado especializado?
O exemplo dos jogadores do Haiti mostra que a nationalidade é, antes de mais, uma questão jurídica. A decisão de Wilson Isidor de mudar de seleção implicou a análise de regulamentos internacionais, contactos formais com duas federações nacionais e uma aprovação burocrática da FIFA. No plano civil, as implicações são igualmente complexas.
Deve consultar um advogado especializado em direito da nationalidade quando:
- Pretende adquirir, manter ou renunciar a uma segunda nationalidade
- Recebe uma notificação de uma administração estrangeira sobre a sua situação de elegibilidade ou residência
- Enfrenta questões de herança com bens em mais do que um país
- Quer regularizar a situação de filhos nascidos noutro país com direito à nationalidade portuguesa
- Tem dúvidas sobre obrigações fiscais decorrentes da dupla nationalidade
Tal como o Haiti recorreu a especialistas para navegar as regras da FIFA, os particulares devem recorrer a advogados com experiência em direito internacional privado para evitar erros que podem ser difíceis de corrigir.
Pode consultar os advogados disponíveis na plataforma Expert Zoom para obter orientação personalizada sobre a sua situação concreta.
Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Para situações específicas, consulte sempre um advogado especializado.

João Silva