SpaceX IPO 2026: Musk pode ser o primeiro trilionário da história — o que os investidores precisam de saber

Elon Musk em evento público da Tesla Owners Club Belgium

Photo : Tesla Owners Club Belgium / Wikimedia

Beatriz Beatriz MartinsGestão de Património
5 min de leitura 21 de maio de 2026

A SpaceX registou o seu prospeto de IPO a 20 de maio de 2026, com um roadshow para investidores previsto para 4 de junho e início de cotação na Nasdaq — símbolo SPCX — para o final de junho. A avaliação-alvo: 1,7 biliões de dólares. A implicação imediata: Elon Musk, que detém cerca de 42 % do capital e 85 % dos direitos de voto, poderia ver a sua fortuna pessoal superar um bilião de dólares — tornando-se o primeiro "trilionário" da história humana.

Não é um pormenor financeiro abstrato. É a materialização de uma ideia que, há 20 anos, parecia ficção científica: um ser humano com uma riqueza maior do que o PIB de Portugal, Espanha e Países Baixos somados. E o caminho até lá foi construído sobre decisões de gestão patrimonial que qualquer gestor de riqueza pode analisar — e qualquer investidor deve entender.

A empresa que quase não dá lucro vale 1,7 biliões de dólares

O paradoxo central do IPO da SpaceX é contabilístico. A empresa registou uma perda líquida de 4,9 mil milhões de dólares em 2025, seguida de um prejuízo de 4,3 mil milhões no primeiro trimestre de 2026, sobre receitas de apenas 4,7 mil milhões no mesmo período. Num universo de avaliação baseado em P/L (preço/lucro), a SpaceX simplesmente não pode ser avaliada por esse método.

O que justifica a avaliação astronómica é o Starlink. A divisão de internet por satélite gerou 11,4 mil milhões de dólares de receita em 2025 (+50 % face a 2024) e é consistentemente lucrativa. O restante — programa espacial, xAI, X — é atualmente um poço de capex: 20,7 mil milhões de dólares em despesas de capital em 2025, dos quais 12,7 mil milhões em infraestrutura de inteligência artificial.

A aposta de Musk é que o mercado total endereçável que a SpaceX projeta — 28,5 biliões de dólares, sendo 26,5 biliões em IA — justifica hoje um sacrifício financeiro que será compensado por receitas futuras. É exatamente o modelo que a Amazon de Jeff Bezos usou durante 20 anos de prejuízos antes de se tornar indiscutivelmente a empresa mais lucrativa do Ocidente.

A estrutura acionista que ninguém pode contrariar

A característica mais reveladora do prospeto da SpaceX — e o maior aviso para os investidores de retalho que considerem participar no IPO — é a estrutura de controlo.

Após a oferta pública, Musk manterá mais de 85 % dos direitos de voto, apesar de deter apenas ~42 % do capital económico. Isto é possível através de uma estrutura de ações de duas classes (dual-class shares), prática já usada por Google, Facebook e Snap. Em termos práticos: os acionistas do IPO compram ações com direitos de voto muito reduzidos. Mesmo que a maioria dos acionistas se oponha a uma decisão de gestão, Musk pode avançar com ela.

Esta concentração de poder não é ilegal. A Comissão de Mercado de Valores Mobiliários portuguesa (CMVM) alerta regularmente os investidores para os riscos de estruturas de controlo concentrado, especialmente em IPOs de empresas tecnológicas americanas acessíveis via plataformas de corretagem europeias. O principal risco: o fundador pode tomar decisões que maximizam a sua visão de longo prazo mas não o retorno de curto prazo — exatamente o historial de Musk com a Tesla e o Twitter/X.

O que é ser "trilionário" e como se constrói essa riqueza

Musk tem hoje uma fortuna estimada de 852 mil milhões de dólares pela Forbes. Para cruzar o trilião, precisa que a sua participação na SpaceX ganhe aproximadamente 148 mil milhões adicionais — um aumento de 17,3 % na avaliação da empresa, de 1,7 para cerca de 2 biliões.

A estrutura da sua riqueza é radicalmente diferente da de um bilionário convencional. Musk recebe um salário simbólico de 54.080 dólares anuais desde 2019 (valor que não mudou). A riqueza real vem de pacotes de compensação em ações condicionados a metas de avaliação (na Tesla, pacotes ativados a cada 100 mil milhões de aumento de capitalização) e de participações diretas em empresas privadas como a SpaceX, que nunca foram tributadas à entrada — só o são no momento da venda.

Este modelo de criação de riqueza — sem salário alto, sem dividendos regulares, totalmente concentrado em apreciação de capital — é incomum mas não exclusivo de Musk. É a estrutura que Jeff Bezos, Larry Page e Sergey Brin usaram durante décadas.

O que os investidores portugueses devem saber antes de participar

O IPO da SpaceX não estará disponível para a maioria dos investidores de retalho europeus na janela inicial. Os roadshows institucionais de junho destinam-se a fundos de investimento, family offices e investidores qualificados. A oferta pública, se e quando chegar a plataformas de retalho, virá com restrições regulatórias diferentes na Europa e nos EUA.

Mas a discussão sobre "trilionários" tem uma implicação prática imediata para qualquer pessoa com poupanças: a concentração de riqueza neste nível é inseparável da concentração de risco. Para compreender como estruturar o investimento em 2026 de forma equilibrada, a resposta não está em tentar replicar a estratégia de Musk — está em garantir diversificação adequada e aconselhamento profissional antes de qualquer decisão baseada em narrativas de crescimento extraordinário.

Os gestores de patrimônio recomendam três perguntas antes de qualquer decisão de investimento inspirada por grandes IPOs:

  1. Qual é o horizonte temporal? A SpaceX pode valer 3 biliões em 2035 — ou 400 mil milhões após um ciclo de contração no capex de IA. O retorno de 10 anos é imprevisível.

  2. Qual é a percentagem da poupança total? Nenhum único ativo — mesmo a SpaceX — deve representar mais de 5 % a 10 % de uma carteira diversificada de um investidor de retalho.

  3. Qual é o meu conhecimento do setor? Investir em empresas de lançamento espacial e IA requer compreensão de ciclos de capex que não existem nos setores tradicionais. Sem esse conhecimento, um consultor financeiro especializado é essencial.

O primeiro trilionário da história pode ser anunciado ainda em 2026. Mas a lição mais valiosa que o seu percurso oferece não é sobre como ficar rico — é sobre como entender a estrutura e o risco por detrás dos números.

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