A atriz portuguesa Catarina Siqueira, de 39 anos, partilhou abertamente em janeiro de 2026 que tentou o Mounjaro — um medicamento injetável de última geração — para perder peso após o nascimento do seu segundo filho, Mateus, em novembro de 2025. A conclusão foi direta: "não funcionou". O relato da atriz levanta uma questão médica importante que afeta milhares de mães portuguesas: os medicamentos GLP-1 como o Mounjaro ou o Ozempic são seguros e eficazes no período pós-parto?
O Que é o Mounjaro e Por Que Está a Dar Que Falar?
O Mounjaro (tirzepatide) é um medicamento injetável aprovado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) para o tratamento da diabetes tipo 2 e, mais recentemente, da obesidade. Pertence à família dos agonistas do recetor GLP-1/GIP, a mesma classe farmacológica do Ozempic e do Wegovy. A sua ação é dupla: reduz o apetite e retarda o esvaziamento gástrico, promovendo a perda de peso.
Segundo a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), o tirzepatide está aprovado para adultos com índice de massa corporal (IMC) elevado, mas a sua utilização deve ser sempre supervisionada por um médico. Não é um produto de venda livre e o seu uso sem acompanhamento médico acarreta riscos significativos.
Por Que o Mounjaro Pode Não Funcionar no Pós-Parto?
O caso de Catarina Siqueira não é isolado. Vários fatores explicam por que estes medicamentos podem ter resultados diferentes — ou mesmo contraproducentes — durante o período pós-parto:
1. Corpo em recuperação hormonal
Após o parto, os níveis hormonais da mulher estão em profunda transformação. A prolactina (associada à amamentação), o estrogénio e a progesterona estão em desequilíbrio. Este ambiente hormonal pode interferir com a resposta ao tirzepatide, cujo mecanismo de ação interage com o eixo intestino-pâncreas-cérebro.
2. Restrição calórica e produção de leite
Se a mãe está a amamentar, a restrição calórica associada ao Mounjaro pode comprometer a produção de leite. A amamentação requer entre 300 a 500 calorias adicionais por dia. Uma redução abrupta da ingestão calórica pode levar a fadiga intensa, diminuição do leite materno e défices nutricionais para o bebé.
3. Segurança na amamentação: ainda sem dados definitivos
A FDA (Food and Drug Administration, dos EUA) classifica como "desconhecido" se o tirzepatide passa para o leite materno. O fabricante, a Eli Lilly, aconselha precaução durante a amamentação. Embora as evidências emergentes sugiram que a molécula é demasiado grande para ser absorvida pelo bebé, não existem estudos de longo prazo que confirmem a segurança completa.
4. Perda de massa muscular
No pós-parto, o corpo da mulher já sofreu uma perda de massa muscular significativa. Os GLP-1 podem acentuar este processo se não forem acompanhados de exercício de resistência e supervisão nutricional. O resultado pode ser emagrecimento com perda de músculo, não de gordura — o oposto do desejado.
O Que Dizem as Recomendações Médicas Atuais?
O consenso médico atual é claro: os medicamentos GLP-1, incluindo o Mounjaro, não são recomendados para mulheres em período de amamentação, exceto em situações específicas avaliadas individualmente por um médico especialista.
Para as mulheres que já terminaram a amamentação mas pretendem usar estes medicamentos para perder o peso ganho na gravidez, a avaliação médica prévia é obrigatória. Um médico de clínica geral ou um endocrinologista deve:
- Avaliar o estado nutricional atual
- Verificar se existem contraindicações (história de pancreatite, tiróide, etc.)
- Acompanhar os resultados e ajustar a dose
- Complementar com orientação nutricional e plano de exercício
O Peso do Pós-Parto: Uma Questão de Saúde, Não de Estética
A história de Catarina Siqueira é um espelho de uma pressão social crescente sobre as mães para "recuperar o corpo" rapidamente após a gravidez. Esta pressão, amplificada pelas redes sociais, pode levar a decisões precipitadas sobre medicação.
Do ponto de vista médico, o peso retido após a gravidez é, em muitos casos, um mecanismo fisiológico normal que o corpo usa para garantir reservas energéticas, especialmente durante a amamentação. Para a maioria das mulheres, a perda de peso saudável após a gravidez ocorre de forma gradual — entre 6 a 12 meses — com alimentação equilibrada e atividade física moderada.
Casos semelhantes de atrizes e figuras públicas que recorreram a medicamentos para emagrecer após a maternidade, como a experiência de Inês Aires Pereira no pós-parto, mostram que o acompanhamento médico especializado faz toda a diferença nos resultados.
Quando Deve Consultar um Médico Após o Parto?
Se está a considerar qualquer intervenção médica para perder peso após a gravidez, consulte um médico antes de tomar qualquer decisão. Em particular, procure ajuda especializada se:
- O peso retido após 6 meses do parto for superior a 5 kg sem resposta a dieta e exercício
- Tiver sintomas de depressão pós-parto ou distúrbios alimentares
- Estiver a pensar em usar medicamentos como o Mounjaro, Ozempic ou Wegovy
- Tiver historial de diabetes, doenças da tiróide ou problemas hormonais
O médico pode realizar análises ao sangue, avaliar o IMC e recomendar a abordagem mais segura e eficaz para o seu caso específico. Intervenções precoces e bem supervisionadas têm melhores resultados do que automedicação.
A Lição do Caso Catarina Siqueira
A atriz foi honesta ao partilhar que o Mounjaro "não funcionou" — e esta transparência é valiosa. O seu relato alerta para o facto de que estes medicamentos não são uma solução universal, especialmente no período pós-natal. Para algumas mulheres podem funcionar; para outras, os riscos superam os benefícios.
O que a ciência médica diz claramente é que a decisão de usar um medicamento GLP-1 no pós-parto deve ser tomada com um profissional de saúde qualificado, nunca de forma autónoma. Um médico pode avaliar casos de mulheres após a gravidez que buscam apoio especializado e recomendar alternativas mais adequadas a cada situação.
Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento médico. Para questões de saúde, consulte sempre um médico qualificado.

Ricardo Rodrigues