A proposta de lei "Trabalho XXI" foi aprovada em Conselho de Ministros a 15 de maio de 2026 e entregue na Assembleia da República a 19 de maio. Está agora em debate parlamentar — e promete alterar de forma significativa o Código do Trabalho em Portugal. A reforma foi suficientemente polémica para desencadear uma greve geral no dia 3 de junho de 2026, convocada pela CGTP-IN, que afetou os setores público, privado e social em todo o país. Para qualquer trabalhador ou empregador, perceber o que está em causa é urgente.
O Que é a Reforma Laboral "Trabalho XXI"?
O "Trabalho XXI" é a designação do pacote legislativo apresentado pelo governo para rever o Código do Trabalho. O objetivo declarado é modernizar as regras laborais, aumentar a flexibilidade para as empresas e reduzir a precariedade para os trabalhadores. As centrais sindicais contestam que o resultado real seja o oposto — daí a greve geral e o crescente debate público.
O diploma foi publicado no Diário da República como proposta de lei e aguarda votação final na Assembleia da República. O texto encontra-se na fase de especialidade, o que significa que ainda pode sofrer alterações antes de ser aprovado. No entanto, muitas das suas disposições já influenciam as negociações entre trabalhadores e empregadores no dia a dia.
As Principais Mudanças nos Contratos de Trabalho
A proposta inclui alterações profundas ao regime dos contratos a prazo. Os contratos a termo passam a poder ter uma duração máxima de 3 anos (atualmente são 2), com o contrato de muito curta duração a permitir até 5 anos de vínculo total. Para contratos sem prazo definido, a renovação passa a ser possível por até 5 anos antes de se tornar efetivamente permanente.
Estas mudanças preocupam os sindicatos por um motivo claro: mais tempo de contrato temporário significa mais tempo de incerteza para o trabalhador, com menos proteção em caso de despedimento e menor capacidade de negociação salarial.
Outra alteração relevante: os empregadores poderão requerer ao tribunal que bloqueie a reintegração de um trabalhador despedido, pagando uma indemnização majorada. Esta possibilidade, antes reservada apenas a microempresas, alarga-se agora a todas as organizações. Na prática, significa que um despedimento ilegal pode ser "comprado" por um valor superior — mas sem o trabalhador recuperar o posto de trabalho.
Banco de Horas e Horários Flexíveis
O banco de horas individual — mecanismo que permite ao empregador variar o horário de trabalho sem acordo coletivo — volta a ser permitido, com limites. O empregador pode exigir até 2 horas diárias extra; as horas acumuladas que ultrapassem os limites legais são remuneradas com um acréscimo de 25% após seis meses.
Para os trabalhadores, isto significa que o horário standard de 8 horas diárias pode ser temporariamente alargado por decisão unilateral da entidade patronal — sem negociação coletiva prévia. A lei prevê compensação, mas os sindicatos argumentam que os trabalhadores mais vulneráveis dificilmente recusam estas imposições no contexto de uma relação de emprego assimétrica.
Outras Mudanças: Licença Parental e Formação
A reforma toca também nos direitos ligados à parentalidade. A licença parental por amamentação passa a exigir certificado médico a partir do primeiro dia, renovável a cada seis meses, e fica limitada até a criança completar 2 anos. Os sindicatos veem nisto uma burocracia adicional que penaliza sobretudo as mães trabalhadoras, que já enfrentam mais obstáculos no regresso ao trabalho.
Na formação profissional, a proposta estabelece um mínimo de 30 horas anuais de formação garantida para trabalhadores de microempresas — um avanço face à situação anterior de ausência de garantia, mas abaixo das 40 horas aplicáveis nas restantes empresas. Esta diferença pode ser relevante para quem trabalha numa PME ou microempresa e quer desenvolver competências para uma progressão de carreira.
Pode complementar esta leitura com informação sobre outros direitos laborais no calendário português em 2026, incluindo tolerâncias de ponto e obrigações dos empregadores em dias especiais.
Quando Deve Consultar um Advogado Laboral?
A complexidade do "Trabalho XXI" cria situações em que tanto trabalhadores como empregadores podem precisar de orientação jurídica. Os momentos mais críticos incluem:
- Renovação ou não renovação de contrato a prazo: saber se o empregador respeitou os novos limites máximos e quais os seus direitos caso não tenha
- Imposição de banco de horas: entender se o mecanismo está a ser aplicado legalmente e quais as suas opções de recusa ou negociação
- Despedimento com indemnização em vez de reintegração: avaliar se o valor proposto pelo empregador é justo face às novas regras
- Licença parental contestada: garantir que os seus direitos enquanto pai ou mãe estão a ser cumpridos pela entidade patronal
- Formação profissional negada: reclamar o direito mínimo garantido por lei, incluindo nas microempresas
- Negociação de acordo de saída: perceber o valor real dos seus direitos antes de assinar qualquer documento
Em todos estes cenários, um advogado especializado em direito do trabalho pode fazer a diferença entre aceitar condições desfavoráveis e exercer os seus direitos de forma fundamentada. As leis laborais são complexas e em constante evolução — e o "Trabalho XXI" vai adicionar novas camadas a essa complexidade.
O Que Fazer Agora
O debate parlamentar continua. É possível que a versão final do "Trabalho XXI" seja diferente da proposta inicial — os partidos de oposição já apresentaram dezenas de propostas de alteração. Mas a pressão sobre os trabalhadores já existe hoje, antes da lei estar aprovada: empregadores informados sobre as mudanças previstas podem começar a ajustar contratos, horários e políticas internas enquanto o diploma está ainda em discussão.
A greve geral de 3 de junho foi um sinal claro de que este tema mobiliza. Independentemente da posição política de cada um, é fundamental conhecer os seus direitos concretos no contexto da sua situação laboral específica.
Se tem dúvidas sobre como o "Trabalho XXI" o pode afetar — seja como trabalhador num contrato a prazo, como pai ou mãe a gerir uma licença parental, ou como empregador a adaptar as suas políticas —, consulte um advogado especializado em direito laboral na Expert Zoom e receba uma análise personalizada, em qualquer parte do país.
Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento jurídico individualizado. As disposições do "Trabalho XXI" ainda estão em debate parlamentar e podem sofrer alterações.

João Silva