Altice Portugal corta 1.000 postos de trabalho para implementar IA: o que os trabalhadores devem saber

Trabalhador a embalar os seus pertences num escritório corporativo em Lisboa após despedimento coletivo
Sofia Sofia CostaJurídico
4 min de leitura 20 de abril de 2026

A Altice Portugal anunciou o corte de cerca de 1.000 postos de trabalho — equivalente a 16% do total da sua força laboral — para financiar a implementação de sistemas de inteligência artificial na sua operação. A maioria das saídas deverá ocorrer até ao final de 2026, segundo os sindicatos do setor das comunicações, e levantam questões urgentes sobre os direitos dos trabalhadores afetados.

O que aconteceu: a maior vaga de despedimentos por IA em Portugal

A decisão da Altice Portugal, empresa-mãe do MEO e operadora do portal SAPO, representa a primeira grande reestruturação motivada explicitamente pela adoção de inteligência artificial num grupo de telecomunicações português. A empresa justificou os cortes com a necessidade de ajustar a estrutura de custos à nova realidade operacional que a IA permite — automatizando funções que até agora eram desempenhadas por trabalhadores humanos.

Segundo informação avançada pelo Jornal Económico e confirmada pelos sindicatos STT, as saídas afetam principalmente funções de atendimento ao cliente, análise de dados e suporte técnico de primeiro nível — exatamente as áreas onde a automação por IA demonstrou maior impacto nos últimos anos.

A mesma empresa recusou um aumento salarial de 1,8% proposto para 2026, com aumentos a ser aplicados apenas a partir de julho do mesmo ano. Este contexto agrava o impacto financeiro imediato sobre os trabalhadores afetados.

O que os trabalhadores têm direito a receber

Em Portugal, os trabalhadores que perdem o emprego por motivos estruturais — como a reorganização empresarial associada à implementação de tecnologia — têm direitos bem definidos no Código do Trabalho.

Compensação por despedimento coletivo

Quando uma empresa elimina 2 ou mais postos de trabalho em 90 dias com base em motivos estruturais, trata-se de um despedimento coletivo. Neste caso, os trabalhadores têm direito a:

  • Compensação de 20 dias de salário base por cada ano de antiguidade (com mínimo de três meses)
  • Aviso prévio de 15 a 75 dias, consoante a antiguidade
  • Prioridade de reintegração, caso a empresa venha a criar postos equivalentes nos dois anos seguintes

[Negociação com o sindicato](/pt/noticias/sindicato-negociac-o-coletiva-portugal-2026-acordo-laboral)

A lei obriga a empresa a comunicar formalmente o despedimento coletivo às estruturas sindicais e a abrir um período de negociação de 15 dias. O sindicato STT, que representa muitos trabalhadores da Altice, já manifestou a sua oposição ao processo.

Os trabalhadores representados por sindicato têm acesso a apoio jurídico para avaliar se o processo de despedimento está a ser conduzido de acordo com a lei e se as compensações apresentadas são adequadas.

Acesso ao subsídio de desemprego

Um trabalhador que perde o emprego por despedimento coletivo tem direito a subsídio de desemprego, desde que cumpra os critérios da Segurança Social: pelo menos 360 dias de trabalho nos últimos 24 meses e inscrição no IEFP em 90 dias após a cessação do contrato.

Quando consultar um advogado especializado

Muitos trabalhadores aceitam as condições de saída propostas pelas empresas sem verificar se estas são legalmente adequadas. Isto pode resultar em perda de montantes significativos a que teriam direito.

Um advogado especializado em direito laboral pode ajudar a:

  • Verificar se o processo de despedimento coletivo está a ser conduzido legalmente
  • Avaliar se a compensação proposta é justa ou se existem bases para negociar um valor superior
  • Contestar despedimentos ilegais ou ilícitos
  • Identificar outras compensações a que o trabalhador possa ter direito, como férias não gozadas, subsídios em atraso ou incumprimentos contratuais

Na Expert Zoom, pode consultar um advogado especializado em direito laboral disponível online, sem necessidade de deslocação, para analisar a sua situação concreta.

O precedente que a Altice abre para o mercado português

O caso da Altice Portugal não é um caso isolado. À escala global, a McKinsey estima que entre 400 e 800 milhões de postos de trabalho poderão ser automatizados até 2030, com os setores de telecomunicações, serviços financeiros e retalho na linha da frente.

Em Portugal, onde o mercado laboral tem ainda uma forte componente de serviços de atendimento e suporte, o impacto pode ser sentido em múltiplos setores nos próximos anos. A legislação laboral atual oferece proteções, mas a sua aplicação efetiva depende do conhecimento dos trabalhadores sobre os seus direitos — e da disposição para os fazer valer.

O caso da Altice serve também de alerta para trabalhadores de outras empresas de telecomunicações, banca e retalho: a automatização não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente em 2026. A melhor defesa é o conhecimento dos direitos laborais e o acesso a aconselhamento especializado antes de assinar qualquer acordo de saída.

Perante uma transição tecnológica acelerada, o aconselhamento jurídico especializado deixa de ser um luxo e passa a ser uma ferramenta essencial de proteção para qualquer trabalhador.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento jurídico individualizado. Os direitos concretos de cada trabalhador dependem do contrato, da antiguidade e das circunstâncias específicas do despedimento. Consulte sempre um advogado para a sua situação.

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